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A Antena 2 na Womex 2021

Porto

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A Antena 2 na Womex 2021 A Antena 2 na Womex 2021

A Antena 2 esteve na Womex 2021, a grande montra das músicas do mundo, do convívio das ideias e projetos que agitam o mundo da world music em conexão com outros géneros musicais como o jazz, a pop ou a música erudita. Uma feira que pode ser considerada símbolo do caráter universal da música e da sua capacidade para unir povos e culturas de todo o mundo.


A Antena 2 na Womex 2021
Porto


Com Andrea Lupi (texto e fotos)
e Inês Almeida 


Há mais de um quarto de século que a Womex se impõe como o mais importante evento – feira de negócios; conferências; ponto de encontro de artistas, produtores e promotores; concertos – na área das músicas do mundo, World Music na gíria global.
Depois de uma edição exclusivamente digital, a Womex pós-pandemia veio para o nosso país, há vários anos no horizonte dos organizadores. A cidade do Porto e as suas várias estruturas e instituições acolheram os diversos e numerosos eventos da Womex 2021 que se desenrolaram entre 28 e 30 de Outubro.
Quarta-feira, 27 de Outubro, foi o dia da acreditação e concerto de abertura, na Casa da Música, com um desfilar de vários grupos portugueses – Sopa de Pedra; Retimbrar; Seiva e Galandum Galundaina com os Pauliteiros de Miranda.
Stands montados, salas prontas, estúdios de rádio a postos. Assim arrancou a manhã de quinta-feira, 28 de Outubro, na Alfândega do Porto, onde uma vasta equipa da RTP – parceira media da Womex – preparou, gravou e emitiu conteúdos para diversos canais e plataformas: Antena 1, Antena 2, Antena 3, RDP África, RTP Palco. Em direto da Alfândega do Porto, foi emitida diariamente a rádio Womex, com emissões em direto para a Antena 1, 3 e RDP África. A RTP Palco transmitiu concertos em live stream a partir do palco Lusofónica, no Teatro Nacional São João, por onde passaram, entre outros, Vitorino, Lúcia de Carvalho, Ayom e Tanxugueiras.

  

Por parte da Antena 2, Inês Almeida, realizadora do programa diário Raízes, dedicado às músicas do mundo, entrevistou artistas para emissões de posterior transmissão. Andrea Lupi, que assina este artigo, encarregou-se de assistir às conferências e tomar notas, sumariamente transpostas para este espaço.



Apesar de muitos dos assuntos se sobreporem, houve quatro grandes linhas orientadoras:

1. Um só mundo, muitas realidades e desigualdades

2. Lusofonia – de Moçambique para o mundo e o bom vento de Espanha

3. Segredos de sustentabilidade ecológica e financeira
 
4. O futuro passa pelas plataformas digitais e redes sociais




1. Um só mundo, muitas realidades e desigualdades


Reconstruindo a nossa indústria desmoronada num mundo desmoronado
Plano de ação para uma indústria mais justa e inclusiva


Os três conferencistas falaram dos seus países em particular, expondo as diferenças:
Jackson Allers (EUA/Líbano), deu conta de uma dinâmica interessante no Líbano, após a maior explosão não atómica de sempre, em Agosto 2020. O apoio estatal praticamente ausente e as dificuldades extremas, agudizadas pela pandemia, levaram a um êxodo de muitos artistas, mas também à criação de redes que operam à margem da indústria. Allers referiu que o Líbano produziu igual número de álbuns que o Egipto, país muito maior. Apesar das dificuldades, a criatividade encontrou formas de conectar as pessoas em redes informais, num ambiente florescente. 
Diferente foi o caso da Índia, país de Sonya Mazumdar, moderadora do debate. Nas suas palavras, a Índia sempre teve problemas no apoio das artes, o que se faz sentir ainda mais em nichos e formas de arte menos representadas. A Covid acelerou o processo de "desaparecimento" de muitos artistas e profissionais, que abandonaram a atividade musical. Plataformas digitais fizeram surgir outras manifestações, fenómeno que Sonya vê como um raio de luz. 
O guatemalteco Alfredo Cajax, produtor de festivais, falou da situação oposta vivida no Canadá, país onde vive há muito. No Canadá o apoio estatal é muito relevante e as instituições adaptaram-se rapidamente à realidade pandémica. Apesar das bolsas e apoio a festivais e outras iniciativas, houve muitos artistas que cessaram a sua atividade. 


