Cultura
Coreia do Sul em Avinhão: Muito para lá da cultura pop
A Coreia do Sul é o país convidado da edição 80 do festival de Avinhão, em França. Há 28 anos que nenhum artista sul-coreano pisava estes palcos espalhados por ruas, parques, igrejas e claustros ancestrais.
Nove peças da Coreia do Sul revelam-se para lá do K-pop e das séries de televisão. “Muljil”, a mais surpreendente criação em Avinhão, mergulha o público na vulnerabilidade humana.
Há público sentado no palco, a poucos centímetros dos tanques de água onde os atores se movem e interpretam. Jinyeob Lee pensou nesta proximidade porque “a água é um reflexo”. Os espectadores ficam frente a frente para que se tornem, eles próprios, parte do reflexo criado pela água e para “que nos confrontássemos uns aos outros. Assim, esta água reflete uns e outros na nossa sociedade. Esta performance está ligada a nós”, reafirma a encenadora.
Ao longo de uma hora de espetáculo há um silêncio profundo de toda a audiência, aquela sentada no palco como a que está no auditório dos Claustros do século XIII, ao lado da Igreja Conventual de Carmes, no centro da cidade dos Papas.
O silêncio do espaço de arte ao ar livre é quebrado por vozes dos atores, em coreano e em inglês. Previamente gravadas, as frases que ecoam na noite misturam-se com o mistral, o vento forte e quente. O texto torna-se o pensamento mais íntimo dos atores em palco, submersos em água.Uma reflexão sobre o papel da mulher
Uma das atrizes sul-coreanas interpreta uma mulher grávida. A criadora explica que a escolha não foi pensada como símbolo da maternidade, mas como forma de retratar os múltiplos papéis atribuídos às mulheres na sociedade sul-coreana: “A mulher desempenha vários papéis: o de mãe, o de nora e o de esposa. Têm tantos papéis, mas nenhum deles é valorizado pela sociedade”. Um desafio físico para os atores
A performance exige longos períodos de permanência dentro e debaixo de água. A encenadora admite que a dimensão física do espetáculo surpreendeu os próprios intérpretes. “ Quando comecei com a ideia percebi, depois de uma performance completa, que é um trabalho árduo. Os atores não imaginavam o quão difícil pode ser na água. Nós tentámos. Não temos grandes dúvidas sobre a forma como passaram por momentos difíceis. Sempre que apresentamos o público pergunta como é? São atores realmente especiais para isso? Mas não são. Na verdade, eles bebem muita água pelo nariz e dói-lhes muito e eles não imaginavam, mas estão a fazê-lo sem problemas”.
No palco, quatro tanques, longos e estreitos, repletos de água. Dentro de cada um está um ator. Os corpos estão suspensos. Rostos emergem por breves instantes para respirar antes de voltarem ao silêncio.
Em "Muljil", de JINYEOB LEE, a água deixa de ser apenas um elemento cénico para se transformar na linguagem de uma sociedade marcada pela solidão e pela fragilidade humana. “Percebi que isso simboliza a sociedade coreana. Temos imensos apartamentos e edifícios altos e, por isso, ficamos mais isolados”, explica à RTP a encenadora sul-coreana, acrescentando que o espetáculo nasceu da imagem de um depósito de água, inspirado na vida urbana da Coreia do Sul. Os intérpretes movem-se num espaço onde a água representa a escolha permanente entre resistir e desistir.
Há público sentado no palco, a poucos centímetros dos tanques de água onde os atores se movem e interpretam. Jinyeob Lee pensou nesta proximidade porque “a água é um reflexo”. Os espectadores ficam frente a frente para que se tornem, eles próprios, parte do reflexo criado pela água e para “que nos confrontássemos uns aos outros. Assim, esta água reflete uns e outros na nossa sociedade. Esta performance está ligada a nós”, reafirma a encenadora.
Ao longo de uma hora de espetáculo há um silêncio profundo de toda a audiência, aquela sentada no palco como a que está no auditório dos Claustros do século XIII, ao lado da Igreja Conventual de Carmes, no centro da cidade dos Papas.
O silêncio do espaço de arte ao ar livre é quebrado por vozes dos atores, em coreano e em inglês. Previamente gravadas, as frases que ecoam na noite misturam-se com o mistral, o vento forte e quente. O texto torna-se o pensamento mais íntimo dos atores em palco, submersos em água.Uma reflexão sobre o papel da mulher
Uma das atrizes sul-coreanas interpreta uma mulher grávida. A criadora explica que a escolha não foi pensada como símbolo da maternidade, mas como forma de retratar os múltiplos papéis atribuídos às mulheres na sociedade sul-coreana: “A mulher desempenha vários papéis: o de mãe, o de nora e o de esposa. Têm tantos papéis, mas nenhum deles é valorizado pela sociedade”. Um desafio físico para os atores
A performance exige longos períodos de permanência dentro e debaixo de água. A encenadora admite que a dimensão física do espetáculo surpreendeu os próprios intérpretes. “ Quando comecei com a ideia percebi, depois de uma performance completa, que é um trabalho árduo. Os atores não imaginavam o quão difícil pode ser na água. Nós tentámos. Não temos grandes dúvidas sobre a forma como passaram por momentos difíceis. Sempre que apresentamos o público pergunta como é? São atores realmente especiais para isso? Mas não são. Na verdade, eles bebem muita água pelo nariz e dói-lhes muito e eles não imaginavam, mas estão a fazê-lo sem problemas”.
Quatro pessoas do público são convidadas a participar na performance. São chamadas a entrar no tanque de água, juntar-se aos atores e atrizes já submersos. Passam a ser dois corpos, num espaço de vidro, exíguo. Os espetadores disseram presente sem resistência.
Nesta conversa com a RTP, a encenadora sul-coreana explica esta opção de união entre artistas e público: “Os atores são responsáveis por criar esta ligação entre os membros da comunidade e o público, para que estes se possam olhar e, no final da apresentação, enfrentar todos estes desafios. E depois emocionam-se mais porque o público se identifica com eles e os desafia. Assim, desenvolvemos a ligação e, finalmente, o público pode sentir-se realmente ligado”.
Muito para lá da cultura K-pop
Num festival onde convivem centenas de companhias de todo o mundo, a Coreia do Sul mostra-se por uma via diferente daquela que a tornou conhecida internacionalmente. Nas ruas de Avinhão não são os fãs de K-pop que marcam presença, mas um público interessado em descobrir outras expressões da cultura sul-coreana através do teatro contemporâneo.
A autora de "Muljil", JINYEOB LEE, reconhece que a música e as séries televisivas ajudaram a dar notoriedade internacional ao seu país, mas acredita que foi esse fenómeno que abriu caminho a estas outras formas de criação artística. “Acho que é também uma boa oportunidade para que outras pessoas se interessem mais pela arte”, admite a encenadora.
Há 28 anos que não havia em Avinhão nenhuma demostração artística. Este ano há nove peças e bailados. Como demonstração, Lee conta também que há muitos anos, mais de uma década, estudou em Inglaterra. Nesse tempo, os colegas de universidade mostravam que “a Coreia do Norte era mais conhecida do que a Coreia do Sul”.
Este ano, no maior festival de Teatro do Mundo os espetadores que enchem os velhos claustros são de todas as idades. No final, há uma unanimidade em relação a “Muljil”: é um convite à contemplação. Uma obra que substitui o espetáculo da cultura pop por uma experiência sensorial e emocional, onde a água espelha não apenas a sociedade coreana, mas também as inquietações universais de quem a observa.