Cultura
Morreu António Lobo Antunes
O escritor que reinventou o romance em língua portuguesa tinha 83 anos.
Morreu esta quinta-feira António Lobo Antunes, um dos mais consagrados escritores portugueses. Deixa uma obra vasta, com cerca de 40 livros editados em todo o mundo. Foi o vencedor do Prémio Camões em 2007.
António Lobo Antunes nasceu a 1 de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa, no seio de uma família de alta burguesia. O pai foi um destacado neurologista português. Estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 1969.
António Lobo Antunes dizia que podia adoecer dos livros “queria que fossem como um vírus que entram dentro das pessoas e passam a fazer parte delas”. O escritor formou-se em medicina, mas foi a escrita, de acordo com o próprio, que fazia o seu ato de existir.
Um livro inédito de poemas de Lobo Antunes será publicado em abril, anunciou entretanto, em comunicado, a editora Dom Quixote. "Poemas" é o título da obra.
c/ Lusa
António Lobo Antunes nasceu a 1 de setembro de 1942, na freguesia de Benfica, em Lisboa, no seio de uma família de alta burguesia. O pai foi um destacado neurologista português. Estudou no Liceu Camões e licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 1969.
A escolha do curso universitário "foi para dar prazer aos pais que entendiam que devia ter uma enxada", contou à Lusa. Lobo Antunes especializou-se em Psiquiatria, depois do regresso da Guerra Colonial.
Diogo Louçã Rodrigues - RTP
Embarcou para Angola em 1970, tendo regressado em 1973. Em 1979 publicou os seus primeiros livros, "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas", seguindo-se, em 1980, "Conhecimento do Inferno". As primeiras obras são marcadamente biográficas e estão muito ligadas ao contexto da Guerra Colonial; imediatamente o transformaram num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional.
A obra seguinte, "Explicação dos Pássaros", de 1981, também marcada pela prática da psiquiatria, da angústia e crueldade das personagens, confirmava a perspetiva de algo novo a acontecer, o que foi reafirmado por "Fado Alexandrino", de 1983, e consagrado com a atribuição do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), ao sexto título, "Auto dos Danados" (1985). O público desde cedo demonstrara apreço pela obra, tornando-o um dos
autores mais lidos de língua portuguesa, o que nem sempre facilitou a
crítica da época nos momentos iniciais do seu percurso.
Posteriormente, chegou o reconhecimento no estrangeiro, com a edição dos romances em países europeus, como Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, a que se juntaram os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e Canadá.
Em 1987, o Prémio Literário Franco-Português foi atribuído à tradução francesa do romance "Os Cus de Judas". Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária, distinguida em 2007 com o Prémio Camões, atribuído em conjunto por Portugal e Brasil.
Posteriormente, chegou o reconhecimento no estrangeiro, com a edição dos romances em países europeus, como Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, a que se juntaram os mercados livreiros do Brasil, Estados Unidos e Canadá.
Em 1987, o Prémio Literário Franco-Português foi atribuído à tradução francesa do romance "Os Cus de Judas". Foi o primeiro prémio de dimensão internacional que o escritor recebeu ao longo de 45 anos de carreira literária, distinguida em 2007 com o Prémio Camões, atribuído em conjunto por Portugal e Brasil.
António Lobo Antunes exerceu Medicina no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, passando a partir de 1985 a dedicar-se à escrita, pois não tinha muito mais tempo para outras coisas. "Um escritor tem de escrever", sustentou, acrescentando: "Escrever é muito difícil" e "exige humildade".
Manteve, porém, uma rotina no hospital, durante mais de uma década, onde ia uma vez por semana, "para não ficar maluco", como disse ao Estado de S. Paulo, em 1996. "Escrever é um ato esquizofrénico, que se pratica sozinho, entre quatro paredes, sem testemunhas. É um ato enlouquecedor. (...) Em 1980, já percebia que não poderia conciliar as duas atividades. Fui abandonando lentamente a psiquiatria e só não a abandono de vez para conservar a sanidade."
Manteve, porém, uma rotina no hospital, durante mais de uma década, onde ia uma vez por semana, "para não ficar maluco", como disse ao Estado de S. Paulo, em 1996. "Escrever é um ato esquizofrénico, que se pratica sozinho, entre quatro paredes, sem testemunhas. É um ato enlouquecedor. (...) Em 1980, já percebia que não poderia conciliar as duas atividades. Fui abandonando lentamente a psiquiatria e só não a abandono de vez para conservar a sanidade."
Obra publicada em dezenas de países
Ao longo dos anos, a sua obra, que se encontra publicada em dezenas de países, foi objeto dos mais diversos estudos, muitos deles académicos, muitos outros de investigação, alguns para lá da abordagem literária, abrindo também portas no campo da psicoterapia e da psicanálise, em particular.