Foi feito um rasgado elogio a quem se adaptou à nova realidade, tendo um relevante papel de serviço à comunidade, mas a normalidade ainda não regressou a muitas zonas do planeta. Houve muita música escrita durante a pandemia que os próximos tempos trarão à luz e darão a conhecer.  
Sonya referiu o papel privilegiado dos presentes no painel, que participam num evento mundial, mas pediu para não esquecer os não presentes. Propôs um olhar global e falou da importância de ações coletivas globais e não apenas locais. A título exemplificativo, falou do coletivo Cultura 360 Culturas 360°, um coletivo de 17 festivais de todos o mundo que organiza uma rede de apoio e digressão de artistas desses países. A pandemia e o desmantelamento da indústria mundial permitiram uma descentralização na forma de organizar festivais, que têm a responsabilidade de encontrar formas de "empoderar" os artistas.
A mensagem final foi um apelo para olhar mais além do local e explorar the power of going global, nomeadamente através de estruturas transnacionais como a Cultura 360.  



A fragilidade da mobilidade 
Superando novos obstáculos para o intercâmbio cultural 


Quatro conferencistas - Matthew Covey (EUA); Zélie Flach (País de Gales/Reino Unido); Marie Fol (França/Holanda); Jess White (África do Sul) - partilharam perspetivas muito distintas acerca da mobilidade, consoante o país onde vivem e trabalham. 
Marie Fol deu a perspetiva de quem é natural da UE, com todos os privilégios que os cidadãos europeus têm e onde a mobilidade é muito fácil, apesar das dificuldades que surgiram com a pandemia. Marie trabalha na On the move https://on-the-move.org/ , organização de apoio a artistas e profissionais da cultura criada em 2002 e que dá informação sobre mobilidade, fundos, impostos, visas, direitos de artistas, estatutos legais, para além de agregar informação sobre regras de vacinação/quarentena nos diferentes países. 
Marie Fol afirmou haver fundos europeus alocados à cultura e mobilidade. Avisou, no entanto, que esses fundos não aumentam e são apenas canalizados para áreas diferentes, como a mobilidade digital, por exemplo. É por isso essencial ser-se criterioso com a aplicação desses limitados fundos europeus. 
O norte-americano Matthew Covey manifestou-se esperançoso com a nova administração, que se mostrou bastante proativa, no sentido de ajudar os artistas e profissionais da cultura. O dia 8 de Novembro será um dia marcante para os EUA, com uma maior mobilidade pós pandemia, mas há muitas entrelinhas nas medidas aplicadas. Pela primeira vez na história recente dos EUA ficou mais fácil os artistas do Global South (termo largamente usado na Womex para se referir à América Latina, África e países do Sul do continente asiático, muitos considerados países em desenvolvimento) viajarem para os EUA. Artistas europeus puderam fazê-lo graças a um critério de exceção cultural. 
À semelhança da UE, o Reino Unido já foi um espaço de privilégio. Zélie Flach falou, porém, da nova realidade pós Brexit, à qual os profissionais da cultura ainda se têm de adaptar e conhecer as novas regras e regulamentações. Houve igualmente exceções culturais que permitiram a mobilidade durante a pandemia, mas apenas na Escócia e Inglaterra e não no País de Gales e Irlanda do Norte. A Covid foi então um extra layer, uma camada adicional de dificuldade na mobilidade, que depende do país de origem do artista. Para Zélie Flach, não basta conhecer as regras aplicadas, mas sim as regras para cada caso específico, como por exemplo serem convidados por organizações com financiamento governamental ou não. 
Jess White, agente de artistas sul africano, falou do seu continente e do seu país, onde apenas 30% da população está vacinada, ao contrário dos 85% da população portuguesa. A heterogeneidade de medidas dos 54 países africanos não permite falar de uma "realidade africana". 
 Na África do Sul as vacinas aplicadas são da Pfizer e da Johnson, o que Jess White considera um privilégio pois são aceites na Europa e EUA ao contrário da vacina russa, por exemplo.  Todavia, devido aos critérios de vacinação, os jovens artistas de 20 anos não estão vacinados e estão por isso impedidos de ir ao estrangeiro.
O conferencista deu o exemplo de vários artistas que, individualmente, viajam até Joanesburgo para serem imunizados com a vacina de toma única Janssen (Johnson). Isso permite-lhes ter um certificado de vacinação que é aceite mundialmente. Jess White sugeriu que os organizadores do Global North ajudassem os artistas do Global South pagando essa despesa. Os custos de testagem Covid são uma significativa camada adicional de custos administrativos para quem organiza concertos e digressões. Se os artistas optam por sair, podem ficar sem conseguir pagar a renda durante um mês. 
Como boas práticas a tomar, falou-se da escolha do comboio sempre que possível para as deslocações, a organização em bloco de digressões, uma rede transnacional que permita uma digressão que passe por diferentes países/regiões e uma maior valorização da cultura por parte dos governos e que isso se reflita nas políticas tomadas. Acima de tudo, tentar que o futuro seja melhor do que a situação que existia pré pandemia, evitando os mesmos modos de tomada de decisão.  




