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Cultura

As Três Irmãs, de Anton Tchékhov | 31 Janeiro | 18h00

Antena 2 | Teatro Nacional São João

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As Três Irmãs, de Anton Tchékhov | 31 Janeiro | 18h00 As Três Irmãs, de Anton Tchékhov | 31 Janeiro | 18h00

A Antena 2 transmite a peça de Anton Tchékhov, As Três Irmãs, uma produção do Teatro Nacional São João e do Ensemble – Sociedade de Actores, com conceção e direção de Carlos Pimenta.


31 Janeiro | 18h00

As Três Irmãs | Anton Tchékhov


Tradução António Pescada
Conceção e direção Carlos Pimenta

Dramaturgia Rui Lage
Sonoplastia Francisco Leal

Interpretação Emília Silvestre, Isabel Queirós, Bárbara Pais, Daniel Silva, Margarida Carvalho, Paulo Freixinho, João Cravo Cardoso, José Eduardo Silva, Jorge Mota, João Castro, Clara Nogueira e António Afonso Parra

Música Ricardo Pinto
Desenho de luz Rui Monteiro
Figurinos Bernardo Monteiro
Vídeo João Pedro Fonseca
Assistência de encenação Génesis Abigail
uma coprodução Ensemble – Sociedade de Actores e Teatro Nacional São João




Em Tchékhov, há sons recorrentes que permitem desenhar uma dramaturgia sonora: os sons de festa, de tiros, do bosque e das carruagens que chegam ou partem, as partidas ou chegadas do comboio, as vozes ao longe. E ainda o som mais eloquente de todos, o silêncio. Este fundamento sónico lançou o Ensemble numa singular exploração desta peça, com conceção e direção de Carlos Pimenta. No palco, transformado num grande estúdio de gravação, um conjunto de atores grava As Três Irmãs. A este primeiro plano de leitura, próximo do teatro radiofónico e implicando uma construção mental, imiscui-se um segundo, uma leitura cénica que trabalha outra camada dramática e dramatúrgica justaposta às palavras de Tchékhov. Nesta abordagem, que se faz dos laços entre o teatro, o tempo e o acontecimento, a sonoplastia é crucial, configurando um universo de escuta ativa que apela ao imaginário do espectador, suscitando a sua participação no desenho das situações e ambientes.








Escutai o tempo que passa

A peça As Três Irmãs foi a primeira escrita propositadamente para o Teatro de Arte de Moscovo (TAM), embora já aí tivessem sido representadas O Tio Vânia e O Cerejal. Foi estreada em 31 de janeiro de 1901 – faz dentro de dias 120 anos.
(...) Não pretendemos com a apresentação de As Três Irmãs recriar o tempo de Tchékhov ou a sua realidade histórica. É certo que não deixamos de ter estes fatores em conta: não podemos analisar a História sem considerar o Homem, o acontecimento e a sua circunstância. Mas não queremos resgatar ao tempo uma realidade irreal fora do seu tempo. Deixemos a arqueologia para os arqueólogos.
Contudo, usamos As Três Irmãs para refletir sobre o nosso tempo. Podemos fazê-lo? Claro que sim! É para isso que servem os clássicos. O entendimento do presente escapa-nos quando ignoramos o passado. Mas, sendo o teatro uma “máquina” que permite variações no tempo, procuramos muitas vezes que nos confronte com uma realidade. Às vezes, e ainda pior, procuramos que nos confronte com uma verdade. Tal não é fácil, mesmo para o teatro. Por isso, incapazes de guardar toda a informação existente, criámos as histórias, as ficções, e por elas somos moldados (talvez por aí se justifique a nossa tão rápida adesão à ideia de virtualidade).
Um amigo meu francês disse-me um dia que “no teatro a única coisa que acontece de real é o facto de um determinado grupo de pessoas ter decidido aproximar-se, em conjunto, um pouco mais da morte”. Isso parece-me inexorável! Tudo o resto é ficção, artifício e simulacro.
O artifício que aqui propomos é o da ativação de um dispositivo centrado na performatividade do som e da palavra. Talvez para contrariar o excessivo poder que no nosso tempo é dado às imagens. Encenar é pôr em marcha um “dispositivo de convencimento” e, neste caso, queremos convencer o espectador de que há outras formas sensoriais de apreender a tal “realidade”. Para tal, é necessário que ele entre no jogo, mas isso é algo a que o espectador contemporâneo está habituado.
Ativando o dispositivo teatral, procuramos que reconheçam Irina, Macha ou Olga, que talvez nem sequer tenham existido. Mas que importância terá tudo isso?
Convocamos, pois, o espectador para um exercício de escuta ativa, para vazios que vai ter de completar. E também lhe dizemos para não se fiar nas imagens. Desta vez, não encaramos o espetáculo como “reino da visão”, como escreveu Debord.
Neste teatro nada se resolve – nem mesmo o destino da família Prózorov. Só há vislumbres. Vislumbram-se pequenas cenas, espaços, acontecimentos, personas que só existem quando falam. Se não há nada para dizer, todos retornam à sua condição de atores à procura de uma personagem.
Tal como a ideia de Moscovo para as três irmãs, o teatro, na sua intangibilidade e efemeridade, convoca sempre espectadores e atores para um processo conjunto de construção mental.
Sendo assim, o dispositivo que agora propomos só nos pode levar para o território de um teatro imaginado.
Carlos Pimenta


  


Para mais informações, clicar aqui.





Este espetáculo teve a sua estreia a 7 de Janeiro de 2021, no Teatro Carlos Alberto, no Porto.