A "Fado Alexandrino" (1983) e "Auto dos danados" (1985) sucedeu-se "As naus", em 1988. Vieram depois "Tratado das paixões da alma" (1990), "A ordem natural das coisas" (1992), "A morte de Carlos Gardel" (1994), "Manual dos inquisidores" (1996) e "O esplendor de Portugal" (1997). Lobo Antunes combina geografias pessoais com a desmontagem da versão falsa e heróica da História.
"Exortação aos crocodilos" (1999) dá-lhe pela segunda vez o Grande Prémio de Romance da APE. "Não entres tão depressa nessa noite escura" (2000), "Que farei quando tudo arde?" (2001), "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" (2003) e "Eu hei-de amar uma pedra" (2004) acentuaram a renovação da linguagem, como a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas destaca, na página dedicada ao autor.
Numa bibliografia com perto de três dezenas de romances, cerca de metade surgiu nos últimos 20 anos: "Ontem não te vi em Babilónia" (2006), "O meu nome é Legião" (2007), "O arquipélago da insónia" (2008), "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?" (2009), "Sôbolos rios que vão" (2010), "Comissão das lágrimas" (2011), "Não é meia noite quem quer" (2012), "Caminho como uma casa em chamas" (2014), "Da natureza dos deuses" (2015), "Para aquela que está sentada no escuro à minha espera" (2016), "Até que as pedras se tornem mais leves que a água" (2017), "A última porta antes da noite" (2018), "A outra margem do mar" (2019), "Diccionario da linguagem das flores" (2020), "O tamanho do mundo" (2022).
Pelo meio, surgiram vários volumes de "Livro de crónicas" e ainda o livro para crianças "A história do hidroavião" (1994), ilustrado pelo músico e amigo Vitorino. A correspondência de guerra, organizada por Maria José e Joana Lobo Antunes, deu origem a "D'este viver aqui neste papel descripto" (2005), que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira "Cartas da guerra" (2016).Regularmente indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes acumulou prémios com a obra e como autor, pelo percurso literário.
Em Portugal, duas vezes distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, recebeu também o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus ("Exortação aos crocodilos", 1999), o Prémio Fernando Namora ("Boa tarde às coisas aqui em baixo", em 2004), o Prémio Alberto Pimenta de carreira, do Clube Literário do Porto (2008), o Prémio Autores ("Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar", 2010), o Prémio Literário Fundação Inês de Castro ("O tamanho do mundo", 2023).
Em França teve o Prix France Culture de Littérature Étrangère em 1996, por "A morte de Carlos Gardel", e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, por "Manual dos Inquisidores", em 1997, romance também distinguido em Frankfurt, na Alemanha, como melhor obra traduzida, no mesmo ano.
Na Áustria, onde foi "convidado de honra" do Festival de Música de Salzburgo, recebeu em 2000 o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. Em Espanha, teve os prémios Rosalía de Castro, em 2001, Terence Moix, em 2008, e o da Extremadura para a Criação, em 2009.
Em Itália, recebeu o Prémio Internacional União Latina, em 2003, o Nonino, em 2014, e o Prémio Bottari Lattes Grinzane, em 2018, enquanto na Roménia teve o Prémio Ovídio, em 2003.O Estado de Israel entregou-lhe o Prémio Jerusalém, em 2004. No Chile recebeu, em 2006, o Prémio Iberoamericano José Donoso. O México deu-lhe o Prémio da Feira do Livro de Guadalajara (Juan Rulfo), em 2008.
A República Portuguesa condecorou-o com a Ordem da Liberdade, em 2019, 15 anos depois do Grande Colar da Ordem de Sant'Iago da Espada. França deu-lhe o grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras, em 2008.
Várias universidades concederam-lhe o doutoramento honoris causa, como a Universidade Nacional Mayor de San Marcos, de Lima, Peru, em 2022, a Universidade de Constança, na Roménia, e as portuguesas de Trás-os-Montes e Alto Douro e de Lisboa, em 2011.
O seu mais recente livro, "Crónicas II", chegou às livrarias em 24 de outubro do ano passado, com prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio, que considera as 187 crónicas "reunidas neste volume uma demonstração clara da sua (Lobo Antunes) criatividade e da capacidade de falar dos temas do quotidiano ao leitor comum", definindo "uma extraordinária galeria de personagens inesquecíveis", como todas as personagens do escritor. Cláudia Aguiar Rodrigues - Antena 1
A "Fado Alexandrino" (1983) e "Auto dos danados" (1985) sucedeu-se "As naus", em 1988. Vieram depois "Tratado das paixões da alma" (1990), "A ordem natural das coisas" (1992), "A morte de Carlos Gardel" (1994), "Manual dos inquisidores" (1996) e "O esplendor de Portugal" (1997). Lobo Antunes combina geografias pessoais com a desmontagem da versão falsa e heróica da História.