2. Lusofonia - de Moçambique para o mundo e o bom vento de Espanha 

Lançamento do projeto "Fala minha irmã" 
Conversa em torno de uma pesquisa e produção audiovisual pós descolonização 


A britânica Karen Boswall juntou-se aos moçambicanos Lenna Bahule e Sidónio Givandás para falar do projeto "Fala minha irmã". www.falaminhairma.org 
Após o processo de descolonização, em 1975, foi criado o primeiro Festival Nacional de Cultura em Moçambique. Cada uma das províncias escolheu o seu representante para o festival, que fez uma digressão para dar a conhecer as danças e músicas tradicionais das diferentes regiões moçambicanas. 
Com o mote "Histórias de moçambicanos, por moçambicanos, para moçambicanos", ponto de partida do Instituto do Filme de Moçambique, o jovem realizador José Cardoso acompanhou o primeiro festival, registando a música, dança e ambiente de cada um dos participantes/representantes. Assim surgiu, em 1979/1980, o documentário "Canta meu irmão, ajuda-me a cantar", filme considerado revolucionário. 


Como parte do seu doutoramento, Laura Boswall adaptou esta pesquisa à cultura contemporânea, mantendo a ideia de contar histórias de moçambicanos, por moçambicanos, para moçambicanos. Referiu que a música é habitualmente criada por homens, por isso a sua abordagem é feita no feminino, para "celebrar a voz criativa das mulheres moçambicanas através do filme". O seu documentário é composto por várias partes, filmadas por equipas distintas a quem foi dada formação, mantendo o espírito do filme original que está na base do projeto. Sidónio Givandás, moçambicano radicado no Reino Unido, é responsável pela distribuição do "Fala minha irmã". Do site, destacaram a dança Xigubu, feita por jovens raparigas que se apropriaram de um ritual guerreiro exclusivamente masculino e que, graças à sua persistência e atitude, conseguiram alcançar fama nacional. 
Lenna Bahule contou o seu percurso individual, de moçambicana que cresceu num meio urbano, ouvindo música na rádio. Fascinada pela cultura visual e musical brasileira, decidiu ir viver para o Brasil. Este desenraizamento acordou a sua vontade de descobrir a música tradicional do seu país natal. Bahule notou que o Brasil trata a sua cultura negra africana como um tesouro a preservar e isso deu-lhe outra perspetiva sobre Moçambique e sobre si própria. Foi graças a esta troca de países que Lenna Bahule se reapropriou das suas raízes através da voz - línguas, sonoridades, ritmos, referências culturais etc. Nas suas palavras, "estar no Brasil foi passado, presente e futuro" e agora tenta "manter o fogo da sua ancestralidade" em si e na música que faz.   



Projetos de cooperação de digressão ibérica 
Passado, presente, futuro 


A dois conferencistas portugueses - Ana Paulo e António Cunha - juntou-se o espanhol Cruz Gorostegi. Os três falaram da situação portuguesa e espanhola e como os governos/ministérios da cultura dos dois países têm as costas voltadas. 
Ana Paulo, da agência Fado in a box que representa artistas ibéricos, referiu sentir um ambiente mais acolhedor em Espanha, incluindo os media, do que em Portugal, onde nota menos recetividade para a música espanhola. Defensora de um mercado cultural ibérico, Ana Paulo defende que a promoção da cultura é, acima de tudo, uma responsabilidade dos governos. 
António Cunha, da empresa Uguru, falou de duas fases. Numa primeira fase, em que o artista não é conhecido, é necessário apoio do estado e de organizações que o possam ajudar a promover o seu trabalho. Numa segunda fase o artista já garante a venda de bilhetes que permite a organização e realização de uma digressão, sem serem necessário apoios extra. 


