Ouvir
Baile de Máscaras
Em Direto
Baile de Máscaras João Pedro

Cultura

Júlio Pomar (1926-2018) Um legado ímpar

Na morte "de um grande pintor"

|

Júlio Pomar (1926-2018) Um legado ímpar Júlio Pomar (1926-2018) Um legado ímpar

© Jorge Carmona / Antena 2


Um dos maiores vultos da arte em Portugal faleceu nesta terça-feira, 22 de Maio, aos 92 anos. Júlio Pomar e a sua obra têm um lugar ímpar na História da Arte Contemporânea Portuguesa, não apenas por ser uma das suas figuras maiores, mas porque, com a sua ação artística e estética, cívica e interventiva, marcou os movimentos culturais e artísticos do seu tempo.

Homenageando e relembrando Júlio Pomar, a Antena 2 recupera duas entrevistas com o pintor, a primeira realizada em 2013, a segunda no ano seguinte:

- Júlio Pomar à conversa com Luís Caetano, no recém-inaugurado Atelier-Museu Júlio Pomar, em Lisboa. Uma conversa na qual se atravessa uma vida de rupturas e novos caminhos, onde se percorre a sua intimidade com a literatura e a história, e o seu fascínio pelo mundo. Onde se fala de Bach, da poesia que Pomar escreveu - e que podemos escutar dita pelo autor -, e dos amigos, de Paris e Lisboa, e de Rembrandt e tanto mais.
Para escutar esta Ronda da Noite, de 22 de Maio, clicar aqui.

Foto de autoria não identificada

- Júlio Pomar à conversa com João Almeida, do seu ofício de viver e criar, às memórias de momentos fundamentais da sua vida.
Para escutar esta Quinta Essência, de 23 de Maio, clicar aqui.



Júlio Artur da Silva Pomar nasce a 10 de Janeiro de 1926 em Lisboa, vivendo os primeiros anos na Rua das Janelas Verdes, num 4º andar com vista para o rio Tejo. Filho mais novo de três irmãos, com um mês apenas, fica órfão do pai, o engenheiro Ascâneo Gastão Potier Pomar, ficando sua mãe Caetana Maria Elisa da Silva encarregue do sustento da família.
Aos 8 anos, o escultor Costa Mota Sobrinho, amigo da família, incentiva-o a frequentar como aluno livre as suas aulas de desenho na então designada Escola de Arte Aplicada António Arroio, por lhe ter notado aptidão para aquela disciplina.
A partir dos 10 anos começa a frequentar esta escola, tendo como objectivo o ingresso na Escola de Belas Artes de Lisboa. Será colega de artistas que se tornarão dos mais importantes no panorama visual das décadas centrais do século XX.
Em 1942 é admitido na Escola de Belas Artes de Lisboa. São desse ano as suas primeiras obras. Com Fernando Azevedo, Pedro Oom, Vespeira e José Gomes Pereira, aluga um quarto na Rua das Flores que lhes serve de atelier, onde é realizada a sua primeira exposição colectiva, mostra considerada “a primeira manifestação pública dos artistas da terceira geração moderna” (Alexandre Pomar). Por essa ocasião, Almada Negreiros adquire a sua pintura “Saltimbancos” (hoje desaparecida) e que, pela mão daquela figura já prestigiada, será exposta no VII Salão de Arte Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional/Secretariado Nacional de Informação (SPN/SNI). 
Nesse ano, é publicado o seu primeiro artigo, no jornal da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras Horizonte dirigido por Joel Serrão, como um inicial manifesto em prol “Da necessidade duma Exposição de Arte Moderna”. Este é o início de uma intensa e acutilante colaboração teórica e crítica de Júlio Pomar com a imprensa cultural que se estende até ao final da década de 50. Artigos preciosos para a compreensão do seu pensamento estético e da sua ação pictórica e cívica e que foram reunidos em volume sob o título Notas sobre uma Arte Útil: Parte escrita I, editado  pelo Atelier-Museu Júlio Pomar em 2014.


Da Escola de Belas Artes de Lisboa é compelido a mudar para a congénere do Porto, e aí participa da realização das Exposições Independentes, num ambiente menos academizante e mais receptivo a ventos modernos, e estabelecendo relações de cumplicidade artística e ideológica, quer com colegas do Porto ou com os de Lisboa que como ele tiveram de continuar os estudos na capital nortenha.
É aos 19 anos, integrando a IX Missão Estética de Férias, em Évora, ao realizar obras como Descanso (ou Ceifeiro) (coleção Museu do Neo-Realismo), Sábado (ou Malta), Semeador, Retrato de um camponês e Gadanheiro (ou Gadanha) (coleção Museu do Chiado) que Mário Dionísio prenuncia "O princípio dum grande pintor" em artigo publicado na revista Seara Nova, relembrando também a visita à mostra de 1942 onde se anunciava já "um pintor novíssimo com os pés enterrados na miséria das ruas".