"Exortação aos crocodilos" (1999) dá-lhe pela segunda vez o Grande Prémio de Romance da APE. "Não entres tão depressa nessa noite escura" (2000), "Que farei quando tudo arde?" (2001), "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" (2003) e "Eu hei-de amar uma pedra" (2004) acentuaram a renovação da linguagem, como a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas destaca, na página dedicada ao autor.
Numa bibliografia com perto de três dezenas de romances, cerca de metade surgiu nos últimos 20 anos: "Ontem não te vi em Babilónia" (2006), "O meu nome é Legião" (2007), "O arquipélago da insónia" (2008), "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?" (2009), "Sôbolos rios que vão" (2010), "Comissão das lágrimas" (2011), "Não é meia noite quem quer" (2012), "Caminho como uma casa em chamas" (2014), "Da natureza dos deuses" (2015), "Para aquela que está sentada no escuro à minha espera" (2016), "Até que as pedras se tornem mais leves que a água" (2017), "A última porta antes da noite" (2018), "A outra margem do mar" (2019), "Diccionario da linguagem das flores" (2020), "O tamanho do mundo" (2022).
Pelo meio, surgiram vários volumes de "Livro de crónicas" e ainda o livro para crianças "A história do hidroavião" (1994), ilustrado pelo músico e amigo Vitorino. A correspondência de guerra, organizada por Maria José e Joana Lobo Antunes, deu origem a "D'este viver aqui neste papel descripto" (2005), que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira "Cartas da guerra" (2016).Regularmente indicado como um dos mais prováveis vencedores portugueses do Nobel da Literatura, António Lobo Antunes acumulou prémios com a obra e como autor, pelo percurso literário.
Em Portugal, duas vezes distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, recebeu também o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus ("Exortação aos crocodilos", 1999), o Prémio Fernando Namora ("Boa tarde às coisas aqui em baixo", em 2004), o Prémio Alberto Pimenta de carreira, do Clube Literário do Porto (2008), o Prémio Autores ("Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar", 2010), o Prémio Literário Fundação Inês de Castro ("O tamanho do mundo", 2023).
Em França teve o Prix France Culture de Littérature Étrangère em 1996, por "A morte de Carlos Gardel", e o Prémio de Melhor Livro Estrangeiro, por "Manual dos Inquisidores", em 1997, romance também distinguido em Frankfurt, na Alemanha, como melhor obra traduzida, no mesmo ano.
Na Áustria, onde foi "convidado de honra" do Festival de Música de Salzburgo, recebeu em 2000 o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco. Em Espanha, teve os prémios Rosalía de Castro, em 2001, Terence Moix, em 2008, e o da Extremadura para a Criação, em 2009.
Em Itália, recebeu o Prémio Internacional União Latina, em 2003, o Nonino, em 2014, e o Prémio Bottari Lattes Grinzane, em 2018, enquanto na Roménia teve o Prémio Ovídio, em 2003.O Estado de Israel entregou-lhe o Prémio Jerusalém, em 2004. No Chile recebeu, em 2006, o Prémio Iberoamericano José Donoso. O México deu-lhe o Prémio da Feira do Livro de Guadalajara (Juan Rulfo), em 2008.
A República Portuguesa condecorou-o com a Ordem da Liberdade, em 2019, 15 anos depois do Grande Colar da Ordem de Sant'Iago da Espada. França deu-lhe o grau de Comendador da Ordem das Artes e Letras, em 2008.
Várias universidades concederam-lhe o doutoramento honoris causa, como a Universidade Nacional Mayor de San Marcos, de Lima, Peru, em 2022, a Universidade de Constança, na Roménia, e as portuguesas de Trás-os-Montes e Alto Douro e de Lisboa, em 2011.
O seu mais recente livro, "Crónicas II", chegou às livrarias em 24 de outubro do ano passado, com prefácio do psiquiatra Daniel Sampaio, que considera as 187 crónicas "reunidas neste volume uma demonstração clara da sua (Lobo Antunes) criatividade e da capacidade de falar dos temas do quotidiano ao leitor comum", definindo "uma extraordinária galeria de personagens inesquecíveis", como todas as personagens do escritor. Cláudia Aguiar Rodrigues - Antena 1
António Lobo Antunes dizia que podia adoecer dos livros “queria que fossem como um vírus que entram dentro das pessoas e passam a fazer parte delas”. O escritor formou-se em medicina, mas foi a escrita, de acordo com o próprio, que fazia o seu ato de existir.
Um livro inédito de poemas de Lobo Antunes será publicado em abril, anunciou entretanto, em comunicado, a editora Dom Quixote. "Poemas" é o título da obra.
c/ Lusa