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Cultura

Dia Mundial da Poesia: a Antena escolhe um poema…

21 Março 2017

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Dia Mundial da Poesia: a Antena escolhe um poema… Dia Mundial da Poesia: a Antena escolhe um poema…

"Faces", de Luís Queimadela (Arte Pública, Aveiro)


Para celebrar o Dia Mundial da Poesia, a Antena 2 propõe-se dar mais Poesia às nossas Vidas numa emissão especial no dia 21 de Março, ao longo de toda a jornada, com pequenos apontamentos poéticos junto às horas certas.

Os poemas foram escolhidos por membros e colaboradores da Antena 2 num critério pessoal. Alguns preferiram não gravar deixando os versos aqui, apenas na sua forma escrita; outros partilham também a sua leitura/interpretação que pode escutar clicando nos links junto dos poemas.


A Antena escolhe um poema…


“Os primeiros encontros”, de Arsenii Tarkovskii, por Alexandra Louro de Almeida

“[A luz que brilhava tão intensamente…]", de William Wordsworth, por Ana Paula Ferreira

“Poema do coração”, de António Gedeão, por Anabela Luís

“Poema do Menino Jesus” (excertos), de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), por André Cunha Leal
Para ouvir, clicar aqui.

"Fonógrafo", de Camilo Pessanha, por André Pinto 
Para ouvir, clicar aqui.

“O Capuchinho Vermelho”, de Roald Dahl, por Andrea Lupi 
Para ouvir, clicar aqui.

“Gritaram-me negra”, de Victoria Santa Cruz, por Cristina Cardinal Ferreira

“Cântico Negro”, de José Régio, por Cristina do Carmo

“É Proibido Escrever na Margem”, de Jorge Sousa Braga, por Inês Almeida 
Para ouvir, clicar aqui.

“Em Caso de Fogo”, de António Pocinho, por Inês Forjaz
Para ouvir, clicar aqui.

“Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert, por Inês N. Lourenço
Para ouvir, clicar aqui.

“Suzanne”, de Leonard Cohen, (trad. e leitura) por João Monteverde
Para ouvir, clicar aqui.

"Oh sim”, de Charles Bukowski, por João Pedro 
Para ouvir, clicar aqui.

Um poema de Fernando Pessoa, por Luís Caetano
Para ouvir, clicar aqui.

“Procuro-te”, de Eugénio de Andrade, por Luísa Duarte Santos
Para ouvir, clicar aqui.

"Desperta-me de Noite", de Maria Teresa Horta, por Mafalda Serrano 
Para ouvir, clicar aqui.

“Presságio”, de Fernando Pessoa, por Maria Alexandra Corvela
Para ouvir, clicar aqui.

“Planta Rubra”, de Alberto Pimenta, por Paulo Alves Guerra 
Para ouvir, clicar aqui.

“Pandemos” – Soneto 1 A Afrodite Anadiómena”, de Jorge de Sena, por Pedro Coelho
Para ouvir, clicar aqui.

"Cidade", de Sophia de Mello Breyner, por Pedro Rafael Costa 
Para ouvir, clicar aqui.

“A vida celestial (Das himmlische Leben)”, da Sinfonia nº 4 de Gustav Mahler, por Susana Valente

“[Para ser grande, sê inteiro: …]", de Ricardo Reis (Fernando Pessoa), por Zulmira van Holstein


Poemas


“Os primeiros encontros”, de Arsenii Tarkovskii, por Alexandra Louro de Almeida

I
Todo o instante que passávamos juntos
era uma celebração, como uma epifania,
no mundo inteiro, nós dois sozinhos.
Eras mais audaciosa,
mais leve que a asa de um pássaro,
estonteante como uma vertigem,
corrias escada abaixo
dois degraus de cada vez, e conduzias-me
por entre lilases húmidos,
até ao teu domínio,
no outro lado, para além do espelho.

Quando chegava a noite
eu conseguia a graça,
os portões o altar escancaravam-se,
e a nossa nudez brilhava na escuridão
que caía vagarosa.

E ao despertar
eu dizia “abençoada sejas!”
e sabia que a minha bênção
era impertinente.
Dormias,
os lilases estendiam-se da mesa
para tocar tuas pálpebras
com um universo azul,
e tu recebias o toque
sobre as pálpebras,
elas permaneciam imóveis,
e a tua mão ainda estava quente.

