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Saudades de Humphrey Bogart

Nunca seria fácil recuperar os sinais e, sobretudo, o espírito do clássico filme "noir" — com "Viver na Noite", Ben Affleck bem tenta satisfazer a sua nostalgia cinéfila, mas os resultados ficam-se por um decorativismo pouco motivador.

Saudades de Humphrey Bogart
Ben Affleck em "Viver na Noite": actor, argumentista e realizador
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 Saudades de Humphrey Bogart
Viver na Noite Seguir os conselhos do pai não está na natureza de Joe Coughlin. Em vez disso, o veterano da Primeira Guerra Mundial autoproclama-se um fora de lei, apesar de ser filho de um respeitável capitão da Polícia de Boston. Mas Joe não é mau de todo; na verdade, ele não é suficientemente mau para a vida que escolheu. Ao contrário dos outros gangsters para quem ele se recusa a trabalhar, ele demonstra ...

Há filmes em que parece que está tudo certo... Desde os cenários e guarda-roupa da época em que decorre a acção, até aos sinais mais ou menos cinéfilos que nos permitem detectar a sua genealogia artística. "Viver na Noite" é, por certo, um desses filmes — porquê, então, a sensação de que está tudo errado?...

O mínimo que se pode dizer é que Ben Affleck se lançou no projecto mais ambicioso da sua carreira de realizador, depois de "Vista pela Última Vez..." (2007), "A Cidade" (2010) e "Argo" (2012), este consagrado nos Oscars. De novo a partir de um romance de Dennis Lehane (tal como no seu primeiro filme), Affleck lança-se na tripla qualidade de director/argumentista/protagonista, procurando satisfazer uma evidente nostalgia pelo clássico filme "noir".

O problema é que não basta ser mais ou menos eficaz no fingimento das poses e gestos de Humphrey Bogart para recuperar a densidade narrativa e a perturbação emocional da tradição "noir". A história de Joe Coughlin (Affleck), filho de um polícia e figura central do sub-mundo de Boston durante a Lei Seca, acaba por ser reduzida a um exercício decorativo que não supera a condição de telefilme de luxo.

Para além de Affleck, o filme conta ainda com as participações de gente tão talentosa como Elle Fanning, Sienna Miller, Brendan Gleeson, Zoe Saldana e Chris Cooper, ou ainda o "oscarizado" director de fotografia Robert Richardson — infelizmente, a competência disponível não chegou para conferir intensidade, ou mesmo motivação, àquela que fica como uma das primeiras deislusões do ano cinematográfico.

Crítica de João Lopes
publicado 17:44 - 12 janeiro '17

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