Artistas alertam para destino incerto do acervo da cooperativa Gravura após despejo

Artistas alertam para destino incerto do acervo da cooperativa Gravura após despejo

A cooperativa Gravura, em Lisboa, foi alvo de despejo após seis décadas de atividade, e alguns antigos associados estão a alertar para o destino incerto do acervo desta entidade, fundada por artistas como Júlio Pomar e João Hogan.

Lusa /

As instalações da Gravura - Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses (SCGP), fundada em 1956 por alguns dos pioneiros desta área em Portugal, foram encerradas há três anos e, no seu interior, ficaram obras e prensas de gravura.

Daniel Vieira e Francisco Tropa foram alguns dos artistas contactados pela agência Lusa que tentaram recuperar peças que aí se encontram, sem sucesso, porque as instalações na travessa do Sequeiro foram seladas pelo proprietário, a Caixa de Previdência do Ministério da Educação (CPME), devido à falta de pagamento de renda.

Contactado pela Lusa, o Ministério da Educação confirmou que foram retiradas recentemente algumas obras de gravura das instalações, inventariadas e guardadas na sede da CPME, "dado o valor patrimonial em causa", estando em curso "uma ação judicial, que corre os seus termos no Tribunal competente".

A última presidente da direção da cooperativa, Teresa Albuquerque, disse à Lusa que o acervo se mantinha no interior, quando a entidade foi encerrada, e que desconhecia a retirada de obras, adiantando, no entanto, que o caso "está nas mãos de advogados".

Dada a situação, os artistas temem pelo futuro de obras de arte e de três prensas que terão valor histórico, uma delas oferecida por Bartomoleu Cid dos Santos (1931-2008), um dos mais importantes nomes da gravura em Portugal.

Francisco Tropa, que fez algumas séries de trabalhos na Gravura, foi um dos artistas que teve conhecimento do despejo, tal como Daniel Vieira e Joanna Lakta, que saiu da cooperativa em 2008, para formar o ateliê Contraprova, também em Lisboa.

"Tinha lá trabalhos em curso quando, um dia, tentei entrar no edifício e estava selado", disse Francisco Tropa à Lusa, indicando que teve conhecimento do despejo por outros artistas com ligações à antiga cooperativa.

O artista, de 46 anos, que representou Portugal na Bienal de Arte de Veneza em 2011, tentou fazer contactos com a direção para recuperar as obras, mas sem êxito.

Daniel Vieira, 77 anos, passou pela mesma situação. Foi aluno de João Hogan e de Alice Jorge, dois dos fundadores da Gravura: "Ainda lá tenho gravuras, chapas, provas de ensaio", disse o gravador, receando que as obras desapareçam ou sejam "vendidas a peso".

Joanna Lakta, 36 anos, artista plástica de origem polaca, veio viver para Portugal e entrou na cooperativa em 2005: "Estive pouco tempo, porque não havia condições para trabalhar", recorda, indicando que a situação se foi degradando durante a última gestão da direção.

"A Gravura deu muito dinheiro. Chegou a ter 1700 sócios, entre artistas e não artistas. Mas a última gestão foi ruinosa, chegando-se ao ponto de a renda não ser paga durante anos, daí a ação de despejo", relatou.

Teresa Albuquerque, por seu lado, rejeita estas acusações de má gestão, justificando que a Gravura entrou em dificuldades "por várias circunstâncias difíceis", acrescentando que o caso está nas mãos de advogados.

O Ministério da Educação afirma que, depois de promovida a ação de despejo, em 2012, foi estipulado um mês para a retirada do recheio do edifício, "o que não foi cumprido durante os últimos três anos".

Acrescentou que, recentemente, "foi necessário proceder à retirada de produtos químicos, alguns já derramados, por motivos ambientais", e que "ainda existem elementos por retirar - pedras mármore e outros bens muito pesados".

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