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Uma história de amor e pudor

Já conhecíamos o cineasta indiano Ritesh Batra através de "A Lancheira", um exemplo de subtileza emocional. Agora, com a estreia de "Fotografia", podemos confirmar o apelo universal da sua visão do mundo.

Uma história de amor e pudor
Sanya Malhotra no filme de Ritesh Batra — história indiana, filme universal
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Hoje que tanta se fala do poder das imagens (muitas vezes sem se falar de coisa nenhuma...), eis que surge um filme realmente centrado no inusitado poder que uma imagem pode conter. E, sobretudo, no modo como a sua circulação pode transformar as relações entre um pequeno grupo de pessoas.

"Fotografia", produção da Índia dirigida por Ritesh Batra, é isso mesmo: a história de uma imagem registada por Rafi, no seu dia a dia de fotógrafo de uma zona turística junto a um templo... Ao fotografar a jovem Miloni, o acontecimento será rotineiro, mas vai funcionar como pedra de toque de uma relação capaz de desafiar as certezas dos próprios envolvidos.


Há, aqui, nomes por certo ignorados pela agitação mediática dos nossos dias, mas vale a pena registá-los: respectivamente como Rafi e Miloni, Nawazuddin Siddiqui e Sanya Malhotra são brilhantes na representação de uma proximidade afectiva e amorosa que, afinal, põe em causa as regras de coexistência dos mundos (muito) diferentes a que pertencem as personagens.

Já conhecíamos a subtileza emocional do cinema de Batra — através de "A Lancheira" (2013), mas também, por exemplo, de "Our Souls at Night" (2017), um belo melodrama rodado nos EUA com Robert Redford e Jane Fonda. "Fotografia" confirma a sua capacidade de dar conta de um universo marcado por uma infinidade de nuances culturais, ao mesmo tempo construindo uma ficção de apelo universal. Tudo isso através de um valor que muito cinema (dito) comercial passou a menosprezar: o pudor.

Crítica de João Lopes
publicado 22:46 - 09 agosto '19

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