António Lopes Ribeiro nasceu há 100 anos
Lisboa, 13 Abr (Lusa) - Contemporâneo de Manoel de Oliveira, conheceu os grandes mestres do cinema mundial e foi considerado um dos mais completos homens da sétima arte em Portugal. Se fosse vivo, António Lopes Ribeiro faria cem anos na quarta-feira.
"Foi a pessoa mais importante do cinema português, pelas valências, pelas capacidades e pelas iniciativas. Foi um homem completo", afirmou à agência Lusa o investigador de cinema José de Matos-Cruz.
Nasceu em Lisboa poucos meses depois do regicídio, viveu para contar duas guerras mundiais e uma revolução, atravessou praticamente toda a história do cinema em Portugal desde o filme mudo ao cinema a cores.
António Lopes Ribeiro foi um dos mais jovens críticos de cinema do mundo, função que exerceu em várias publicações.
Entusiasmado pelo cinema desde criança, rodou o primeiro filme em 1928, a curta-metragem "Uma batida em Malpique", e estreou-se nas longas-metragens com "Gado Bravo" em 1934.
Rodou vários documentários e filmes considerados de propaganda do regime, registou várias visitas oficiais de Salazar, de quem dizia ser fiel, mas discordou da guerra colonial.
"Podemos sempre opinar e ter um sentido crítico, mas estamos a falar sobre a sua importância no cinema e não nas ideias políticas e por isso devemos reconhecer-lhe o mérito", sublinhou Matos-Cruz.
Da ficção, no tempo em que o cinema português era popular, ficam na memória "O pai tirano" (1941), "A vizinha do lado" (1945) e "Frei Luís de Sousa" (1950).
Destacou-se ainda como produtor de filmes como "Aniki Bobó", do seu amigo Manoel de Oliveira, e "O pátio das cantigas", do irmão Ribeirinho, no qual se diz ter descartado a participação de Amália Rodrigues.
Ao longo da vida privou com "monstros sagrados" do cinema internacional, entre os quais Fritz Lang, Murnau, Eisenstein, Dziga Vertov e John Ford, e traduziu para português a autobiografia de Charles Chaplin, a única tradução autorizada pelo autor.
Durante quase vinte anos (entre 1957 e 1974) entrou na casa dos portugueses no programa televisivo "Museu do Cinema", ao lado do maestro António de Melo.
Fez parte da Emissora Nacional, criou uma empresa de produção de cinema, foi empresário dos Comediantes de Lisboa e fundou o Círculo Eça de Queirós, onde chegou a exibir filmes portugueses para Salazar.
José de Matos-Cruz recorda um ciclo dedicado a Lopes Ribeiro que a Cinemateca exibiu nos anos 1980, ainda no período quente pós-Abril de 1974, e que provocou reacções diversas entre o público.
"Lembro-me de que muitas pessoas gritaram `abaixo o Estado Novo´ e outras que bateram palmas, mas houve um leque de historiadores que percebeu que era importante conhecer a obra de Lopes Ribeiro", referiu.
António Lopes Ribeiro faleceu a 14 de Abril de 1994, dois dias antes de completar 87 anos.
SS.