Angolano Adebayo Vunge considera CPLP "quase inútil" e sugere reflexão sobre redinamização ou extinção
O consultor angolano Adebayo Vunge considera "quase inútil" a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), confessando que esperava "muito mais" da organização fundada há 30 anos.
Em entrevista à Lusa, quando apresenta, hoje, na Feira do Livro de Lisboa, as suas reflexões sobre Angola e África a partir de dois livros editados pela Rosa de Porcelana, Adebayo Vunge define a CPLP como "quase inútil".
"Esperava-se muito mais, quer seja do ponto de vista político, mas, principalmente, e até mesmo do ponto de vista cultural, é incrível, não é? Eu creio que a CPLP é um espaço sobre o qual se deveria pensar, no sentido ou de se redinamizar ou mesmo de a extinguir, porque não se sente", afirma.
Autor de "Impressões Digitais" (2025) e "Pensar África" (2017), Adebayo Vunge não vê razões para celebrar os 30 anos da CPLP, que se assinalam a 17 de julho, e acredita que só por "prudência diplomática" não se admite a extinção, já que observa um questionamento generalizado sobre a "utilidade" da organização.
"Mesmo só por uma certa prudência diplomática, não é? Mas, enquanto cidadãos, nós muitas das vezes questionamos a utilidade da organização, para não dizer que não encontrámos resposta satisfatória a essa questão. E este sentimento parece-me que é generalizado (...), pelo menos entre os países falantes [do português]", opina.
O tema "flagrante" dos vistos entre cada país, nos termos em que está construído, é, para o autor, um exemplo que confirma este questionamento, e, a esse propósito, aponta a nova lei da nacionalidade portuguesa e o seu efeito nas relações entre os dois países, como um tema sensível.
"É, parece-me que sim. Embora hoje o mundo esteja a começar um certo processo do ponto de vista das liberdades e da mobilidade, parece-me que, olhando para o histórico da nossa relação, esperava-se que a lei não vingasse [nestes] termos", saienta.
Defende que cada Estado "deve preservar o seu melhor interesse", mas também que os Estados que se sintam prejudicados "podem lutar também num sentido em que, em certa medida, sirva quase como retaliação", o que, reconhece, pode afetar as relações entre os países.
"Faz mossa. Faz mossa na relação não só entre os Estados, ou política, se quisermos, mas, fundamentalmente, na relação entre as pessoas, que é superior, (...) mais profunda e mais antiga do que a relação entre os Estados", considera.
Questionado sobre as mais recentes polémicas da política angolana, nomeadamente a intenção do Presidente, João Lourenço, (impedido constitucionalmente de avançar para um terceiro mandato) de se candidatar à presidência do MPLA - partido no poder -, afirma que as dinâmicas dos partidos políticos são marcadas por "alguma conflitualidade", mas confia que haja "maturidade" e que o processo decorra num quadro, "primeiro, legal", mas também "ético e republicano".
Perante afirmações feitas sobre João Lourenço, acusado por outros pré candidatos à liderança do MPLA de querer permanecer como "figura tutelar" do partido e assim influenciar a escolha do próximo Presidente, e perpetuar o seu poder, admite ser "uma leitura" e reconhece "uma espécie de nebulosa" no processo, mas sublinha que "os factos serão determinantes", sendo "prematuro" tirar conclusões.
A democracia em Angola e o exercício do jornalismo podem ser outras das "impressões digitais" que podem vir à conversa na sessão marcada para as seis da tarde de hoje, na Feira do Livro, com Adebayo Vunge.
O também docente e consultor, que é atualmente administrador independente na Unitel Money, para além de prestar consultoria estratégica para diversas entidades públicas e privadas, continua a ter intervenção regular em temas de economia, política e comunicação.
É autor de quatro obras, nomeadamente, "Pensar África" (2017) e "Impressões Digitais" (2025), "A Credibilidade dos Media em Angola" (2010) e dos Mass Media em Angola (2006). Como jornalista, passou por vários órgãos de comunicação social em Angola, de que se destaca a TPA, Novo Jornal e Jornal de Angola, tendo ainda exercido as funções de Diretor de Comunicação Institucional do Ministério das Finanças e tendo trabalhado como Adido de Imprensa na Embaixada de Angola em França.