Sócrates garante que dinheiro não lhe pertence e admite processar o Estado

| País

José Sócrates foi detido em novembro de 2014 no âmbito da operação Marquês.
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Na segunda parte da entrevista à TVI, José Sócrates voltou a garantir que é inocente. O ex-primeiro-ministro afirmou que os 23 milhões de euros que estão em nome de Santos Silva na Suíça não lhe pertencem. Sócrates avalia ainda as acusações sobre o empreendimento de Vale de Lobos de “estratosféricas” e admitiu vir a processar o Estado. Quanto ao futuro, quer continuar a ter voz na política, mas sem se envolver de forma ativa.

“Esse dinheiro não é meu”. A garantia foi deixada por José Sócrates na entrevista à TVI, cuja segunda parte foi transmitida esta terça-feira à noite.

O ex-primeiro-ministro garantiu não ser beneficiário ou titular dos 23 milhões de euros que o Ministério Público acredita lhe pertencerem. Em causa, valores que Carlos Santos Silva tem depositados na Suiça.



“Nas contas da Suíça não apareço como beneficiário ou titular. Em mais de uma centena de buscas, não encontraram nada para sustentar a tese de que eu era o verdadeiro proprietário do dinheiro”, respondeu o ex-secretário-geral socialista, quando questionado por José Alberto Carvalho.
"Melhor amigo fora da política"
Pelos argumentos de José Sócrates, não faria qualquer sentido que este fosse o proprietário deste dinheiro sem que existisse “um único papel que provasse isso”. O ex-primeiro-ministro questionou ainda porque motivo alguém que teria 23 milhões de euros pediria empréstimos à Caixa Geral de Depósitos.

“Carlos Santos Silva é o meu melhor amigo fora da política. É honesto e bondoso. Temos uma relação fraterna e nunca soube se tinha dinheiro em contas na Suiça, apenas que tinha meios de fortuna”, explicou.

José Sócrates negou ainda que tenha praticado uma vida de luxos em Paris, enquanto tirava o mestrado em Science Po. Para os gastos, o ex-primeiro-ministro contaria com o empréstimo de 120 mil euros que fez, em 2012, na Caixa Geral de Depósitos e com uma doação da mãe.

Cerca de 400 mil euros que resultaram da venda de uma casa da mãe ao seu amigo Carlos Santos Silva. Mais tarde, afirma que começou a recorrer aos empréstimos de Santos Silva.

“Eu decidi ser ajudado. Como não há crime, há pecado, vejo agora para aí alguns armados em brigada de bons costumes”, atacou, na entrevista à TVI. Sócrates disse ainda já ter reembolsado 250 mil euros a Santos Silva.

O ex-primeiro-ministro refutou ainda qualquer ação no empreendimento de Vale do Lobo.


Sócrates considerou que estas são “acusações estratosféricas”, recusando ter falado com Armando Vara para pedir ajuda financeira para o projeto. O antigo líder socialista disse acreditar na inocência de Vara.

O ex-primeiro-ministro admitiu ainda vir a processar o Estado por este processo, acusando as autoridades de não respeitar as normas do direito penal com o objetivo de o prejudicar.


"Quiseram mesmo calar-me"
Na entrevista à TVI, José Sócrates disse ter a suspeita de que esta investigação teve como objetivo calá-lo e evitar uma eventual candidatura à Presidência da República.

“Tenho essa suspeita que quiseram mesmo calar-me, evitar que eu fosse candidato a Presidente da República”, ideia que diz não lhe ter passado pela cabeça. “Para muitos lá terá passado pela cabeça que eu seria um adversário para alguém”, afirmou.

O arguido da Operação Marquês manteve que existem motivações políticas neste processo e falou mesmo num “ódio pessoal” da direita contra si, remetendo para investigações anteriores. “O caso Freeport nasceu no gabinete de Santana Lopes”, especificou.

José Sócrates garantiu que não tenciona voltar a envolver-se ativamente na política, mas que tenciona manter uma voz ativa. Nesse sentido, o ex-primeiro-ministro defendeu que o PS deveria apoiar um candidato nas eleições presidenciais e que o facto de não o fazer apenas beneficiará Marcelo Rebelo de Sousa. Um candidato no qual garante que não irá votar.

“Não tenho simpatia política por ele, nunca tive simpatia pelo ‘kitsch’ na política”, justificou.
"Primeiro-ministro ponto final"
O ex-chefe de Governo afirmou ainda “gostar” do Executivo de António Costa e disse não compreender como pode ser posta em causa a sua legitimidade política.

Para José Sócrates, António Costa não é “primeiro-ministro vírgula”, retomando a expressão usada por Paulo Portas, mas “primeiro-ministro ponto final”. Admite que este Governo será “muito difícil, muito delicado e muito exigente” mas sublinha ser “um prazer ver um ministro das Finanças ter um discurso político de esquerda”.

José Sócrates foi detido em novembro de 2014, tendo sido o primeiro ex-primeiro-ministro português a ser detido preventivamente. Está indiciado pelos crimes de corrupção passiva, branqueamento de capitais e fraude fiscal. Depois de ter estado em prisão preventiva em Évora e em prisão domiciliária em Lisboa, está atualmente em liberdade.

c/ Lusa

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