Todos os estilos podem ser comerciais, sendo que comercial significa sustentabilidade via bilheteira e não algum tipo de compromisso na qualidade musical. Como conseguir chegar a essa segunda fase? Ana Paulo fala em boa energia e amor colocado naquilo que se faz. António Cunha refere a originalidade do projeto, que o torne distintivo. Os promotores devem tentar apoiar os artistas mais interessantes para o seu mercado, acrescenta. 
Os artistas que não vendem bilhetes têm menos acesso aos media, que ainda têm um papel relevante para os divulgar. Aparecer na televisão, por exemplo, traz uma grande visibilidade, mesmo em época de plataformas digitais. António Cunha afirmou que a qualidade e impacto do jornalismo ligado à música e cultura diminuiu bastante e as pessoas já não seguem o que pessoa X ou Y recomenda. Plataformas como Spotify ou YouTube ganham relevância para a promoção dos músicos.
Em jeito de conclusão, reiterou-se a necessidade de pressão política para a criação de uma confederação cultural ibérica. Apesar de tudo, a relação Espanha/Portugal está melhor agora do que no passado, remataram.   






3. Segredos de sustentabilidade ecológica e financeira 

Estado atual das digressões ecológicas
A caminho de uma maior mobilidade? 


A sustentabilidade ecológica nas digressões foi o assunto discutido por um painel formado por quatro mulheres - Gwendolenn Sharp (França), Maria Clara Espinel (Colômbia), Naïssam Jalal (França/Síria) e Martyna van Nieuwland (Polónia). 
Em cima da mesa estava a grande questão - durante e após a pandemia, como tornar as digressões mais sustentáveis na sua pegada ecológica? 
Começou por ser dito que, mesmo antes da pandemia, houve concertos e digressões canceladas por problemas associados a alterações climáticas. Os confinamentos e a consequente mudança para plataformas digitais não corresponderam a uma vantagem ecológica, uma vez que os servidores estão algures e têm um enorme consumo energético. 
Martyna, produtora de festivais em Katowice (Polónia), deu como exemplos de práticas sustentáveis a organização de pequenas digressões entre países vizinhos, com o transporte feito por via ferroviária. Praga, Bucareste, Berlim, Viena, Ostrava foram algumas das cidades que receberam concertos de músicos que puderam circular desta forma na Europa central. 
Outra prática sustentável, também explorada pela produtora polaca no último ano e meio, foi a criação de residências artísticas, que permitem aos artistas passar uma semana ou mais num determinado local. As residências amplificam o impacto artístico e humano da presença de artistas internacionais, que trabalham localmente com comunidades. Martyna apelou a um maior entendimento e coordenação entre promotores, de forma a optimizar a presença destes artistas nas diferentes regiões. 


Naïssam Jalal falou da realidade francesa, país no qual é proibido transportar instrumentos musicais na linha ferroviária. Na sua opinião, a SNCF (companhia ferroviária francesa) visa apenas o lucro e não facilita esta prática sustentável. Está a ser feita uma campanha junto do Ministério da Cultura francês para sensibilizar e permitir o transporte de instrumentos musicais por comboio. 
 Naïssam queixou-se do facto dos organizadores exigirem concertos exclusivos, o que impede os músicos de tocar em locais próximos num menor espaço de tempo e apelou a uma mudança de atitude. Abordou também a questão do tempo - da digressão ou das residências artísticas. No seu caso particular, viveu 3 anos no Egipto e vai passar um mês à Índia, mas tem consciência de que esta não é uma situação ao alcance de todos e que significa uma escolha difícil de tomar. 
Maria Clara Espinel falou de uma realidade totalmente distinta, a da Colômbia, onde não há rede ferroviária e onde as distâncias são grandes. Referiu também a escassa consciência ecológica, num país mais preocupado com a sobrevivência do que com questões ambientais e onde os ativistas são perseguidos, ameaçados ou mortos. A sustentabilidade ecológica na América Latina passa, então, pelos artistas, que têm a dupla função de sensibilizar organizadores e promotores culturais para uma prática mais verde, evitando plásticos descartáveis, etc. e por uma educação ecológica, feita durante os concertos e digressões. Falou ainda do seu trabalho com pequenas comunidades locais, no Norte do país, em Santa Marta. 
Naïssam referiu dois pesos e duas medidas no pagamento de cachets, quando festivais de jazz pagam metade do seu orçamento a um só artista norte-americano, ficando a outra metade distribuída por muitos outros agrupamentos. Pediu para não se privilegiar uns outsiders em detrimento de outros e alertou que se deve apoiar artistas locais sem descurar a relação com os de fora. 
 A conferência acabou com um apelo a mais compaixão e colaboração numa lógica coletiva.  