Havia rios vibrantes dentro do cristal,
montanhas assomavam por entre a neblina,
mares espumavam,
e tu seguravas
uma esfera de cristal nas mãos,
sentada num trono ainda adormecida
e – meus Deus do Céu! – tu pertencias-me.
Acordavas e transfiguravas
as palavras que as pessoas pronunciam todos os dias,
e a fala enchia-se até transbordar
de poder ressonante,
e a palavra “tu”
descobria o seu novo significado: “Rei”.

Objectos comuns
transfiguravam-se imediatamente,
tudo – o jarro, a bacia – quando,
entre nós como uma sentinela,
era colocada a água, laminar e firme.

Éramos conduzidos, sem saber para onde;
como miragens, diante de nós recuavam
cidades construídas por milagre,
havia hortelã silvestre sob os nossos pés,
pássaros faziam a mesma rota que nós
e no rio peixes nadavam correnteza acima
e o céu desenrolava-se
diante dos nossos olhos.
Enquanto isso o destino
seguia os nossos passos
como um louco de navalha na mão.

in O espelho



“[A luz que brilhava tão intensamente…]", de William Wordsworth, por Ana Paula Ferreira


A luz que brilhava tão intensamente
Foi agora arrancada dos meus olhos,
E embora nada possa devolver os momentos
De esplendor na relva e glória na flor,
Não sofreremos, melhor,
Encontraremos força no que ficou para trás.

In Intimations of Immortality



“Poema do coração” [excerto], de António Gedeão, por Anabela Luís

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração"


“VIII - Num meio-dia de fim de Primavera” (Poema do Menino Jesus”) [excertos], de Alberto Caeiro, por André Cunha Leal

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
(…)
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
(…)
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
(…)

de “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa


"Fonógrafo", de Camilo Pessanha, por André Pinto

Para ouvir, clicar aqui.

Vai declamando um cómico defunto.
Uma plateia ri, perdidamente,
Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
A cripta e a pó — do anacrónico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
Lírios, lírios, águas do rio, a lua...
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul — extática corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro — o cheiro de junquilhos,
Vívido e agro! — tocando a alvorada...

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manhã. Que eflúvio de violetas!


“O Capuchinho Vermelho”, de Roald Dahl, por Andrea Lupi

Para ouvir, clicar aqui.

«Como estou farto de fazer de bobo!»
Disse, cheio de fome, o senhor lobo.
«Há quatro dias que não trinco osso,
A avozinha vai ser o meu almoço.»
Quando a avozinha lhe abriu a porta
Com o susto tremeu e, meia morta,
Fitou aqueles dentes a brilhar.
«Ai, que o malvado me quer devorar!»
A pobre senhora tinha razão
Porque ele a comeu com sofreguidão.
A avozinha era pequena e dura,
O almoço não foi uma fartura.
«Ai, estou com uma fome aterradora,
Pronto para comer outra senhora.»
Foi procurar petiscos na cozinha
Mas nada para roer o bicho tinha.
«Vou-me sentar no colchão de folhelho
À espera do Capuchinho Vermelho.»
Disse o lobo enquanto se vestia
Com as roupas que por ali havia.
Saia de seda, botas de verniz,
Chapéu de veludo foi o que quis.
Escovou o pelo, as garras pintou,
Bem disfarçado assim se sentou.
Um pouco depois, em passo apressado,
A moça chegou, toda de encarnado.
***
«Ó minha avozinha, quero saber,
As tuas orelhas estão a crescer?»
«Sim, minha neta, para melhor te ouvir.»
«Que grandes olhos tens, querida avó»,
Disse a menina cheia de dó.
«São para melhor te ver», disse o lobo
E pôs-se a pensar: «Não sou nenhum bobo,
Esta bela menina vou papar,
Que bom petisco para o meu jantar.
Vai saber-me que nem um pão de ló,
Não é velha nem dura como a avó.»
«Mas avozinha», disse a menina,
Tens um casaco de pele tão fina.»
«Não», disse o lobo, «Deves perguntar
por que são meus dentes de espantar.
Bem, digas tu o que disseres
Como-te sem prato nem talheres.»
A menina sorriu. Da camisola
Sacou de imediato uma pistola
E com uma certeira pontaria
Pum, pum, pum, aquele lobo morria.
***
Passaram os dias, passou um mês,
Vi a menina no bosque outra vez,
Mas sem o capuz, sem capa encarnada,
Toda diferente, toda mudada.
Sorrindo me explicou: «Daquele bobo
Fiz este casaco de pele de lobo».

