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Reencontro com um clássico de Hollywood

A reposição de "Sweet Smell of Success" permite-nos reencontrar um exemplo invulgar do melhor cinema "made in USA" de finais da década de 1950 — com assinatura do brilhante, e muito esquecido, Alexander Mackendrick.

Reencontro com um clássico de Hollywood
Burt Lancaster e Tony Curtis: "Sweet Smell of Success" ou um mundo de mentiras e máscaras
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No interior do ciclo 'A "Nova Vaga" Inglesa' (apresentado pela Medeia Filmes), o filme "Sweet Smell of Success" (1957) constitui, por assim dizer, a excepção que confirma a regra. Dito de outro modo: este não é um filme inglês, mas sim um genuíno produto de Hollywood, originalmente distribuído por um grande estúdio (United Artists).

A sua inclusão "atípica" justifica-se pelo facto de se tratar de uma realização de Alexander Mackendrick (1912-1993), nascido nos EUA, mas com uma presença fundamental na renovação da produção inglesa dos anos 50/60. Quando dirigiu "Sweet Smell of Success", assinara já títulos emblemáticos como "O Homem do Fato Claro" (1951) ou "O Quinteto Era de Cordas" (1955), mais tarde realizando "Tempestade na Jamaica" (1965), este também incluído no ciclo.

Quando vemos o genérico do filme, dir-se-ia que estamos perante uma antologia de figuras notáveis da dinâmica artística de Hollywood nesses anos tão importantes na releitura e reconversão da herança clássica — este era um cinema que acompanhava as próprias convulsões de valores e comportamentos.


Registe-se, desde logo, a trilogia de produtores: James Hill, Harold Hecht e Burt Lancaster, este um dos principais intérpretes, a par de Tony Curtis — dir-se-ia também que encontramos aqui um modelo premonitório de alguma produção independente que, em qualquer caso, nunca excluiu uma relação de mútuo interesse com as "majors".

Depois, temos o dueto de argumentista, Clifford Odets e Ernest Lehman, dois símbolos da nobreza narrativa de Hollywood (dois anos mais tarde, Lehman assinaria o argumento de "Intriga Internacional", para Alfred Hitchcock). Sem esquecer, claro, o genial director de fotografia James Wong Howe, que deixou a sua marca em dezenas de títulos, incluindo "Corpo e Alma" (1947), de Robert Rossen, e "A Flor à Beira do Pântano" (1966), de Sydney Pollack, e ainda, no domínio musical, a banda sonora composta por Elmer Bernstein, com a participação do quinteto de Chico Hamilton.


O resultado de tão sofisticadas contribuições é um dos mais contundentes retratos que já se fizeram sobre as relações perversas entre relações públicas e jornalismo. Mais concretamente, esta é a saga de Sidney Falco (Curtis), agente de imprensa que mantém uma relação de inusitada dependência com o cronista do mundo do espectáculo J. J. Hunsecker (Lancaster), a ponto de este lhe exigir que monte um esquema de falsidades — o título português é "Mentira Maldita" — para afastar a sua irmã de um músico de jazz que ele considera indigno...

Enfim, essa mini-sinopse está longe de dar conta do que acontece em "Sweet Smell of Success", em particular do modo como a trajectória de Falco, tentando mover as suas influências, funciona como um mergulho num universo em que cada personagem parece viver da (im)possibilidade de manter o seu estatuto, a não ser através de uma ficção de si próprio. Esta é uma fábula cruel sobre mentiras e máscaras.

Nesta perspectiva, "Sweet Smell of Success" desenvolve-se como uma prodigiosa teia de encontros/desencontros em que cada um, voluntariamente ou não, é levado a testar a sua relação com a verdade. E não é a menor das maravilhas o facto de a agilidade da câmara de Mackendrick, articulada com o trabalho de luz de Howe, ir desenhando um verdadeiro labirinto de diálogos e rostos, gestos e silêncios, que nos conduz a uma desencantada "moral da história": a candura mais desarmada corre o risco de ser esmagada pelo cinismo dominante.

Tudo isto passa, como é óbvio, pelo labor do elenco. Para lá da excelência de Curtis e Lancaster (quem disse que Tony Curtis foi apenas um "galã" de comédias ligeiras?...), sublinhemos a presença de Susan Harrison, no papel da irmã de Lancaster, a par de secundários como Martin Milner, Sam Levene ou Barbara Nichols — este é um cinema de actores & dramas, da arte de representar e do ofício de contar histórias.

Crítica de João Lopes actualizado às 10:39 - 20 agosto '20
publicado 00:15 - 20 agosto '20

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