Cultura
Carta de Van Gogh e Gauguin vendida por mais de 210 mil euros
Uma carta escrita por Vincent Van Gogh e Paul Gauguin, em 1888, ao também pintor Emile Bernard, foi na terça-feira vendida num leilão, em Paris, por 210.600 euros. A Fundação Vincent Van Gogh, em Amesterdão, comprou a missiva onde os dois artistas do século XIX falavam sobre visitas a bordéis franceses.
Na carta de quatro páginas, os pintores falam das suas visitas a bordéis em Arles, em França, e assumem que as suas obras estão a liderar o "grande renascimento da arte". Considerado um documento "excecional", revela ainda o desejo de reavivar a arte moderna e de criar uma associação de pintores.
"Temos ido a bordéis e é provável que comecemos a ir trabalhar para lá várias vezes", pode ler-se na carta dirigida a Emile Bernard.
Os dois artistas relatam ainda a primeira semana de convivência na Casa Amarela da cidade, um café com quartos para alugar, imortalizado por Van Gogh numa pintura a óleo, e demolido depois de ter ficado parcialmente destruído durante a Segunda Guerra Mundial.
"Neste momento, Gauguin está a pintar uma tela do mesmo bar noturno que eu também pintei, mas com figuras vistas nos bordéis. Promete tornar-se uma coisa linda", escreveu o artista holandês.
O texto foi enviado de Arles, no sul da França, no início do mês de novembro de 1888, menos de dois anos antes de Van Gogh ter morrido, aos 37 anos.
A leiloeira, Drouot, referiu que "o documento reflete a imensa lucidez destes artistas quanto às mudanças que ocorrem à sua volta. São plenamente conscientes de que a sua arte marca um ponto de inflexão que só será entendido pelas gerações futuras".
Une lettre de la main de deux immenses peintres, Vincent #VanGogh & Paul #Gauguin, adressée à Emile Bernard bientôt aux enchères !
— Drouot (@Drouot) June 12, 2020
Le texte des deux artistes exprime leur certitude que leur peinture va révolutionner l'art des générations futures.
Et comme ils avaient raison. pic.twitter.com/Tn286WrRKH
"Admito que não entendo por que não faço estudos de figuras, embora teoricamente às vezes seja tão difícil para mim imaginar a pintura do futuro como algo além de uma nova série de grandes retratistas, simples e compreensíveis para todo o mundo - o público em geral ", escreveu também Van Gogh. "De qualquer forma, talvez em breve eu comece a pintar bordéis".
O trabalho conjunto destes dois artistas em Arles visava ser o primeiro passo para realizar o sonho de Van Gogh de criar uma espécie de associação de pintores. Segundo Van Gogh, o artista francês era um potencial líder de uma associação desse tipo.
"Gauguin interessa-me muito como homem - muito. Durante muito tempo, pareceu-me que, no nosso trabalho imundo como pintores, temos a maior necessidade de pessoas com as mãos e o estômago de um trabalhador. Gostos mais naturais - temperamentos mais amorosos e benevolentes - do que o decadente e exausto parisiense-sobre-a-cidade".
Gauguin é "uma criatura intocada com os instintos de um animal selvagem", acrescentou. "Com Gauguin , sangue e sexo têm vantagem sobre a ambição. Mas fico por aqui, tu viste-o por muito mais tempo do que eu, só queria contar-te as primeiras impressões em poucas palavras".
"Gauguin interessa-me muito como homem - muito. Durante muito tempo, pareceu-me que, no nosso trabalho imundo como pintores, temos a maior necessidade de pessoas com as mãos e o estômago de um trabalhador. Gostos mais naturais - temperamentos mais amorosos e benevolentes - do que o decadente e exausto parisiense-sobre-a-cidade".
Gauguin é "uma criatura intocada com os instintos de um animal selvagem", acrescentou. "Com Gauguin , sangue e sexo têm vantagem sobre a ambição. Mas fico por aqui, tu viste-o por muito mais tempo do que eu, só queria contar-te as primeiras impressões em poucas palavras".
Paul Gauguin escreve no final da carta para que o amigo de ambos "não dê ouvidos a Vincent": "Sabes como ele é impressionável", acrescenta.
O artista francês chegou a Arles, onde Van Gogh vivia em outubro de 1888, e os dois passaram vários meses a pintar. Foi ainda durante essa visita de Gauguin que Van Gogh perdeu a orelha.
Terá sido, aliás, depois de uma discussão entre os dois que Van Gogh terá cortado a orelha.
A carta, escrita em francês, foi comprada em Paris na terça-feira pela Fundação Vincent Van Gogh e fará parte de uma exposição no Museu Van Gogh a partir de outubro, intitulada "Seu amado Vincent: As Maiores Cartas de Van Gogh".