Cinemateca assinala centenário do cineasta Manuel Guimarães com integral da obra

Lisboa, 06 jun (Lusa) - A Cinemateca Portuguesa vai homenagear Manuel Guimarães, a partir de segunda-feira, com uma retrospetiva integral da sua obra, em colaboração com o Museu do Neo-Realismo, no centenário do nascimento do cineasta, anunciou o Museu do Cinema.

Lusa /

O ciclo "Rever Manuel Guimarães" vai permitir a reconstrução do percurso do cineasta, que se destacou pela aplicação dos princípios ideológicos do neorrealismo à sétima arte, nomeadamente a denúncia das desigualdades sociais, patente em filmes como "Nazaré", com argumento de Alves Redol, "Vidas sem rumo" ou "O Crime de Aldeia Velha".

A sessão de abertura está marcada para segunda-feira, às 21:30, com a exibição de "Saltimbancos", primeira longa-metragem de Manuel Guimarães, filme "que marcou a diferença no cinema português do começo da década de 1950, relativamente às comédias `à portuguesa` que então se faziam, procurando aproximar-se dos modelos do neorrealismo italiano", realça o comunicado da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.

Manuel Guimarães é "um dos mais incompreendidos e mais injustamente desconhecidos realizadores portugueses, cuja obra é urgente rever e redescobrir", lembra a Cinemateca, sobre o realizador que surge nos anos de 1950, antes da emergência do Cinema Novo da década de 1960.

Nascido na região de Albergaria-a-Velha, em 1915, Manuel Guimarães iniciou a carreira no cinema, integrado nas equipas de Manoel de Oliveira, Brum do Canto ou Arthur Duarte, depois do curso de Pintura da Escola de Belas Artes do Porto.

Realizou o primeiro filme em 1949, a curta-metragem "O Desterrado", sobre o escultor Soares dos Reis. Seguir-se-ia "Saltimbancos", de 1951, que adaptava o romance de Leão Penedo.

Acentuou a crítica social em "Nazaré", sobre o dia-a-dia dos pescadores, e em "Vidas sem rumo", centrado nas comunidades mais pobres de Lisboa, obras que o transformaram em alvo da censura e da ditadura do Estado Novo.

Para sobreviver, passou a dirigir filmes comerciais e reportagens de acontecimentos desportivos. Foi nesse contexto que surgiu "A costureirinha da Sé", em 1958.

Na década de 1960, dirigiu "O Crime da Aldeia Velha", em 1964, sobre a peça homónima de Bernardo Santareno, e "O trigo e o Joio", em 1965, a partir do romance de Fernando Namora.

O documentário, porém, dominava a sua atividade regular: produções de arte para a RTP e filmes sobre temas como os tapetes de Viana do Castelo, o ensino das Belas Artes, o escritor Fernando Namora, o escultor António Duarte, os pintores Dórdio Gomes e Júlio Resende, ou "Areia Mar -- Mar Areia", já da década de 1970.

"Tráfego e estiva (1968), curta-metragem sobre Lisboa ribeirinha, com música de Carlos Paredes e narração de Luís Filipe Costa, foi o primeiro filme português rodado em 70 milímetros.

Em 1972, Guimarães ensaiaria a comédia em "Lotação esgotada". Mas foi com "Cântico final" (1975), a partir do romance de Vergílio Ferreira, que Guimarães fez ressoar, na vida do protagonista, os seus últimos anos de vida, como destaca a Cinemateca, na apresentação da obra.

"Tocante reflexão biográfica", escreve a Cinemateca, "`Cântico final` é a súmula perfeita de uma vida norteada por um sentido ético inflexível e uma obra desalinhada dos padrões críticos da sua época, mutilada pela censura e menosprezada pela história do cinema, mas sempre caracterizada por uma grande dignidade artística".

Manuel Guimarães morreu em janeiro de 1975, aos 59 anos. A montagem de "Cântico final" foi concluída por seu filho, Dórdio Guimarães.

O ciclo "Rever Manuel Guimarães" vai decorrer até ao próximo dia 30, na sala Luís de Pina, da Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.

A retrospetiva antecede a exposição "Manuel Guimarães, sonhador indómito", com curadoria de Leonor Areal, a inaugurar a 18 de outubro, no Museu do Neo-realismo, em Vila Franca de Xira, onde ficará patente até 28 de fevereiro de 2016.

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