Há 40 anos a PSP entrava a tiro nas oficinas da TAP

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A polícia de choque, ao entrar nas oficinas da TAP, há 40 anos
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Foi em 12 de Julho de 1973: a polícia de choque entrou nas oficinas da TAP para dissolver uma concentração de 5.000 operários. Abriu fogo, fez vários feridos e esteve na iminência de invadir também um dos hângares. Mas acabou por ter de retirar. A greve manteve-se por mais uma semana e terminou com uma meia vitória dos trabalhadores. Nove meses depois, era o 25 de Abril.

A ditadura terá considerado resolvido o problema com a destituição da direcção do Sindicato dos Metalúrgicos, em 1970. Com a embalagem da chamada "Primavera marcelista", os trabalhadores de vários ramos de actividade tinham organizado listas para concorrerem à direcção dos respectivos sindicatos e para substituírem os funcionários que o Estado Novo até aí nomeava para essa função.

Tinham-se sucedido, nesses primeiros tempos pós-salazaristas, as direcções eleitas pela primeira vez em várias décadas: Bancários, Caixeiros, Têxteis, Metalúrgicos, Marinha Mercante. Esses sindicatos tinham começado a reunir e dado origem à Intersindical.
O papel do Sindicato dos Metalúrgicos Um dos mais dinâmicos era o dos Metalúrgicos, cuja novas direcção tinha como coluna vertebral o núcleo de activistas da TAP. A nova direcção do sindicato, presidida por António Santios Júnior, chegou a reservar o Estádio da Luz para uma assembleia geral, depois proibida, do distrito de Lisboa; e levava a cabo um trabalho de base incansável, para a criação de comissões sindicais nos locais de trabalho.

O dinamismo da nova direcção metalúrgica acabou por torná-la uma autêntica bête noire da ditadura, apesar das veleidades primaveris que esta ainda mantinha para efeitos de propaganda. Em 1970, o Governo de Marcelo Caetano destituiu a direcção eleita e subsituiu-a por uma comissão administrativa. Voltava-se, ao menos nesse sindicaato, ao estilo anterior.

Mas o "problema" que a nova direcção metalúrgica representava para a ditadura não estava, em boa verdade, resolvido. O trabalho de base, fábrica por fábrica, dava os seus frutos. As comissões eleitas em cada local de trabalho davam sequência ao trabalho iniciado pela direcção destituída.

No caso da TAP, mantinham-se reuniões quinzenais de activistas, que juntavam nas instalações do sindicato cerca de meia centena de pessoas. A comissão administrativa do sindicato tratava de desmobilizar as reuniões com o pretexto de participarem demasiadas pessoas para as exigências de segurança da sede sindical.
As assembleias da "Voz do Operário" Ao chegar o ano de 1973, estava sobre a mesa a discussão de um novo acordo colectivo na TAP. Sucederam-se as assembleias, na "Voz do Operário", com participação crescente de trabalhadores: em 11 abril, com 600 presenças; em 7 de maio, com cerca de 1.000; em 30 junho, novamente com cerca de 1.000.

Os trabalhadores que participaram nessas efervescentes assembleias, recordam que elas eram sempre presenciadas "por um jornalista do Diário de Notícias, que dormia a sono solto, e por dois pides, muito despertos e muito preocupados". A preocupação era tanta que a assembleia marcada para 11 julho foi, finalmente, proibida.

Mas, como a proibição só foi comunicada à comissão sindical por volta das 18h, esta utilizou o pretexto para se declarar incapaz de desconvocar os trabalhadores, já preparados para comparecerem às 21h. Quando os trabalhadores começaram a chegar ao Largo da Graça, para descerem até à Voz do Operário, a PSP carregou violentamente sobre eles.

A reacção espontânea, que não se sabe exactamente de onde surgiu, foi a palavra de ordem: "Todos ao aeroporto". Na noite de 11 de julho, deu-se logo uma primeira concentração no aeroporto. No dia seguinte, as oficinas pararam e uma concentração ainda maior, calculada em 5.000 trabalhadores, exigia explicações à administração da empresa pelos factos da véspera.
A intervenção policial nas oficinas da TAP Para dissolver a concentração, interveio a polícia de choque, armada com bastões e com pistolas-metralhadoras FBP. Foram feitos disparos, que feriram várias pessoas e deixaram marcas nas paredes das oficinas, a perdurarem por várias décadas.

No entanto, a resistência dos trabalhadores, em terreno conhecido, rapidamente se tornou insustentável para a polícia. Esta tentou ainda entrar num dos hângares, mas renunciou à ideia, ao notar que podia ser alvo do dispositivo anti-incêndios. Alvejada por fisgas, com esferas de rolamentos facilmente acessíveis nas oficinas, a PSP decidiu retirar-se das instalações. Mas teve de fazê-lo também sob uma chuva de projécteis que a atingiam a partir dos edifícios de escritórios.
Epílogo de uma greve histórica
Nos dias seguintes, longe de regredir, o conflito intensificou-se com a extensão da greve das oficinas à pista e aos escritórios. Só em 17 de julho se registou o regresso ao trabalho, após conclusão de um acordo em sede de comissão arbitral em que o advogado sindical (Jorge Sampaio) votou vencido, por não ver nele satisfeita a reivindicação de se realizar a assembleia impedida em 11 de julho.

No entanto, o acordo representava para os trabalhadores uma meia vitória ou mais: garantia que não houvesse prisões ou outras represálias; que seriam libertados os presos na noite de 11 de julho; e que haveria infoprmação sobre o estado dos feridos e tratamento dos mesmos por conta da TAP.

Assim se concluía, a nove meses do 25 de Abril, uma das greves mais importantes da História do movimento operário português.

Tópicos:

1973, PSP, greve, primavera marcelista, repressão, TAP,

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