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Uma viagem sem fim

Realizado por uma cineasta chinesa que há muito vive nos EUA, "Nomadland" é uma colecção de retratos de personagens atingidas pela recessão de 2008 — como sugere o título original, são os novos nómadas.

Uma viagem sem fim
Frances McDormand no papel de Fern: viver, viajar, continuar a viajar
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 Uma viagem sem fim
Nomadland - Sobreviver na América Após o colapso económico de uma cidade empresarial na zona rural de Nevada, Fern (Frances McDormand), prepara a sua carrinha e parte pela estrada explorando uma vida fora da sociedade convencional, como uma nómada moderna.

"Fuga sem Fim": assim se chamou entre nós o belíssimo filme "Running on Empty" (1988), de Sidney Lumet, um dos grandes papéis de River Phoenix. Nele encontrávamos uma família que, devido aos problemas dos pais com a justiça, ia viajando por diversas zonas dos EUA: era ainda uma América que, para lá das suas tragédias interiores, possuia um apelo mítico intocável...

Dir-se-ia que as personagens de "Nomadland" (subtítulo português: "Sobreviver na América") já não podem herdar tal mitologia. Não porque sejam foragidas. Antes porque essa América imensa e disponível já não existe como corpo redentor. Em boa verdade, Fern — a magnífica Frances McDormand — e as figuras com que se vai cruzando são isso mesmo que o título define: nómadas que circulam por um país onde, pelo menos para eles, já não parece existir um lugar para viver.

Chloé Zhao, a realizadora chinesa que vive nos EUA, filma tudo isso, não exactamente como uma narrativa de "causas" e "efeitos", antes como uma colecção de fragmentos tecidos de solidão, por vezes pontuada por encontros mágicos — são histórias de pessoas que tentam superar os efeitos da crise de 2008, afinal vivendo em paz com a sua própria opção de, entre empregos precários, continuar a viajar.

"Nomadland" define-se, assim, a partir de um desejo de realismo paisagístico que coexiste com a metódica exposição dos sentimentos mais secretos das suas personagens. Não é um retrato "sociológico", mas também não funciona como painel "psicológico" — estamos perante uma narrativa que, cúmplice da errância das suas personagens, se constrói também como a procura de uma alternativa para a tarefa primordial de conhecer o mundo. Agora, todas as fronteiras são interiores.

Crítica de João Lopes
publicado 02:23 - 23 abril '21

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