Os antepassados caucasianos dos portugueses

por José Milhazes, Agência LUSA

Ataces, lendário rei dos alanos, fundou a cidade de Coimbra e Alenquer, segundo os estudiosos, deve o seu nome à expressão "Al an Ker" que significa "Templos dos alanos".

Curiosamente, em 1993, a República da Ossétia do Norte acrescentou ao s eu nome Alania.

Estas são algumas das pistas históricas que ligam os portugueses ao lon gínquo Cáucaso, quando citas, sarmatas e alanos se instalaram no Nordeste daquel as montanhas, no território situado entre o Rio Don e o Mar Cáspio. Nos primeiros séculos da era cristã, aqueles povos criaram uma civiliza ção próspera no Cáucaso mas, em 360, os hunos derrotaram os alanos, obrigando à sua separação. Parte dos alanos sujeitou-se aos hunos, outra parte procurou refúgio na s montanhas do Cáucaso Central e uma terceira atravessou toda a Europa e instalo u-se na Península Ibérica, por volta de 408.

Apesar de terem permanecido pouco tempo no território da Hispânia, os a lanos deixaram importantes marcas materiais na Península Ibérica. Há vestígios deles na construção de castelos como o de Torres Vedras e Almourol ou ainda nas muralhas de Lisboa, onde os sinais da sua passagem pela Pe nínsula Ibérica ainda podem ser vistos debaixo da Igreja de Santa Luzia.

Chegado à Península, Ataces, rei dos Alanos, cujo estandarte ostentava um leão, instalou-se no alto da colina a Norte do Mondego, por onde actualmente se estende a cidade de Coimbra. A vontade de aumentar os seus domínios levou-o a confrontos sangrentos com o rei suevo Hermenerico, senhor de Conimbriga, em cuja bandeira ondeava uma serpente.

Mas não foi só a sede de expansão que motivou Ataces. O caucasiano, de pele morena e cabelos escuros, apaixonou-se por Cindaz unda, linda princesa sueva, de olhos claros, cabelos loiros e pele alva. Por ela, reduziu Conimbriga a cinzas e obrigou o rei suevo a aceitar o casamento da sua filha com o rival. A boda selou a paz entre o leão e a serpente , que hoje ainda se podem ver no brasão da cidade universitária.

Alenquer deve o seu nome aos alanos. Segundos os estudiosos, signific a "Templos dos Alanos" (Alan ker). Além disso, a localidade continua a ser prote gida pelo "cão alano", representado no seu brasão.

A raça do "cão alano", famoso pelas suas qualidades de caça e combate , foi trazida para a Península pelos alanos, não se tendo conservado no Cáucaso mas continuando hoje a ser utilizada na caça e pastoreio no País Basco.

Os actuais ossetas, ao contrário dos alanos ibéricos que passaram para o Norte de África e aí desapareceram, conseguiram sobreviver aos numerosos inva sores (tártaro-mongóis, turcos, russos), mas, actualmente, estão espalhados por dois países: Geórgia e Rússia.

"Quando eu estudei História na escola, na Ossétia do Norte não nos fal avam da presença dos alanos na Europa Ocidental", recorda Teimuraz, um osseta ac tualmente a residir em Moscovo.

"Talvez as autoridades soviéticas - continua Teimuraz - receassem o re ssurgimento do nacionalismo. Eu apenas me interessei por esse tema depois da esc ola, quando chegou a `perestroika` e começaram a ser publicadas obras sobre essa s páginas da história o meu povo".

Após a derrocada do comunismo, os dirigentes da Ossétia do Norte acresc entaram ao nome desta república "Alania" para recordar os laços existentes entre os alanos e os ossetas.

Fátima, outra osseta residente na capital russa, há já vários anos que vai passar férias com a família a Portugal.

"As pessoas perguntam-me porque é que gosto tanto de Portugal e eu resp ondo que, nesse país, tenho a sensação de estar em casa. Há muita coisa de famil iar, principalmente nas pessoas", esclarece Fátima.

"E cada vez encontro mais razões para fazer mais uma visita a Portugal, uma delas é visitar o lugar por onde andaram os nossos antepassados", conclui e la.