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Bertolt Brecht um "clássico" que continua a "fazer-nos pensar"

Bertolt Brecht um "clássico" que continua a "fazer-nos pensar"

A actriz Alina Vaz, que integrou o primeiro elenco que interpretou Bertolt Brecht em Portugal, há 30 anos, considera que meio século depois da morte daquele dramaturgo alemão, as suas peças continuam "actuais" e "a fazer-nos pensar".

Agência LUSA /

"Antes do 25 de Abril de 1974 a companhia da actriz Della Costa tentou apresentar uma peça de Brecht num teatro do Parque Mayer mas foi impedida pela Censura", recordou a actriz, que em 1976, sob a direcção de Carlos Avilez, encarnou a personagem Polly na peça "Opera dos Três Vinténs".

O cinquentenário da morte de Bertolt Brecht é assinalado na próxima segunda-feira.

Para o encenador Jorge Silva Melo, que já levou à cena quatro peças do dramaturgo, Brecht "não só é "actual" como o seu contributo "é determinante para o panorama teatral contemporâneo".

A actriz Alina Vaz considera que "representar Brecht, como ele escreveu, é um exercício de grande reflexão crítica e faz-nos interrogar sobre nós próprios, continuando por isso actual".

Segundo Silva Melo, "assiste-se a um redescobrimento de Brecht por uma geração que não está muito marcada por certas peças suas do ponto vista ideológico e conceptual".

"É necessário ter havido esse distanciamento para que se interessarem novamente por Brecht, já despojado de outros conceitos ideológicos", acrescentou.

Alina Vaz considera também que "as peças de Brecht marcaram muito as diferentes gerações até aos anos 1980, pela sua fundamental defesa da liberdade".

A investigadora de teatro Teresa André sustenta que no século da globalização "o conteúdo social do teatro de Brecht é ainda mais actual".

"Brecht é um autor que neste momento pode ser encarado como uma arma contra as desigualdades, nada datado, e levar hoje as suas peças ao palco pode até ser perverso", disse a investigadora.

Segundo Teresa André "o tempo actual não é propício à representação de um autor inconformado porque as pessoas não querem pensar e Brecht obriga a uma reflexão sobre nós próprios e o mundo, o que, perversamente, nunca foi tão necessário".

O teatro de Brecht "não é um divertimento que acontece na cidade mas sim um encontro de cidadãos livres", realçou Silva Melo. "Ele fomenta no espectador a atitude dúvida e não o procura nunca seduzir".

Teresa André salientou "a pedagogia do espectador" para que Brecht sempre alertou.

O dramaturgo defendia que, além de uma escola de actores, era também necessária uma escola de espectadores.

Esta escola deverá ser entendida no sentido "como o texto de teatro leva o espectador a interrogar-se e a duvidar do que é posto em palco".

Jorge Silva Melo, da companhia Artistas Unidos, enfatizou o facto da companhia fundada por Brecht, a Berlinner, "ter sido a que mais marcou o século XX, apesar da curta duração que esteve sob a sua direcção".

A Berlinner foi fundada por Brecht em Berlim Leste (ex-República Democrática Alemã) em 1948, oito anos antes de falecer.

"É impressionante que apesar do curto espaço de tempo, nos marcou tanto na forma de fazermos teatro e encenarmos", disse.

Silva Melo afirmou que uma das dificuldades de hoje levar a cena peças do dramaturgo nascido em Augsburgo em 1898 "é o facto de exigirem grandes palcos e elencos entre 12 a 15 pessoas, o que se torna financeiramente incomportável".

O encenador defendeu também que "sendo Brecht um clássico, é para ser usado e utilizado, pois os clássicos estão sempre actuais".

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