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Viggo Mortensen revaloriza o drama familiar

De "O Senhor dos Anéis" aos filmes de David Cronenberg, Viggo Mortensen construiu uma carreira que, agora, se enriquece com a sua estreia como realizador: "Falling" é uma pequena proeza dramática, à moda antiga...

Viggo Mortensen revaloriza o drama familiar
"Falling": Viggo Mortense na dupla condição de actor e realizador
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 Viggo Mortensen revaloriza o drama familiar
Falling - Um Homem Só John (Viggo Mortensen) vive com o seu parceiro, Eric (Terry Chen), e a sua filha, Mónica (Gabby Velis), na Califórnia, longe da tradicional vida rural que ele abandonou anos atrás. O pai de John, Willis (Lance Henriksen), um homem de idade, teimoso e com mentalidade retrógada, vive sozinho na fazenda onde John cresceu. Willis foi diagnosticado com demência num estado inicial, o que torna cada vez ...

Eis um paradoxo que vale a pena sublinhar. Por um lado, Viggo Mortensen construiu a sua "imagem de marca" através de Aragorn de "O Senhor dos Anéis", quer dizer, como peça instrumental de um universo que não elege o labor específico do actor como prioridade; por outro lado, encontramo-lo agora no seu primeiro filme como realizador — "Falling - Um Homem Só" — e compreendemos que há nele uma energia de representação francamente invulgar.

Não é uma surpresa, claro. Afinal de contas, o seu trabalho sob a direcção de David Cronenberg — lembremos apenas o caso exemplar de "Uma História de Violência" (2005) — já nos permitira perceber as suas qualidades. Seja como for, dir-se-ia que não estávamos preparados para o ver a dirigir um drama familiar... à moda antiga.

Enfim, não há nada de mais moderno (no sentido de mais arriscado) do que voltar a acreditar na singularidade das personagens e, nessa medida, nas potencialidades dos actores. Assim é "Falling": o retrato íntimo, dilacerado e dilacerante da difícil coexistência de um homem (Mortensen) com o seu pai (o notável Lance Henriksen) cada vez mais marcado pela doença e por uma raiva que ameaça destruir tudo à sua volta.

"Falling" pertence, afinal, a uma nobre árvore genealógica de Hollywood em que podemos encontrar os nomes tutelares de Elia Kazan, Sidney Lumet ou Clint Eastwood. Este é um cinema de intransigente paixão pelo carácter irredutível de cada personagem e, nessa medida, atento a todas as suas nuances, mesmo as mais discretas. A esse propósito, observe-se apenas a presença breve, mas fulgurante, da sempre admiravel Laura Linney.

Crítica de João Lopes
publicado 00:36 - 04 setembro '21

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