Projetando a sustentabilidade no financiamento das artes 

Designing Sustainability in Arts Funding/Financing - - WOMEX, para muitos a melhor conferência desta edição da Womex.
 
A tunisina Ouafa Belgacem moderou um debate onde participaram o alemão Philip Küppers, do Instituto Goethe no Senegal, e a libanesa Rima Mismar, do Fundo Árabe para as Artes e Cultura. 
Começaram por tentar definir o que é a sustentabilidade do financiamento e das suas diferentes dimensões. 
Philip Küppers, participante há duas décadas na Womex, inicialmente no setor privado e agora como representante do setor público (Instituto Goethe), definiu sustentabilidade como um equilíbrio entre o financiamento público e privado. Para o obter é necessário diálogo, equilíbrio e tempo - um ou dois anos no mínimo para se desenvolver um projeto. 
Philip Küppers referiu que há fundos para indústrias criativas da cultura, mas há uma desconexão entre quem pede apoio e os fundos disponíveis, desenhados por pessoas que não pensam para quem são dirigidos. Também afirmou que é fácil dar formação e criar um sector, mas que não se pode dar formação para a criação de arte. Se o produto final não for bom, foi feito um investimento que não criou interesse ou mais valia. 
Para Rima Mismar, do Fundo Árabe para as Artes e Cultura do Líbano, sustentabilidade é poder continuar (carry on), já que a continuidade no trabalho e nas iniciativas traz um impacto positivo. Isso implica um espírito crítico, que questiona continuamente a pertinência de um projeto. O dinheiro tem de ser aplicado com critérios que correspondam a uma certa visão e estratégia. Na opinião de Rima Mismar, a diversificação dos investimentos e do financiamento é essencial. Quando o financiamento é apenas estatal não há pressão nem exigência e há uma grande dependência do governo. 
Rima ressalvou que a aposta na cultura não é mensurável como noutras indústrias. O impacto da cultura não pode ser contabilizado em números, que não levam em consideração o impacto emocional e social, cujo lastro a longo prazo é muito relevante.   
Ouafa Belgacem sugeriu usar-se a palavra recursos em detrimento de financiamento (resourcing vs funding). Falou em diversos canais de recursos (streams of resources) e que quantos mais diferentes tipos de doadores coexistirem, melhor, já que se complementam. 
 Na sua opinião, devem ser pensados ecossistemas com 5 requisitos mínimos: 
1. Diversificação - de tipos de financiamento, de mecanismos e de agentes (players). Monopólios não são saudáveis e fundações independentes têm agilidade que grandes instituições não possuem
2. Acessibilidade - ser possível aceder a informação essencial - exemplo é site On the move On the Move (on-the-move.org), que ajuda na mobilidade e facilita complexos processos logísticos e administrativos 
3. Transparência do financiamento 
4. Sustentabilidade dos que pagam 
5. Agilidade - um ecossistema que se adapta às mudanças (ex. pandemia) 
No seu trabalho, Ouafa Belgacem procura em primeiro lugar conhecer os potenciais financiadores - quem são, quais as suas motivações, porque querem financiar a cultura. Conhecer o doador, estabelecer uma relação de escuta, confiança e respeito é essencial para que se torne um parceiro e não apenas um financiador de um projeto. Ouafa reitera que é precisa perceber de onde vem o dinheiro, para se poder saber o que pedir dele. Afirmou que a filantropia independente é mais ágil, rápida e simples que instituições ligadas ao estado, mais pesadas e lentas. 
Ouafa Belgacem ressalvou que este é um trabalho que deverá ser feito por profissionais dedicados a 100% a esta atividade e que conhecem o seu funcionamento, sendo que os artistas não costumam ser os melhores advogados de si próprios.   





4. O futuro passa pelas plataformas digitais e redes sociais

Um futuro alternativo digital? 
Como podem as comunidades de música sobreviver numa economia controlada pelas plataformas de streaming? 


