Cem anos depois da morte do Rei D. Carlos, refaz-se o percurso dos acontecimentos
Lisboa, 26 Jan (Lusa) - Quem todos os dias passa pela Casa do Alentejo, Café Gelo ou espingardaria Casa Montez, em Lisboa, nem se apercebe que foi aí que há cem anos se compraram e esconderam armas e se planeou o regicídio de 1908.
Cerca de 40 pessoas fizeram hoje um percurso pela baixa da cidade para reviver, numa espécie de "viagem no tempo", os acontecimentos do dia em que o Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, foram assassinados, a 01 de Fevereiro de 1908.
O roteiro, promovido pela editora Zéfiro, foi conduzido pelo jornalista e investigador Jorge Morais, que editou recentemente o livro "Regicídio - a contagem decrescente".
O percurso foi repartido por onze curtas etapas em locais que ficam na história por estarem ligados ao regicídio, desde a espingardaria onde foram compradas as armas que mataram o Rei até ao café onde os conjurados conspiraram o regicídio.
O edifício que alberga hoje a Casa do Alentejo, perto do Coliseu dos Recreios, era o Palácio Alverca e serviu como armazém para esconder as armas que um grupo de 18 conjurados iria usar tanto no golpe falhado de 28 de Janeiro como no regicídio.
Foi no Café Gelo, onde hoje estão expostas imagens do regicídio e do Rei D. Carlos, que dois dos autores do atentado, Manuel Buíça e Alfredo Costa, se encontraram na véspera e no próprio dia dos atentados.
"Este era o café da revolução, o centro revolucionário do início do século XX onde se encontravam carbonários [do movimento Carbonária] e adeptos pelo derrube da monarquia", afirmou Jorge Morais.
No largo do Rossio, onde hoje lisboetas se cruzam com turistas, há cem anos era um "local insuspeito onde vários grupos de carbonários se encontravam".
Passando o Arco da Bandeira e seguindo a Rua dos Sapateiros, chega-se ao Largo da Boa Hora, de onde se vê o edifício onde o escritor Aquilino Ribeiro esteve escondido, depois de se ter sido implicado numa explosão com bombas.
Jorge Morais defende a tese que o escritor, apesar de carbonário, não participou no regicídio, nem tão pouco estava no Terreiro do Paço no momento em que se deram os acontecimentos.
"Não é plausível que estivesse implicado numa brigada e embora não tivesse estado directamente envolvido no regicídio, pertencia ao grupo do Buíça e do Costa", disse o investigador.
Em direcção ao rio Tejo, passa-se pelo antigo Elevador da Biblioteca, no Largo São Julião, onde foram presos vários conspiradores do golpe de 28 de Janeiro, avistando-se já a sede da câmara municipal e quase toda a fachada do Arsenal, onde se confirmaram as mortes do rei e do seu filho.
Depois de mortalmente alvejados uns metros antes, no Terreiro do Paço, foi no Arsenal que D. Carlos e o filho primogénito deram entrada, conduzidos na carruagem onde seguiam ainda a rainha D. Amélia e o infante D. Manuel.
D. Carlos foi aí declarado morto e D. Luís Filipe terá falecido na antiga Sala dos Curativos, podendo dizer-se, citando Jorge Morais, que o príncipe herdeiro foi rei de Portugal por breves minutos.
A entrada no Arsenal seria o ponto final de um plano de ataque ao rei que foi executado minutos antes, no Terreiro do Paço, quase na esquina com a Rua do Arsenal, quando a família real tinha acabo de chegar de umas férias em Vila Viçosa.
Era um dia de Inverno, sábado à tarde, com poucas pessoas a passearem naquele largo e sem o movimento do trânsito dos dias de hoje.
O cortejo real incluía várias carruagens, encabeçadas pela família real, e na qual se destaca o FIAT de D. Afonso, o "Arreda", irmão de D. Carlos e fervoroso adepto dos automóveis, descreveu Jorge Morais.
Momentos depois das carruagens iniciarem o percurso, "Buíça coloca um joelho em terra, tira a carabina de dentro do capote e atinge o rei na base do pescoço, tendo tido morte imediata", diz o investigador.
Buíça, "o mestre do tiro", estava no Terreiro o Paço, enquanto Alfredo Costa estava debaixo das arcadas, tendo disparado também contra o rei.
O regicídio, que vem descrito nos manuais de História, foi "uma questão de segundos" e causou grande confusão, com várias trocas de tiros, com disparos do príncipe Luís Filipe, que estava armado, com D. Amélia a arremessar um ramo de flores e com os dois regicidas a serem mortos de imediato no local pela guarda municipal.
Ao que se sabe, este fatídico acontecimento de há cem anos está apenas retratado em gravuras e ilustrações, porque os fotógrafos, depois de terem registado o desembarque da família real, estavam já a caminho do Palácio das Necessidades, onde o cortejo era esperado.
Naquele local onde tudo aconteceu restam hoje uma placa evocativa e marcas de balas na 13/a coluna de uma das alas do Terreiro do Paço.
SS.