Cine-Teatro Scala procura apoios para chegar ao centenário como referência cultural de Maputo
O Cine-Teatro Scala, o primeiro a dar voz ao cinema em Moçambique e dos últimos ainda em atividade em Maputo, resiste e procura apoios para uma reabilitação que permita festejar o centenário, em 2031, ainda como referência cultural.
"É um marco histórico porque o Scala em si é um património, e já é considerado património da cidade do Maputo. É um sítio histórico como vocês podem ver. É um dos cinemas resistentes que ficou e continua a praticar atividades culturais como cinema, teatro, dança", explicou à Lusa a presidente da associação que gere cine-teatro, Marieta Manjate.
Construído em 1931 na baixa de Maputo, e ainda hoje mantendo a traça original de estilo `Art Déco`, a sala foi a primeira exibir filmes sonoros em Moçambique.
O Scala foi a primeira sala de cinema audiovisual em Moçambique e ainda hoje é considerado um dos marcos do património arquitetónico e cultural moçambicano. Com capacidade para cerca de 1.000 espetadores, o edifício continua a acolher sessões de cinema, teatro, dança, festivais e outras iniciativas artísticas, apesar dos desafios associados à conservação de uma infraestrutura com quase um século de existência.
A presidente da Associação Cultural Scala, entidade responsável pela gestão do espaço desde 2015, considerou que a sobrevivência do edifício representa também a preservação de uma parte importante da memória cultural da capital moçambicana.
Segundo Marieta Manjate, também produtora de cinema, o Scala ultrapassa ainda hoje a função tradicional de sala de espetáculos, desenvolvendo igualmente atividades ligadas à pesquisa, preservação da memória coletiva e valorização do património cultural.
"O Scala não é só a parte da cultura como sala, mas também temos pesquisas de história oral e somos apologistas de gestão no património de espaços públicos e privados. Então, o caminho de 100 anos para nós é gratificante", diz.
Além das exibições regulares de cinema moçambicano através do projeto "Cine das Quintas", realizado quinzenalmente, o espaço acolhe mostras internacionais, festivais de cinema, espetáculos de dança, teatro e outras iniciativas culturais. Recentemente, o Scala recebeu uma mostra dedicada à memória e identidade que reuniu produções de Moçambique, Angola, Brasil, Cabo Verde, Cuba, Portugal e Argentina.
Marieta Manjate explicou que a gestão procura recuperar gradualmente o hábito de frequentar salas de cinema, particularmente entre os jovens, numa altura em que o consumo audiovisual ocorre cada vez mais através de dispositivos digitais.
"Os nossos jovens perderam o hábito de ir ao cinema", lamenta, ao mesmo tempo que recorda que naquela sala já se viu quase tudo, mas o papel sempre foi "socializar": "Como eu dizia, conectar, e ser um sítio de ver o filme e pensar, ver o filme e aprender, no espaço próprio para isso, estamos a voltar a cultivar".
Apesar da redução da frequência regular das salas de cinema nos últimos anos, a responsável assinala sinais de recuperação do público. Segundo dados da associação, as sessões habituais quinzenais recebem entre 100 e 150 espectadores por exibição, enquanto eventos especiais têm conseguido aproximar-se da lotação máxima do recinto.
"Nessa mostra de cinema que fizemos durante uma semana [em maio], tivemos entre 150 e 200 pessoas", explica, sem esconder o entusiasmo de numa das sessões a sala ter até esgotado, como no passado.
"Sala toda cheia, aqui por baixo da plateia e no balcão. Isso para nos foi uma alegria e tanto (...), estamos a trabalhar nisso e acho que estamos a ir num caminho certo, porque as coisas estão a voltar devagar", reconhece.
Marieta Manjate rejeitou ainda a ideia de que o Scala tenha deixado de exibir cinema comercial, explicando que as mostras internacionais realizadas recentemente resultaram de parcerias com Embaixada de Itália e outras instituições culturais.
"O Cine das Quintas é cinema comercial. Nós cobramos bilhetes e, para os estudantes, praticamos preços bonificados para incentivar a participação. Queremos que as pessoas valorizem o cinema e o trabalho que está por trás destas produções, mesmo pagando um valor simbólico", refere a gestora, reconhecendo que outro tipo de conteúdo internacional implica pagar direitos de autor, que não estão ao alcance.
A poucos anos do centenário, a principal preocupação da gestão centra-se na necessidade de reabilitar o edifício. O piso, as cadeiras originais, o sistema de iluminação, o equipamento sonoro, a tela de projeção e outros componentes da infraestrutura necessitam de intervenção para garantir melhores condições de funcionamento.
"O edifício precisa de uma reabilitação. O edifício precisa de uma reforma. Dinheiro que é bom, nós não temos, mas vamos pedindo apoio. Agora temos um pequeno apoio do Instituto Nacional das Indústrias Criativas para apetrechar um bocado. Não é muito dinheiro, mas vai fazer alguma diferença", afirma Marieta Manjate.
A associação conta com o apoio de algumas embaixadas e instituições culturais, mas reconheceu que os recursos disponíveis continuam insuficientes para responder às necessidades de conservação de um edifício daquela dimensão.
Sem avançar um orçamento definitivo para as obras, Marieta Manjate admitiu que serão necessários investimentos significativos para modernizar o espaço sem comprometer as suas características históricas, incluindo a preservação das cadeiras originais e dos elementos arquitetónicos que distinguem o Scala.
A celebração dos 100 anos surge, por isso, como uma oportunidade para revitalizar o espaço, reforçar a programação cultural e atrair novos públicos.
"Nós iremos comemorar os 100 anos do Scala (...) e eu acredito que iremos conseguir apoio até lá para podermos colocar o Scala nos 100 anos que merece, com atividades condignas", afirma.
Para a presidente da Associação Cultural Scala, a continuidade do espaço representa mais do que a sobrevivência de uma sala de espetáculos: simboliza a preservação de um património histórico que continua a desempenhar um papel relevante na vida cultural de Maputo e de Moçambique.