Histórias em Verso para Meninos Perversos, (trad. de Luísa Ducla Soares; ed. Teorema)


“Gritaram-me negra”, de Victoria Santa Cruz, por Cristina Cardinal Ferreira


Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
Gritaram-me Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E senti-me negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

https://www.youtube.com/watch?v=RljSb7AyPc0


“Cântico Negro”, de José Régio, por Cristina do Carmo

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

In Poemas de Deus e do Diabo


“É Proibido Escrever na Margem”, de Jorge de Sousa Braga, por Inês Almeida

Para ouvir, clicar aqui.

Decidi correr o
risco sujeitar-me
à erosão das
águas. Eu sei.
das minhas vér-
tebras nascerão
praias de areia
fina. Na mar-
gem da estrada
na margem do
papel náufrago
do quotidiano à
espera de uma
boleia para ne-
nhum lugar...
Quilómetro mil
e cinquenta e
três das minhas
veias. A eterni-
dade fica mes-
mo em frente.


“Em Caso de Fogo”, de António Pocinho, por Inês Forjaz


Para ouvir, clicar aqui.

Em caso de fogo, a primeira coisa que se deve fazer é perder a cabeça. O pior inimigo do fogo é a cabeça. Começa-se por querer sair dali a qualquer preço, não olhar a nada, esquecer tudo, desaparecer, mesmo que seja para o interior de si próprio, onde por sinal há muito mais fogos do que no litoral.

Cento e trinta e cinco por cento das vítimas do fogo são homens. O restante são mulheres e crianças e nenhuma delas abandonou a cabeça. Embora nenhuma vítima tenha sequer tido tempo para pensar que poderia estar noutro local, como no interior ou no litoral de si próprio, todas foram encontradas agarradas às coisas mais incontroláveis, como uma beata, uma bóia ou uma recordação.

in Os Pés Frios dentro da Cabeça (ed. Fenda)


“Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert, por Inês N. Lourenço

Para ouvir, clicar aqui.

Pintar primeiro uma gaiola
com uma porta aberta
pintar em seguida
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
encostar depois a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dizer uma palavra
sem fazer um gesto...
Às vezes o pássaro vem logo
mas pode também demorar muitos anos
a decidir-se
Não desanimar
esperar
esperar anos, se necessário for
pois a rapidez ou demora da chegada do pássaro
nada tem a ver com a qualidade do quadro
Quando o pássaro chegar
se por acaso chegar
manter um rigoroso silêncio
aguardar que o pássaro entre na gaiola
e quando ele entrar
fechar lentamente a porta com o pincel
em seguida
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar nas penas do pássaro
Pintar depois a árvore
escolhendo o seu mais belo ramo
para o pássaro
pintar também o verde da folhagem e a frescura do vento
os raios de sol
e o clamor dos insectos no calor do Verão
em seguida aguardar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se ele cantar é bom sinal
sinal que se pode assinar
Arrancar então com todo o cuidado
uma pena do pássaro
e escrever o nome num canto do quadro.

in Palavras/Paroles ( trad. Manuela Torres, Sextante, 2007)


“Suzanne”, de Leonard Cohen, (trad. e leitura) por João Monteverde

Suzanne leva-te até à sua casa
Lá em baixo ao pé do rio
Podes ouvir os barcos que passam
Podes passar a noite ao seu lado
E sabes que ela é meio doida
Mas é por isso mesmo que queres lá estar
E ela alimenta-te com chá e laranjas
Que percorreram todo o caminho desde a China
E justamente quando lhe tencionas dizer
Que não tens amor algum para lhe dar
Ela colhe-te na sua própria sintonia
E deixa que o rio responda
Que sempre foste seu amante

E tu queres viajar com ela
E não queres saber de mais nada
E sabes que ela confiará em ti
Porque em pensamento lhe tocaste
No seu corpo perfeito

E Jesus foi marinheiro
Quando caminhou sobre as águas
E passou muito tempo observando
Do alto da Sua solitária torre de madeira
E quando Ele se certificou
Que só os afogados podiam vê-lo
Ele disse
"Todos os homens serão marinheiros
Até que o mar os liberte"
Mas Ele próprio estava cansado
Muito antes que o Céu se abrisse
Desamparado quase humano,
Afundou-Se na Sua sabedoria
Como uma pedra

E tu queres viajar com Ele
E não queres saber de mais nada
Porque transcendentemente tocou
O teu corpo perfeito

