Casa onde nasceu Irene Lisboa está votada ao abandono

Casa onde nasceu Irene Lisboa está votada ao abandono

Mais de 100 anos depois de Irene Lisboa ter nascido na Quinta da Murzinheira, no concelho de Arruda dos Vinhos, o espaço, propriedade dos descendentes dos irmãos da poetisa, está agora em total abandono.

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Pertencendo há 100 anos à família Vieira Lisboa, a casa onde a escritora nasceu na Quinta da Murzinheira "está em ruínas desde há sete anos quando se tentou comprar", relatou à Lusa o presidente da Junta de Freguesia de Arranhó, Joaquim Luís, referindo que o imóvel permanece "sem portas e janelas" e com as "telhas a cair".

Localizada em A-dos-Arcos, freguesia de Arranhó, a quinta, com uma extensão de 36 hectares, estende-se por terrenos agrícolas onde continua a predominar a vinha, e mantém ainda uma adega "completamente degradada", que noutros tempos era usada como apoio aos trabalhos do campo, também retratados por Lisboa nas suas obras.

Rodeada de pinheiros e eucaliptos, a casa possui um pátio onde cresce "muita vegetação selvagem", em consequência do estado de abandono a que a casa está votada.

Desde há vários anos que a Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos tem vindo a estabelecer contactos com a família paterna de Irene Lisboa para comprar o espaço e "fazer ali inicialmente a casa-museu Irene Lisboa", mas "a família nunca se mostrou muito receptiva", revelou à Lusa a vereadora da cultura, Gertrudes Cunha.

Todas as tentativas foram goradas e a autarquia inaugurou, no final de Junho, o Museu Irene Lisboa, em instalações antigas da Junta de Freguesia de Arranhó, reunindo pela primeira vez todo o acervo documental da vida e obra da poetisa. Mas continua a ser "um objectivo adquirir a quinta".

"O irmão de Irene Lisboa morreu há dois anos e estamos a negociar com os vários herdeiros", adiantou a autarca, explicando que a quinta está a ser alvo de partilha entre os descendentes, o que torna difícil a venda do imóvel.

O moroso processo de divisão dos bens foi confirmada à Lusa por familiares da escritora, que se recusaram, no entanto, a prestar declarações.

A Quinta da Murzinheira confina com a Quinta do Monfalim, já no concelho de Sobral de Monte Agraço, também propriedade da família e cujo estado de degradação é igualmente visível.

Há muito deixou de ser um local idílico "de grande beleza", como a poetisa escreve sob o pseudónimo João Falco em "Começa uma vida", perpetuando na memória, um pouco na senda do saudosismo de Teixeira de Pascoaes, "as remotas tardes da quinta" e as "temporadas inigualáveis" que marcaram a sua infância, num registo autobiográfico em que contrapõe esses tempos aos anos em que estudou num colégio interno em Lisboa.

A autora de "13 Cantarelos", a sua primeira obra publicada, nasceu a 25 de Dezembro de 1892 na Quinta da Murzinheira, fruto de uma relação entre Luís Emídio Vieira Lisboa e uma criada, "a rapariga do campo enganada", como escreve em "Começa uma vida".

O pai renegou a sua paternidade, separando para sempre a criança da mãe aos três anos de idade.

Nessa altura, Irene Lisboa passou a residir com a madrinha, Ilda Gouveia, entre a casa da Baixa de Lisboa e a Quinta do Monfalim, propriedade da madrinha.

Só aos seis anos foi baptizada com o nome do pai, não que se vislumbrasse uma aproximação entre ambos, mas porque ia entrar num colégio interno em Lisboa que a isso obrigava.

Registada até então como Irene do Céu ganhou o apelido do pai, Vieira Lisboa, mas ficaria para sempre desligada da família e da terra que a viu nascer. Não só Irene foi espoliada dos seus direitos de filha, mas também a própria madrinha, que deixou de ser dona da Quinta do Monfalim, regressando definitivamente à casa da capital.

PUB