Associação de Jornalistas considera "lamentável" que ainda se "censure" uma obra

Associação de Jornalistas considera "lamentável" que ainda se "censure" uma obra

O presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras considerou hoje "lamentável" que ainda se "censure" uma obra, referindo-se ao `cartoon` retirado da Bienal Internacional de Arte Gaia depois de críticas da Comunidade Israelita de Lisboa.

Lusa /

"É lamentável que quase nos 50 anos do 25 de Abril ainda surjam posições destas que censuram uma obra", afirmou Francisco Duarte Mangas, em reação à retirada, por parte do cartoonista Onofre Varela, do seu próprio `cartoon` da Bienal Internacional de Arte Gaia depois de críticas da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL).

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras criticou ainda a "pressão" feita pela Comunidade Israelita de Lisboa à Câmara de Gaia, para que fosse "retirado o apoio público", e à organização da Bienal.

Dizendo respeitar a decisão do cartoonista, Francisco Duarte Mangas defendeu, no entanto, que a Câmara de Gaia deveria ter tido "uma posição mais veemente".

"Perante a pressão da comunidade judaica portuguesa, [a Câmara de Gaia] devia ter tido uma posição mais firme", referiu.

Para o presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras, "falta cultura democrática" em Portugal.

"É necessário um pouco mais de cultura democrática, ainda para mais, num momento em que as extremas-direitas estão a avançar rapidamente", disse, defendendo que "quem, de facto, é verdadeiramente democrata" tem de defender estes valores.

Na terça-feira, numa carta dirigida ao presidente da Câmara de Gaia e publicada na sua página oficial do Facebook, a Comunidade Israelita de Lisboa considerou que um `cartoon` de Onofre Varela "banaliza o Holocausto cometido pelo regime nazi e diaboliza os judeus na sua relação com a Palestina".

"Somos contra a censura, mas o direito de livre expressão deve e pode ser travado quando estimula o ódio e a intolerância. A imagem referida é ultrajante e menoriza o horror e a tragédia do Holocausto. Hitler não tramou os judeus com `desrespeito` como referido no texto do Cartoon, tratou os judeus com um extermínio em massa e com uma desumanidade sem limites", defendeu a comunidade.

Um dia depois, numa publicação na sua página na rede social Facebook, o cartoonista Onofre Varela refutou as acusações de antissemitismo proferidas pela Comunidade Israelita de Lisboa, sublinhando que decidiu retirar o `cartoon` "para não ferir suscetibilidades tão melindrosas".

"Dizer que esta minha apreciação crítica é uma atitude antissemita é confundir uma cebola com um pêssego! Nesse sentido, alerto quem se escandalizou com o meu desenho, para que nunca use cebola numa salada de frutas, nem pêssego num estrugido. O resultado seria intragável, como intragável é o fundamentalismo de quem apelida de `antissemita` quem não diz ámen consigo", escreve o cartoonista.

Ainda na terça-feira durante a manhã, em resposta enviada à Lusa, o diretor da Bienal Internacional de Arte Gaia, Agostinho Santos, sublinhou que o certame se "assume como uma Bienal de Causas" e, nesse sentido, "assume o compromisso de dar liberdade a cada artista para expressar a sua visão do Mundo, independentemente das orientações individuais manifestadas".

"O trabalho de Onofre Varela, reconhecido cartoonista, faz referência a Israel na sua perspetiva e já foi publicado há alguns anos na comunicação social. Não significa isso que a Bienal se identifique com qualquer expressão política manifestada pelos artistas representados, mas jamais impedirá que a sua liberdade de expressão seja limitada", vincou Agostinho Santos.

Ao final da tarde, o município de Vila Nova de Gaia reiterou à Lusa que "apoia todas as instituições e iniciativas de relevante interesse municipal, sem exercer qualquer tipo de interferência na sua gestão e organização".

"Jamais o município põe em causa a liberdade de expressão. Independentemente disso, entende-se que quando se ferem suscetibilidades num tempo em que a tolerância é um valor fundamental, devem ser tomadas opções. Por isso, constatamos com total agrado a decisão de retirada, pelo artista, do `cartoon` em causa, desta forma evidenciando a sua sensibilidade ao assunto", justificou a Câmara de Gaia.

Em fevereiro de 2020, um outro cartoonista português, Vasco Gargalo, disse à agência Lusa ter recebido ameaças de morte, além de acusações de antissemitismo, por causa de um `cartoon` publicado em novembro do ano anterior.

Em causa estava um `cartoon`, intitulado "Crematório", que Vasco Gargalo publicou `online`, na plataforma Cartoon Movement a 15 de novembro de 2019 e que republicou num comentário ao plano de paz para o Médio-Oriente apresentado, na ocasião, pelos Estados Unidos.

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