Associação alerta para risco de extinção da profissão de calceteiro e pede medidas

Associação alerta para risco de extinção da profissão de calceteiro e pede medidas

O secretário-geral da Associação Calçada Portuguesa alertou hoje para o risco de extinção da profissão de calceteiro e as consequências para o estado de conservação da calçada, pedindo que o Governo tome medidas.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Carla Quirino - RTP

Em declarações à agência Lusa na véspera da comemoração do primeiro Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa (22 de julho), António Prôa alertou para o risco de extinção da profissão, a falta de atratividade, condições de trabalho e as consequências para o estado de conservação da calçada.

"Corre o risco de extinção num prazo que não há de ser muito longo se o país nada fizer para reverter essa tendência", disse, acrescentando que atualmente não se sabe quantos calceteiros existem no país, pois não há nenhuma organização que reúna esses dados.

No entanto, através de relatos de calceteiros e dos resultados de um inquérito feito aos municípios de todo o país, a associação verificou que há uma diminuição progressiva do número de calceteiros nos quadros das câmaras e um aumento da idade média.

"Estimamos que a idade média ande em torno dos 55 anos, que é uma idade elevadíssima. Há também mulheres, mas muito poucas, e imigrantes que tentam aprender o ofício", indicou o representante, também deputado municipal em Lisboa.

O declínio na profissão deve-se, segundo a associação, às condições duras de trabalho, sujeita às condições meteorológicas e físicas (posição desconfortável), a condições remuneratórias muito pouco atrativas e ao fraco reconhecimento social.

No que diz respeito à remuneração, António Prôa destacou os calceteiros que são funcionários dos municípios, integrados nas carreiras dos assistentes operacionais.

"São indiferenciados. Ganha tanto alguém que sabe muito pouco fazer calçada como o mestre calceteiro. São sempre assistentes. Isso levou-nos a fazer uma proposta ao Governo para criar uma carreira especial de calceteiro que permita a progressão da carreira e valorização em função da sua capacidade técnica", contou.

Depois, indicou, existem os que trabalham no privado, mestres que têm rendimentos razoáveis e trabalham por conta própria, e outros que estão integrados em empresas da construção civil e que ganham mal.

No que diz respeito à formação, António Prôa afirmou que existem cerca de 20 unidades de formação profissional com competência, mas não existe procura.

"Antigamente, o ofício passava de colegas para colegas, de pais para filhos de forma tradicional. Mais recentemente as escolas deram uma componente formal à aprendizagem, mas a procura é muito reduzida. Nos últimos quatro anos tivemos 34 pessoas em todo o país a receber certificação", indicou.

Toda esta crise na profissão tem consequências no estado de conservação da calçada portuguesa, que terá impacto em quem as utiliza.

"Por exemplo, nos anos 1940 Lisboa tinha 400 calceteiros nos seus quadros, atualmente tem 18. Se temos falta de profissionais é inevitável que haja problemas na conservação da calçada", disse.

Para preservar esta arte, o dirigente lembrou que o Governo anunciou em janeiro a criação de um grupo de trabalho para a calçada portuguesa com o objetivo de estudar a situação e propor medidas que a valorizem.

Este anúncio surgiu numa altura em que está em apreciação a proposta de candidatura da arte e saber-fazer da calçada portuguesa na Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), entregue pela associação em março de 2025.

Quanto à primeira celebração do Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa, António Prôa disse que deve servir para chamar a atenção para a importância do setor e da preservação da calçada e para "comprometer as entidades a fazerem alguma coisa".

"O Governo tem de tomar medidas, mas também os municípios têm de agir. A associação tem vindo a reivindicar que a profissão merece um suplemento de insalubridade e penosidade que outros profissionais no quadro dos municípios beneficiam e os calceteiros inexplicavelmente não", disse.

O Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa vai ser assinalado na quarta-feira, a partir das 18:00, no Castelo de São Jorge, Lisboa, local onde nasceu a calçada, e será apresentado o primeiro processo de classificação da Praça de São Paulo, na capital, que tem a calçada no seu estado original mais antiga que existe no país.

Também em Porto de Mós, no distrito de Leiria, o município promove a partir das 15:00, no Fórum Cultural, uma homenagem a esta arte, que inclui a apresentação da uma obra e uma tertúlia.

No Funchal, é prestada uma homenagem nos Paços do Concelho às 15:00.

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