E agora Suzanne leva-te pela mão até ao rio
Está vestida de trapos e penas
Dos combatentes do Exército de Salvação
E o sol escorre como mel
Sobre a nossa Dama do Cais
Ela mostra-te para onde olhares
Entre o lixo e as flores
Que há heróis entre as algas
Que há crianças na manhã
Que caminham para o Amor
E que caminharão para sempre
Enquanto Suzanne segurar o espelho

E tu queres viajar com ela
E não queres saber de mais nada
E sabes que podes confiar nela
Porque em pensamento ela tocou
No teu corpo perfeito.

https://www.youtube.com/watch?v=6o6zMPLcXZ8


"Oh sim”, de Charles Bukowski, por João Pedro 

Para ouvir, clicar aqui.

há coisas piores do que
estar só
mas costuma levar décadas
até que o percebamos
e frequentemente
quando o conseguimos
é demasiado tarde
e nada pior
do que
ser demasiado tarde.

(trad. de Tiago Nené)


um poema de Fernando Pessoa, por Luís Caetano

Para ouvir, clicar aqui.

Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te…
Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me… E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção…
Possue-me-te, seja eu em ti meu spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha…
Meu amor será o sair de mim do teu ócio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?


“Procuro-te”, de Eugénio de Andrade, por Luísa Duarte Santos

Para ouvir, clicar aqui.

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos ao peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

In As Palavras Interditas



"Desperta-me de Noite", de Maria Teresa Horta, por Mafalda Serrano 


Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito
É rede a tua língua
Em sua teia
É vicio as palavras
Com que falas
A trégua
A entrega
O disfarce
E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes
Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo
E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vais descobrindo vales.


“Presságio”, de Fernando Pessoa, por Maria Alexandra Corvela

Para ouvir, clicar aqui.

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


“Planta Rubra”, de Alberto Pimenta, por Paulo Alves Guerra

Para ouvir, clicar aqui.

O percurso da minha vida
seguirá o teu
como o som segue a luz


“Pandemos”, de Jorge de Sena, por Pedro Coelho

Para ouvir, clicar aqui.

Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!

Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrrica donstália penicela,
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão bolíneos, ó primana!

Dentívolos palpículos, baissai!
lingâmicos dolins, refucarai!
Por mamivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.

In “Quatros Sonetos a Afrodite Anadiómena”, Metamorfoses, Poesia II


"Cidade", de Sophia de Mello Breyner Andressen, por Pedro Rafael Costa

Para ouvir, clicar aqui.

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

In Poesia I


“A vida celeste (Das himmlische Leben)”, da Sinfonia nº 4 de Gustav Mahler, por Susana Valente


Saboreamos os prazeres celestes,
por isso evitamos todas as coisas terrenas.
No céu não se escuta
nenhum rumor do mundo!
Todos vivem em serena paz!
Levamos uma vida angelical,
mas somos também muito alegres!
Levamos uma vida angelical,
dançamos e cantamos,
saltamos e pulamos!
E no céu, São Pedro observa-nos!

São João solta o pequeno cordeiro,
Herodes, o carniceiro, aguarda por ele!
Levamos o manso,
inocente e manso
e doce cordeirinho, para a morte!
São Lucas abate o boi
sem muito pensar ou sentir,
o vinho não custa um tostão
nas caves celestes,
e os anjos cozem o pão.

Ervas aromáticas de diversos tipos,
crescem no jardim celeste!
Bons espargos, feijões,
e tudo o que quisermos!
São-nos servidos pratos fartos!
Boas maçãs, boas peras, e boas uvas!
Os jardineiros deixam-nos provar tudo!
Se quereis corças ou lebres,
eles surgem correndo
pelas ruas espaçosas!
E se é dia de jejum,
todos os peixes nadam alegremente
até à tona!
E eis São Pedro que chega
com a sua rede e engodo
ao viveiro celeste.
Santa Marta deve ser a cozinheira!

Não existe música na Terra,
que se compare à nossa.
Onze mil virgens
lançam-se numa dança!
Santa Úrsula observa e ri!
Não existe música na Terra,
que se compare à nossa.
Cecília e os seus pares
são magníficos músicos de câmara!
As vozes dos anjos
estimulam os sentidos,
e tudo desperta para a alegria.

Tradução de Ofélia Ribeiro (Do programa de 17 e 18-11-2006, da Fundação Calouste Gulbenkian)

https://www.youtube.com/watch?v=YnfhInZLmUQ


“[Para ser grande, sê inteiro: …]", de Ricardo Reis (Fernando Pessoa), por Zulmira van Holstein

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

In Odes de Ricardo Reis