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Concertos

A Sagração da Primavera | 21 Fevereiro | 19h00

Fundação Gulbenkian

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A Sagração da Primavera | 21 Fevereiro | 19h00 A Sagração da Primavera | 21 Fevereiro | 19h00

© Jorge Carmona / Antena 2


21 Fevereiro | 19h00
Grande Auditório da
Fundação Gulbenkian


A Sagração da Primavera


Direção de Lorenzo Viotti 


Programa

Ludwig van Beethoven Sinfonia nº 6, em Fá maior, op. 68, Pastoral

Igor Stravinsky - A Sagração da Primavera
   I Parte: A adoração da Terra
Introdução
Augúrios primaveris – Dança das adolescentes
Ritual da abdução
Os círculos da primavera
Ritual das aldeias rivais
Cortejo do Sábio
Adoração da terra (O Sábio)
Dança da Terra
   II parte: O sacrifício
Introdução
Círculos místicos das adolescentes
Glorificação da eleita
Evocação dos antepassados
Ação ritual dos antepassados
Dança sacrificial (A eleita)


Realçar não só contrastes evidentes, mas também descobrir inesperadas afinidades entre compositores e obras, definindo um todo coerente, é um dos desafios que o Maestro Titular Lorenzo Viotti gosta de abraçar nos seus programas. As duas grandes obras escolhidas para este concerto, integrado no tema Música e Natureza, são bem o exemplo desse desígnio, ao colocarem em convergência expressões de sentimentos semelhantes, mas com cerca de cem anos de distância entre si.


Transmissão direta
Apresentação: Pedro Ramos
Produção: Alexandra Louro de Almeida


    


Notas sobre o Programa
por Rui Cabral Lopes (Gulbenkian Música)

Ludwig van Beethoven - Sinfonia nº 6, em Fá maior, op. 68, Pastoral
Composição: 1808; Estreia: Viena, 22 de dezembro de 1808; Duração: c. 40 min.

Em 1808, Ludwig van Beethoven concluiu a sua célebre Sinfonia nº 6, em Fá maior, op. 68, Pastoral, ao mesmo tempo que deu também por terminada a não menos famosa Sinfonia nº 5, em Dó menor, op. 67. Estas obras representam como que duas facetas distintas e contrastantes do mesmo espírito criativo, inquieto e extraordinariamente ambicioso, na busca de soluções musicais que pudessem espelhar a multitude de transformações sociais, políticas e culturais da Europa de então. A autonomização da estética de Beethoven passou, na Sinfonia nº 6, pela inspiração campestre, fruto de uma reflexão interior que correspondeu, de perto, àquilo que o sociólogo de origem germânica Norbert Elias (1897-1990) tão bem definiu como “a nostalgia da vida no campo”. À medida que as populações se foram distanciando dos meios rústicos e bucólicos para se concentrarem nas urbes, onde se concentrava a industrialização, foi emergindo a consciência arreigada de algo que se perdera, ou seja, a relação com a natureza e com todos os benefícios inerentes à proximidade com o campo. A pintura e a música passariam a ser o refúgio privilegiado dessa memória; os espaços de expressão, por excelência, de experiências de vida já distantes, povoadas pelo murmulhar das árvores, pelos sons longínquos dos rebanhos, pelos cheiros impregnados das flores. Tal enquadramento ajudará a compreender melhor a génese da Sinfonia nº 6 e os apontamentos que Beethoven deixou num dos seus esboços: “Sinfonia pastorella – aqueles que possuem não mais do que uma ténue ideia do que é a vida no campo podem, assim mesmo, perceber a intenção do compositor”.
Enquanto na Sinfonia nº 5 a estrutura musical assenta amplamente na oposição entre a tonalidade de Dó menor e a sua homónima Dó maior, já na Sinfonia nº 6 é a própria orquestração a desempenhar um tal papel organizador, mediante a distribuição criteriosa dos naipes e dos timbres pelos diferentes momentos da obra. Desta forma, as madeiras e as trompas detêm maior destaque nos dois primeiros andamentos, serenos e contemplativos (Allegro ma non troppo, “O despertar de aprazíveis sentimentos no campo” e Andante molto mosso, “Cena na borda do regato”). Somente mais tarde vem a ser introduzido o som festivo dos trompetes, no terceiro andamento (Allegro, “Reunião alegre dos camponeses”). Por seu turno, os trombones foram reservados para o tormentoso quarto andamento (Allegro, “Trovões – Tempestade”), juntamente com os dois timbales e o piccolo. Estes mesmos instrumentos pontuam também no belíssimo hino final de ação de graças (Allegretto, “Canto dos pastores; sentimentos de alegria e de gratidão após a tempestade”).


