Angra do Heroísmo, nos Açores, foi a primeira cidade portuguesa classificada pela UNESCO
Angra do Heroísmo, 27 mar (Lusa) - O Dia Nacional dos Centros Históricos vai ser assinalado quarta-feira com uma sessão solene em Angra do Heroísmo, nos Açores, a primeira cidade portuguesa classificada como Património Mundial pela UNESCO, em 1983.
Na cerimónia, que terá lugar nos Paços do Concelho, será entregue o primeiro Prémio Nacional `Memória e Identidade`, que distinguirá o arquiteto Álvaro Siza Vieira.
A aprovação da candidatura a Património Mundial permitiu que o centro histórico de Angra do Heroísmo ganhasse visibilidade numa altura em que a cidade recuperava do sismo ocorrido em 1980 e era necessário assegurar que a recuperação dos edifícios respeitaria a traça original.
Jorge Forjaz, na altura diretor regional dos Assuntos Culturais, revelou que o Governo Regional, em colaboração com o Gabinete de Apoio à Construção, liderado por Álvaro Monjardino, entregou o processo da candidatura na UNESCO para evitar que o restauro fosse feito sem regras.
"Não havia legislação que protegesse a cidade", frisou em declarações à Lusa, recordando que apenas os castelos e algumas igrejas estavam classificados.
Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, adquiriu importância histórica no tempo dos Descobrimentos, sobretudo devido à sua baía, frisando Jorge Forjaz que "é uma cidade no meio do Atlântico, que foi o centro de toda a expansão, o ponto de encontro entre o velho e novo mundo".
Por essa razão, as influências da Índia e do Brasil deixaram vestígios na arquitetura, nas igrejas, no mobiliário e na culinária.
O historiador Francisco Maduro-Dias também realçou que Angra do Heroísmo era uma "cidade histórica" antes do sismo, acrescentando que já existia um "levantamento da maior parte das fachadas".
"Qualquer casinha, se for antiga, se tiver sido testemunha da história que aconteceu, é valiosa", afirmou, acrescentando que, quase três décadas depois da classificação, a legislação tem sido cumprida, mas falta um rumo "muito definido e muito claro" para a cidade.
No mesmo sentido, Jorge Forjaz salientou que falta "uma certa pedagogia para fazer com que o cidadão seja o defensor da sua cidade".
"É preciso definir o que é preciso proteger, não pode haver mudanças de opinião", defendeu, frisando que a conservação tem de ser feita nos mais pequenos pormenores.
Para Francisco Maduro-Dias, não houve uma "atitude pró-ativa de salvaguarda", salientando que a classificação é sempre encarada como um "constrangimento".
"As pessoas têm orgulho de Angra, mas há um desconhecimento de como se faz a gestão desse orgulho", afirmou, defendendo que "conservar não é congelar".
Nesse sentido, afirmou que "há espaço para a inovação, desde que se perceba o que se está a valorizar".