Yanis Varoufakis, um economista de esquerda para negociar com Berlim

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A crise trouxe-o para o palco. Será agora um dos protagonistas. Yanis Varoufakis é o novo ministro grego das Finanças. O economista aposta forte na permanência da Grécia no euro e na União Europeia e garante que quer trabalhar para conseguir um orçamento equilibrado. Para começar, quer renegociar os acordos com a troika e sanar a crise humanitária que assola o Estado helénico.

Ministro das Finanças da Grécia. É o título a somar ao já vasto currículo que Yanis Varoufakis apresenta. Professor na Universidade de Atenas, doutorado em economia pela Universidade de Essex no Reino Unido, desempenhou funções em universidades um pouco por todo o mundo. Participou de forma ativa no debate dos últimos anos sobre a crise do euro.Ao lado de Varoufakis estará Yanis Dragasakis, vice-primeiro-ministro. É o novo braço direito de Alexis Tsipras e é responsável pela supervisão económico-financeira do Governo. Será ele a liderar as negociações com a troika, juntamente com o novo ministro das Finanças.

Aos 53 anos, o economista, que partilha a nacionalidade grega com a australiana, prepara-se para meter de lado o mundo académico e assumir a responsabilidade pelas finanças da república helénica.

“Uma espécie de Álvaro Santos Pereira grego que promete continuar a escrever no seu blogue pessoal”, redige António Costa, diretor do Diário Económico na coluna que assina esta quarta-feira.

O projeto online é uma das faces mais visíveis do seu trabalho. As palavras de Varoufakis e sobretudo as suas ideias económicas estão também impressas. Na obra “O Minotauro Global” tece uma análise sobre as causas da crise económica internacional. Juntamente com os economistas Stuart Holland e Galbraith, propôs uma solução para acabar com a atual situação económica no livro “Uma proposta modesta”.Varoufakis foi uma das 74 personalidades que subscreveram o manifesto pela reestruturação da dívida pública portuguesa, em 2014. Um documento semelhante ao assinado por 74 personalidades nacionais, entre as quais Ferreira Leite, Bagão Félix e Francisco Louçã.

Nas letras, como nos comentários, Varoufakis apresenta-se um crítico da austeridade e das políticas seguidas pela Grécia nos últimos anos.

Ainda chegou a ser assessor económico de Georges Papandreou entre 2004 e 2006, antes de este liderar o Governo socialista grego, mas acabou por aproximar-se do Syriza.

“Quando, em junho de 2010, comecei a escrever que, ao contrário do que afirmavam os políticos gregos, a Grécia estava em situação de bancarrota e tinha de aceitar este facto, políticos de diferentes grupos contactaram-me, incluindo Alexis Tsipras”, contou ao jornal económico francês La Tribune, uma semana antes do ato eleitoral que fez do líder do Syriza o novo primeiro-ministro grego.

Varoufakis garante que nunca pretendeu entrar na vida política. A crise e a forma crítica como avaliou a resposta europeia trouxeram-no para a vida pública. Através dos livros, do blogue e da análise que ia fazendo na BBC, CNN e na SkyNews tornou-se numa figura maior da oposição à austeridade.
Renegociar com a troika
A grande questão é se Varoufakis terá verdadeiramente oportunidade de testar as ideias que tem defendido. O novo ministro garante não querer seguir um lógica de confronto com Bruxelas e Berlim, mas dificilmente irá desistir dos seus ideais.

Varoufakis defende a necessidade de rever os acordos com os credores internacionais, querendo avançar para a reestruturação da dívida grega. O economista afirma que a dívida é “impossível de pagar, sempre foi impossível de pagar”.

“Todos sabiam que os gregos não podiam suportar esse fardo devido à crise”, garantiu em entrevista à Antena 1, ainda antes do ato eleitoral.

“Precisamos de colocar um fim a isto. A pretensão de que resolvemos o problema através de grandes empréstimos e austeridade tem de acabar. Para benefício de toda a Europa. E podemos fazer isto. Há formas muito sensíveis de reestruturar a dívida”, assegura Varoufakis.

Reportagem de João Rosário e Carlos Valente, RTP

O professor de Economia da Universidade de Atenas quer que o reembolso da dívida grega esteja dependente do crescimento da economia helénica. Quer ver na Europa “um parceiro de crescimento” e não uma instituição na qual, diz Varoufakis, “podemos contar na nossa miséria”.

“Queremos fazer propostas que até Wolfgang Schäuble não poderá recusar”, garantiu a La Tribune.
Um novo paradigma reformador
O economista conhece bem a realidade grega e os seus problemas. Por isso mesmo garante que quer avançar com reformas, mas não da mesma forma que o executivo de Samaras.

“Antonis Samaras conduzia a cirurgia com uma faca de talhante. Nós queremos usar o laser para não matar o paciente”, disse na entrevista a La Tribune, nas vésperas das eleições que colocaram o Syriza no poder. O novo Governo grego anunciou a suspensão imediata do processo de privatização das elétricas e travou a privatização do porto do Pireu. O Executivo de Tsipras vai ainda aumentar o salário mínimo e parar o processo de requalificação na Função Pública.

Para Varoufakis, as reformas necessárias não passam pelo que diz ser “a venda barata das empresas nacionais”, ou "a destruição de empregos e a degradação das condições de trabalho".

“Esta crise deve-se à recessão, prejudicou centenas de milhares de gregos que tinham vidas médias mas dignas, e agora são sem-abrigo, pauperizados, vivem em condições que ninguém na Europa democrática devia suportar“, disse em entrevista à Antena 1.

O programa de “reformas profundas”, defende Varoufakis, não deve ser imposto pelos credores internacionais. O novo ministro quer combater a imunidade tributária das elites que, diz, não é apenas uma questão de evasão fiscal. “Grande parte das suas rendas não são sequer tributadas”, garante ao diário catalão La Vanguardia.

“Existe uma cleptocracia na Grécia. Um triângulo vicioso que abarca os “responsáveis do Estado, os banqueiros e os órgãos de comunicação. Propomos reformas para desmantelar este triângulo”, continuou o agora ministro das Finanças da Grécia.

Para já, o novo Governo grego deverá assumir a resolução da “crise humanitária” que assola o país como principal prioridade. Vai aumentar o salário mínimo e acionar o travão nas privatizações e na liberalização da economia. Medidas que vão no sentido oposto ao que foi realizado nos últimos anos e às ideias defendidas pela troika.

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