Igor Stravinsky - A Sagração da Primavera
Composição: 1913; Estreia: Paris, 29 de maio de 1913; Duração: c. 35 min.

Foi na noite de 29 de maio de 1913, no Teatro dos Campos Elísios de Paris, que Igor Stravinsky fez estrear a partitura que se tornou símbolo de uma nova forma de conceber a música e de a relacionar com a arte cénica e com o bailado, no despontar do novo século. Interpretada pela Orquestra dos Ballets Russes, sob a direção de Pierre Monteux, a Sagração da Primavera, subintitulada “Quadros da Rússia pagã”, representa o encontro de ancestrais tribos eslavas, reunidas para celebrar a chegada da primeira estação do ano. A obra possui duas partes distintas: A adoração da Terra e O Sacrifício. Cada uma destas grandes secções tem as suas metas programáticas, estilísticas e coreográficas próprias, a começar por uma série de danças, jogos e rituais de extraordinário poder sugestivo, idealizadas por Sergei Diaghilev, que a música de Stravinsky amplifica a um ponto de quase alucinação. A segunda parte tem por foco um único evento de contornos aterradores: uma donzela é escolhida para protagonizar uma dança até à morte, com o objetivo de apaziguar os deuses. A música ilustra o cenário pré-histórico de forma muito eficaz, por via de melodias tradicionais, ostinatos e passagens de flagrante (e dissonante!) atonalismo. Contudo, os componentes mais provocadores da partitura – aqueles que tanta polémica despertaram junto da audiência coeva – foram o ritmo e a métrica. Distanciados dos pilares que durante séculos haviam regido a arte dos sons, estes elementos transmutam-se pela pena de Stravinsky, revelando um potencial expressivo que, nalgumas passagens, chega a ser assustador e intimidante, talvez por induzir a libertação de pulsões e atavismos recônditos, também pressentidos pelos cidadãos “civilizados” do seu tempo. Foi o próprio Stravinsky que deixou o testemunho desta experiência iniciática para o público parisiense: “Todos devem saber que a estreia de A Sagração da Primavera foi um escândalo. Por estranho que possa parecer, no entanto, não me encontrava preparado para esta ‘explosão’. As reações dos músicos que compareceram aos ensaios e o espetáculo em si não pareciam prenunciar o tumulto. […] Protestos moderados contra a música foram ouvidos desde o início do concerto. Depois, quando a cortina abriu e desfilaram as jovens protagonizando a “dança das adolescentes”, a tempestade começou. Gritos de ‘Ta gueule’ [cala-te] soaram por detrás de mim. […] A confusão continuou e poucos minutos depois deixei a sala furioso. […] Entrei então nos bastidores onde vi Diaghilev acendendo e apagando as luzes num esforço para fazer com que a sala sossegasse.”1

1 Igor Stravinsky e Robert Craft, Expositions and Developments, Nova Iorque, Doubleday, 1962, pp.159-164.



    