Boima Tucker (EUA), Mathew Dryhurst (Reino Unido/Alemanha); DJ Marfox (Portugal) e Luna Olavarria Gallegos (EUA/Cuba) foram os quatro participantes da conferência em torno das plataformas digitais. 
O português DJ Marfox, cuja música é distribuída sobretudo pela plataforma SoundCloud, referiu sentir dificuldade em ver a sua música bem categorizada. Música urbana de raiz africana, é muitas vezes etiquetada como música do mundo, o que considera redutor. As redes sociais alteraram a forma de divulgar e partilhar música - já não passa de mão em mão, uma simples notificação no SoundCloud veio facilitar e acelerar o processo. Na sua perspetiva, deve haver um uso regrado das redes sociais e não deixar o aparente sucesso de milhares de cliques numa música subir à cabeça. 
Para o DJ Marfox, a melhor fama é a que se obtém com a internet desligada. A sua fonte de rendimento continua a ser os concertos presenciais e não as plataformas digitais. A músicos mais novos aconselha-os a reivindicar o seu lugar, em vez de estarem sempre a tentar adaptar-se às diferentes plataformas em constante mudança. Defende o controlo sobre a própria vida e arte, com equilíbrio entre a vida pessoal e profissional nas redes sociais. 


Luna Olavarria Gallegos falou da realidade que se vive em Cuba. Em 2016 tentou ajudar artistas independentes, que fazem música considerada hostil pela administração política norte-americana. No entanto deixou cair o projeto em 2019 por dois motivos. Por um lado, os artistas ficaram demasiado permeáveis a influências do que ouviram - depois de estarem fechados tanto tempo, descobrir a internet e tudo o que tem para oferecer foi esmagador. Por outro lado, não era um sistema democrático no acesso à tecnologia. O acesso básico à internet ainda não é uma realidade em Cuba, onde o embargo norte-americano se faz sentir muito. Luna sugeriu a consulta ao site Belly of the Beast (bellyofthebeastcuba.com) , um documentário "underground" sobre o impacto do embargo na vida de Cuba. 
Como é que músicos fora do sistema podem entrar na lógica do algoritmo? Longe dos centros tecnológicos e fora de uma comunidade como a que o DJ Marfox encontrou na Grande Lisboa, os músicos cubanos "sem voz" continuam sem ela. Para se ter sucesso em redes como o Instagram, é preciso ter determinado comportamento nas publicações. O algoritmo não dá oportunidades iguais a artistas do Global South e do Global North
No final da conferência ficou a sugestão do site Resonate - the ethical music streaming co-op , uma plataforma digital de stream de música, gerida e controlada pelos membros que nela participam, numa lógica mais equitativa e justa que as plataformas dos gigantes tecnológicos.   



O futuro da indústria da música é FAIR (justo) 
Como as inovações tecnológicas e legais estão a remodelar o modelo de negócio da indústria musical 


Partindo da lógica de fair trade, a conferência que reuniu Andrew Dubber (Nova Zelândia/Suécia), Christine Merkel (Alemanha) e Keith Nurse (Reino Unido), incidiu sobre a noção de comércio justo na área da música nas plataformas digitais. 
Andrew Dubber começou por referir que o termo "comércio justo" revela, à partida, a falta de justiça do comércio e este deveria ser o primeiro problema a abordar. As grandes plataformas digitais visam o lucro para os seus acionistas, perpetuando uma lógica já existente. Referiu que a subscrição de plataformas como o Spotify têm diferentes valores consoante os países. Por essa razão, os artistas recebem menos dinheiro se a sua música tiver o mesmo número de cliques feitos no Paquistão (onde a subscrição custa menos de 2 dólares) ou nos EUA (com subscrição a 9 dólares). 
No mundo digital, a indústria da música entra em competição com muitos outros criadores de conteúdos presentes em plataformas como o Tik Tok ou nos E-Sports. Na área da música, estão a começar os diálogos com as grandes corporações tecnológicas, mas é preciso coordenação do meio musical, para que haja um impacto e alteração de modelo de negócio para o futuro e não se tomem apenas ações isoladas e pontuais. 
Através do seu trabalho no MTF - MTF Labs , Andrew Dubber ajuda artistas a tornar o seu trabalho mais acessível. Data e metadata são essenciais para que o trabalho dos artistas surja nos motores de pesquisa, tornando-os visíveis. É a metodologia de organização da informação (data) que permite que a Europa pague melhor aos artistas que os EUA, por exemplo. 
Andrew sugere o acrónimo FAIR 
Findable
Accessible
Interactive
Reusable 
Como conclusão, Christine Merkel, da UNESCO, defende uma maior regulação das plataformas digitais. Andrew Dubber gostaria que a indústria ficasse mais acessível e justa para todos e Keith Nurse não quer deixar ninguém para trás, mas deixa o alerta - os países em desenvolvimento devem tomar controlo do seu futuro, não se devem deixar ficar para trás.    



Texto e fotografias de Andrea Lupi