De regresso ao Porto, e em clima geral de contestação e de esperança pelo fim da II Guerra, Pomar adere à Federação Portuguesa das Juventudes Comunistas. A sua atividade na escrita recrudesce, dirigindo uma página semanal no diário portuense A Tarde, de âmbito da cultural e intitulada Arte, e colaborando na revista Vértice, reivindicando uma nova perspectiva da arte e de novas exigências expositivas e pela acessibilidade da arte para e pelo o povo.
Na atividade artística, para além de desenhos - fazendo a sua primeira exposição individual -, e da pintura - em diversas coletivas, de que é frequentemente organizador -, abraça a ilustração, sendo responsáveis por capas de livros de Papiniano Carlos e de Afonso Ribeiro, entre outros.
São-lhe encomendados dois grandes murais para a decoração do Cinema Batalha, num projecto de arquitectura assinado por Artur Andrade. Preso na prisão de Caxias durante 4 meses, por pertencer à direcção do MUD Juvenil, interrompe estes trabalhos que serão mandados destruir pela polícia política um ano depois da abertura da sala ao público, em 1948.
Entretanto, tendo sido suspenso da Escola do Porto por envolvimento em atividades e lutas estudantis, vem outra vez para Lisboa, mas a sua ação continua, envolvendo-se ativamente na organização das Exposições Gerais de Artes Plásticas, desde a 1ª edição em 1946, tendo sido o artista que maior quantidade de obras apresentou nestas dez marcantes mostras que decorreram até 1956. Também uma das suas obras, Resistência, é apreendida pela PIDE, assim como mais onze obras de outros artistas, quando integravam a 2ª Exposição Geral de Artes Plásticas na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Começa a desenvolver experiências artísticas em escultura, em cerâmica, e com cartões para tapeçaria, exercendo um papel influenciador e renovador nas modalidades de artes decorativas. 
Executa vários painéis murais colaborando com arquitectos como Keil do Amaral, Celestino de Castro, Conceição Silva, Victor Palla e Bento de Almeida. Realiza igualmente experiências artísticas na Fábrica Bombarralense  e mais tarde na Fábrica Secla nas Caldas da Rainha, assim como na Fábrica-Escola Irmãos Stephens na Marinha Grande, mostrando esses trabalhos em exposições diversas.
Em 1949, é demitido de professor de desenho numa escola do Ensino Técnico e proibido de ensinar. Para subsistir, além de continuar a colaboração em projectos decorativos de arquitectura, intensifica a actividade de ilustração de livros, muitos deles de autores neo-realistas: Alves Redol, Sidónio Muralha, José Cardoso Pires, José Fernandes Fafe, entre outros.
Em 1950, realiza uma importante exposição individual na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, apresentando obras relevantes da pintura portuguesa do século XX, como O Almoço do Trolha, Menina com um Galo Morto, O carro na calçada, Cabouqueiro e O Alcantra. São expostos desenhos, cerâmicas e esculturas dando uma panorâmica da diversidade de explorações e experiências que acompanham e assistirão a este artista.
Neste ano, desloca-se a Espanha, onde tem oportunidade de contactar diretamente e estudar o trabalho de Goya, o qual marcará forte e futuramente a sua pintura, por exemplo em Maria da Fonte e Cegos de Madrid (a partir de 1957).
Em 1951, realiza na Galeria Portugália, a sua primeira individual no Porto. É nesta cidade que realiza as primeiras litografias no Atelier Amândio Silva, executando linoleogravuras e xilogravuras como a ‘série’ Pares, As mães, Mulheres fugindo. Dedica-se pois também à técnica da gravura, explorando-a profundamente, sendo decisivo na fundação e animação, anos mais tarde, da Gravura - Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, um projecto de produção e divulgação de obras gráficas.
Artista consagrado e premiado em Portugal, fixa residência em Paris a partir de 1963.


Com esta mudança, afasta-se em definitivo da ação cívica tida até então, mas não da atenção que sempre vai prestar à realidade. 
Regressa a Portugal apenas de forma esporádica e só vinte anos mais tarde adquire uma casa em Lisboa onde instala um segundo ateliê. Continua a expôr individualmente e com regularidade em Lisboa e em Paris, consolidando o seu percurso artístico. 
Em 1967 realiza as primeiras assemblages com materiais encontrados e no ano seguinte inicia duas séries paralelas, uma das quais acerca das convulsões de Maio de 1968. A partir de 1969, inicia-se uma colaboração regular com a Galeria 111 de Manuel de Brito, que passa representá-lo em Portugal.
No 25 de Abril de 1974 Pomar encontra-se por acaso em Lisboa, onde permanece durante alguns meses. Na década de 1970 publica uma recolha de poemas, participa em mostras internacionais de relevo – nomeadamente na Bienal de S. Paulo, Brasil, 1976 –, e realiza importantes exposições individuais, destacando-se a primeira retrospetiva da sua obra (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, e Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto, 1978). Nas décadas seguintes as exposições multiplicam-se, em galerias e museus, nacionais e internacionais.
Em 1987 e 1988, faz duas viagens ao Brasil, das quais resultam importantes séries de pinturas, que expõe em Lisboa e Madrid (Os Mascarados de Pirenópolis), Madrid e Paris (Os Índios). 
Em 2003 é-lhe atribuído o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso. No ano seguinte, o Sintra Museu de Arte Moderna – Coleção Berardo apresenta uma vasta retrospetiva intitulada Pomar/Autobiografia, e o Centro Cultural de Belém expõe a antologia A Comédia Humana, dedicada à obra das décadas mais recentes. Em 2008, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, inclui numerosas "assemblages" (esculturas) inéditas na mostra Cadeia da Relação.
Em 1999, o filho Alexandre Pomar dá início ao levantamento exaustivo da sua obra com vista à edição do respetivo Catalogo "Raisonnée", saído em dois volumes em 2004 e que cobrem a produção artística entre 1942-1968 e 1968-1985

Inaugurado a 5 de abril de 2013, o Atelier-Museu Júlio Pomar, projeto da autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira, é "lugar de especificidade e pólo de divulgação da obra de Júlio Pomar", e tem desenvolvido um programa de exposições que dá conta da pluralidade técnica e temática da obra deste artista multifacetado, mas também abrindo-se a diálogos com outras gerações de artistas, numa partilha de ideias e experiências artísticas e humanas a exemplo da própria vida de Júlio Pomar.


Texto de Luísa Duarte Santos
Fotos Jorge Carmona / Antena 2 RTP