Lorenzo Viotti |
Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian. Natural de Lausanne, na Suíça, nasceu no seio de uma família de músicos de ascendência italiana e francesa. Estudou piano, canto e percussão em Lyon, tendo inicialmente sido percussionista da Filarmónica de Viena e colaborado com outras orquestras. Em simultâneo com a sua atividade como instrumentista, estudou direção de orquestra com Georg Mark, em Viena, e com Nicolás Pasquet, no Conservatório Franz Liszt, em Weimar. Em 2015 venceu o Nestlé and Salzburg Festival Young Conductors Award. Anteriormente tinha já vencido o Concurso Internacional de Direção de Cadaqués e o Concurso de Direção MDR (2013). Na sequência destes sucessos, foi convidado a dirigir a Sinfónica de Tenerife, a Filarmónica da BBC de Manchester, a Royal Liverpool Philharmonic e a Orquestra Nacional de Lille. Desde então, dirigiu outras prestigiadas orquestras como as Sinfónicas de Tóquio e Osaka, a Orquestra Nacional de França, a Sinfónica de Bamberg, a Filarmónica de Bremen, a Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, a Orquestra da Rádio de Munique, a Tonkünstler Orchestra, a Filarmónica de Roterdão, a Sinfónica de Gotemburgo, a Sinfónica Nacional da Rádio Dinamarquesa, a Camerata Salzburg, a Staatskapelle Dresden, a Gustav Mahler Jugendorchester, a Royal Philharmonic Orchestra, ou a Staatskapelle Berlin. Em 2016 estreou-se à frente da Orquestra do Real Concertgebouw de Amesterdão, da Sinfónica de Viena, e da Orquestra de Câmara do Festival de Verbier. Em agosto do mesmo ano estreou-se no Festival de Verão de Salzburgo, tendo então dirigido a Orquestra Sinfónica da Rádio de Viena. Estreou-se à frente da Orquestra Gulbenkian em janeiro de 2017.


No domínio da ópera, Lorenzo Viotti dirigiu La belle Hélène (Offenbach), no Théâtre du Châtelet, em Paris, La cambiale di matrimonio (Rossini), no Teatro La Fenice, em Veneza, Carmen (Bizet), em Klagenfurt, Rigoletto (Verdi), na Ópera de Estugarda e na Dresden Semperoper, Viva la Mamma! (Donizetti), na Ópera de Lyon, e Werther (Massenet), em Klagenfurt e Frankfurt. Lorenzo Viotti recebeu o prémio Newcomer nos International Opera Awards 2017.


    

Orquestra Gulbenkian |
 Em 1962 a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu estabelecer um agrupamento orquestral permanente. No início constituído apenas por doze elementos, foi originalmente designado por Orquestra de Câmara Gulbenkian. Ao longo de mais de cinquenta anos de atividade, a Orquestra Gulbenkian (denominação adotada desde 1971) foi sendo progressivamente alargada, contando hoje com um efetivo de cerca de sessenta instrumentistas que pode ser pontualmente expandido de acordo com as exigências de cada programa de concerto. Esta constituição permite à Orquestra Gulbenkian interpretar um amplo repertório que se estende do Barroco até à música contemporânea. Obras pertencentes ao repertório corrente das grandes formações sinfónicas tradicionais, nomeadamente a produção orquestral de Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Mendelssohn ou Schumann, podem ser dadas pela Orquestra Gulbenkian em versões mais próximas dos efetivos orquestrais para que foram originalmente concebidas, no que respeita ao equilíbrio da respetiva arquitetura sonora.
Em cada temporada, a Orquestra Gulbenkian realiza uma série regular de concertos no Grande Auditório Gulbenkian, em Lisboa, em cujo âmbito tem tido ocasião de colaborar com alguns dos maiores nomes do mundo da música, nomeadamente maestros e solistas. Atua também com regularidade noutros palcos em diversas localidades do país, cumprindo desta forma uma significativa função descentralizadora. No plano internacional, por sua vez, a Orquestra Gulbenkian foi ampliando gradualmente a sua atividade, tendo até agora efetuado digressões na Europa, na Ásia, em África e nas Américas.
No plano discográfico, o nome da Orquestra Gulbenkian encontra-se associado às editoras Philips, Deutsche Grammophon, Hyperion, Teldec, Erato, Adès, Nimbus, Lyrinx, Naïve e Pentatone, entre outras, tendo esta sua atividade sido distinguida, desde muito cedo, com diversos prémios internacionais de grande prestígio. Lorenzo Viotti é o Maestro Titular da Orquestra Gulbenkian. Giancarlo Guerrero é Maestro Convidado Principal, Leonardo García Alarcón é Maestro Associado e Nuno Coelho é Maestro Convidado.



Fotos Jorge Carmona / Antena 2