Casa onde nasceu Irene Lisboa está votada ao abandono
Mais de 100 anos depois de Irene Lisboa ter nascido na Quinta da Murzinheira, no concelho de Arruda dos Vinhos, o espaço, propriedade dos descendentes dos irmãos da poetisa, está agora em total abandono.
Pertencendo há 100 anos à família Vieira Lisboa, a casa onde a escritora nasceu na Quinta da Murzinheira "está em ruínas desde há sete anos quando se tentou comprar", relatou à Lusa o presidente da Junta de Freguesia de Arranhó, Joaquim Luís, referindo que o imóvel permanece "sem portas e janelas" e com as "telhas a cair".
Localizada em A-dos-Arcos, freguesia de Arranhó, a quinta, com uma extensão de 36 hectares, estende-se por terrenos agrícolas onde continua a predominar a vinha, e mantém ainda uma adega "completamente degradada", que noutros tempos era usada como apoio aos trabalhos do campo, também retratados por Lisboa nas suas obras.
Rodeada de pinheiros e eucaliptos, a casa possui um pátio onde cresce "muita vegetação selvagem", em consequência do estado de abandono a que a casa está votada.
Desde há vários anos que a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos tem vindo a estabelecer contactos com a família paterna de Irene Lisboa para comprar o espaço e "fazer ali inicialmente a casa-museu Irene Lisboa", mas "a família nunca se mostrou muito receptiva", revelou à Lusa a vereadora da cultura, Gertrudes Cunha.
Todas as tentativas foram goradas e a autarquia inaugurou, no final de Junho, o Museu Irene Lisboa, em instalações antigas da Junta de Freguesia de Arranhó, reunindo pela primeira vez todo o acervo documental da vida e obra da poetisa. Mas continua a ser "um objectivo adquirir a quinta".
"O irmão de Irene Lisboa morreu há dois anos e estamos a negociar com os vários herdeiros", adiantou a autarca, explicando que a quinta está a ser alvo de partilha entre os descendentes, o que torna difícil a venda do imóvel.
O moroso processo de divisão dos bens foi confirmada à Lusa por familiares da escritora, que se recusaram, no entanto, a prestar declarações.
A Quinta da Murzinheira confina com a Quinta do Monfalim, já no concelho de Sobral de Monte Agraço, também propriedade da família e cujo estado de degradação é igualmente visível.
Há muito deixou de ser um local idílico "de grande beleza", como a poetisa escreve sob o pseudónimo João Falco em "Começa uma vida", perpetuando na memória, um pouco na senda do saudosismo de Teixeira de Pascoaes, "as remotas tardes da quinta" e as "temporadas inigualáveis" que marcaram a sua infância, num registo autobiográfico em que contrapõe esses tempos aos anos em que estudou num colégio interno em Lisboa.
A autora de "13 Cantarelos", a sua primeira obra publicada, nasceu a 25 de Dezembro de 1892 na Quinta da Murzinheira, fruto de uma relação entre Luís Emídio Vieira Lisboa e uma criada, "a rapariga do campo enganada", como escreve em "Começa uma vida".
O pai renegou a sua paternidade, separando para sempre a criança da mãe aos três anos de idade.
Nessa altura, Irene Lisboa passou a residir com a madrinha, Ilda Gouveia, entre a casa da Baixa de Lisboa e a Quinta do Monfalim, propriedade da madrinha.
Só aos seis anos foi baptizada com o nome do pai, não que se vislumbrasse uma aproximação entre ambos, mas porque ia entrar num colégio interno em Lisboa que a isso obrigava.
Registada até então como Irene do Céu ganhou o apelido do pai, Vieira Lisboa, mas ficaria para sempre desligada da família e da terra que a viu nascer. Não só Irene foi espoliada dos seus direitos de filha, mas também a própria madrinha, que deixou de ser dona da Quinta do Monfalim, regressando definitivamente à casa da capital.