CD faz a "biografia da guitarra" como acompanhante e solista
Um CD dedicado à guitarra portuguesa, lançado esta semana, procura explorar as particularidades deste instrumento enquanto solista e acompanhante, nomeadamente no fado, disse hoje à Lusa o coordenador da edição, José Pracana.
O CD, intitulado "Biografia da guitarra", é dedicado à guitarra de Lisboa - por oposição à de Coimbra - e inclui, entre outros, um registo do guitarrista Armandinho, que segundo José Pracana, "foi o pai de todos os guitarristas e tem sempre um lugar de destaque".
Armandinho interpreta um fado de sua autoria, gravado em 1920, sendo o mais antigo registo desta antologia.
Para Pracana, que também toca guitarra e canta fado, Armandinho "criou uma escola onde se inscrevem Raul Nery, Carvalhinho, Jaime Santos, José Nunes e Fontes Rocha".
Segundo o músico, polémicas à parte quanto às origens da guitarra portuguesa, "é inquestionável a sua ligação ao fado, apesar de não se saber quando, em concreto, guitarra e viola se juntaram para acompanhar um fadista. Supõe-se que por volta finais do século XIX".
Neste sentido, o álbum procura demonstrar "como é diferente a guitarra como instrumento a solo e como acompanhante, onde o fadista tem os seus tempos".
Surgem assim peças de guitarra a solo, "Rapsódia em folclore" (Alcino Frazão) por exemplo, e fados onde a guitarra acompanha a voz.
Exemplo concreto é o tema "Guitarra triste" que surge em duas gravações distintas.
Numa delas, de 1960, Domingos Camarinha acompanha Amália Rodrigues, enquanto na outra o mesmo guitarrista interpreta a solo o tema, só com a viola de Santos Moreira, que também o acompanha na gravação com Amália.
Entre os solos surgem as participações de Ricardo Rocha, com "Iniciação", António Chaínho, com "Variações em Mi Menor" ou José Nunes, em "Retalhos do passado", entre outros.
Em declarações à agência da Lusa, José Pracana realçou que vários foram os guitarristas que, pela sua forma peculiar de tocar, fizeram escola, começando em Armandinho, mas também Fontes Rocha já na década de 1960.
Este músico "foi o responsável pela introdução da guitarra de Coimbra no fado de Lisboa", disse.
Segundo Pracana, a guitarra de Coimbra "é uma invenção do guitarrista Artur Paredes e do construtor de guitarras João Pedro Grácio, tem uma escala mais larga e a afinação coimbrã é uma nota abaixo da afinação de Lisboa".
Todavia, prosseguiu o músico, Fontes Rocha "introduziu a guitarra de Coimbra quando acompanhava Amália no período dos fados de Alain Oulman, como "Gaivota" ou "Dura Memória", de onde tirava maior partido".
Em termos de audição "a diferença que ressalta logo, é que a guitarra de Coimbra não produz aquele gemidinho tão característico da de Lisboa".
"Tocar o fado Mouraria com uma guitarra de Coimbra é tirar-lhe a alma", rematou.
Além de Amália, este CD, editado pela EMI Music Portugal, regista outros diálogos entre a guitarra e a voz, nomeadamente José Nunes/Vicente da Câmara, Raul Nery/Maria Teresa de Noronha, António Chaínho/Lucília do Carmo, ou Custódio Castelo/Camané.
Segundo a editora está prevista uma edição dedicada à guitarra de Coimbra, não tendo sido adiantada a data.