Marrocos poderá "usar a imigração ilegal para pressionar países europeus" - analista

por Lusa

 

Portugal e Espanha têm um "risco muito grande" no agudizar de tensões entre Marrocos e Argélia e, na eventualidade de conflito, enfrentarão grandes fluxos migratórios, inclusive criados para pressionar os países europeus, disse à Lusa o analista Riccardo Fabiani.

Fabiani, diretor do Programa para o Norte de África do International Crisis Group (ICG), que falava à Lusa no final de uma conferência em Lisboa intitulada "Norte de África: Tensões e Conflitos", considera que também na fronteira sul da União Europeia poderão ser usadas as migrações para pressionar os países europeus, tal como aconteceu recentemente na fronteira oriental, entre a Bielorrússia e a Polónia.

"Este seria o principal problema para a Europa. Já vimos, em meados deste ano, a crise entre Marrocos e Espanha, em Ceuta, onde Marrocos deixou passar milhares de pessoas por causa de tensões com Espanha, ligadas ao Saara Ocidental", realçou o analista.

Antes desta crise, a Espanha deu em maio assistência hospitalar a Brahim Ghali, Presidente da República Árabe Saarauí Democrática (RASD) e líder do movimento pela independência sarauí, a Frente Polisário.

"Agora estamos a assistir a um agravamento das relações entre Marrocos e a Argélia e o risco de uma guerra aberta poderia levar Marrocos a não controlar os fluxos migratórios que passam pelo seu território ou também usar a imigração ilegal para pressionar os países europeus. É um risco muito grande, sobretudo para a Península Ibérica", alertou.

O alerta foi expresso antes pelo OMI, antes da conferência, tendo a organização realçado que a atual tensão no norte de África, face ao agravamento da instabilidade na região do Magrebe, vai aumentar o fluxo de migrantes e que a Península Ibérica é um dos destinos.

"Marrocos poderá não ter capacidade nem disposição para controlar o cabo de Ceuta", afirmou Fabiani, que destacou também a crescente onda migratória, resultante igualmente das situações da Líbia e na Tunísia.

"É fundamental debatermos e analisarmos a situação do Magrebe. Nenhuma potência ou organização internacional está a prestar a devida atenção ao agravamento da instabilidade na região, e isso pode-nos custar muito caro", disse Fabiani.

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