EM DIRETO
Guerra no Médio Oriente. Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito

Coreógrafa Diana Niepce estreia "Hornfuckers" como manifesto de resistência

Coreógrafa Diana Niepce estreia "Hornfuckers" como manifesto de resistência

A coreógrafa e bailarina Diana Niepce vai estrear na quinta-feira, na Culturgest, em Lisboa, uma nova criação intitulada "Hornfuckers", peça assumida como um manifesto sobre sistemas opressivos, a perversidade quotidiana e a necessidade humana de resistência.

Lusa /

O espetáculo, que reúne sete intérpretes no palco da Culturgest, entre quinta-feira e sábado, cruzando dança, performance e circo, segue depois para o Rivoli - Teatro Municipal do Porto, onde será apresentado em 13 e 14 de abril.

"`Hornfuckers` funciona como um manifesto estético, uma palavra-choque desenhada para tirar o espectador da sua zona de conforto", afirmou a coreógrafa em entrevista à agência Lusa sobre a estreia absoluta, em Lisboa, explicando que o título resulta da reapropriação de um termo em inglês ofensivo para expor "a perversidade que está presente na identidade humana quando pactua com sistemas opressivos que sabemos eticamente errados".

Na peça, "todos ocupam o mesmo lugar e escolhem ignorar o que não deveria ser ignorado", descreveu, numa leitura crítica das normas sociais e das estruturas de poder que regulam o comportamento coletivo, manifestando-se praticamente em todos os aspetos da vida.

A nova criação de Diana Niepce -- autora de obras como "Raw a nude" (2019), "12 979 Dias" (2019) e "Dueto" (2020) - parte de uma reflexão sobre o corpo enquanto espaço político, onde coexistem submissão e revolta, num cenário que desafia a gravidade e impõe aos intérpretes um confronto constante com os limites físicos e mentais.

"A minha prática tem investigado estes limites do corpo e da mente, e também os sistemas opressivos que são muitas vezes gatilhos emocionais", disse, sublinhando que o movimento desta coreografia responde a normas que, nesta peça, "são deliberadamente quebradas".

Recorrendo a imagens próximas da escultura e do imaginário coletivo, a coreógrafa e bailarina constrói um universo alternativo: "Aqui a experiência humana tem uma série de regras que estão a ser desobedecidas", num equilíbrio criado para provocar sentimentos tanto de opressão como de transcendência no público.

"A dança não representa aqui uma celebração, é mais um estado de revolução, manifesto e pensamento em torno das coisas", sintetizou a autora de "O Outro Lado da Dança", onde aborda a invisibilidade da deficiência na história da arte.

O espetáculo assume-se como "uma paisagem de opostos", entre ordem e caos, lirismo e violência, num "delírio" que expõe a brutalização da experiência humana e questiona a forma como os corpos operam em sociedade, frequentemente "numa lógica altamente submissa", considera a bailarina e performer que já colaborou com o Bal-Moderne - Companhia Rosas, La fura del baus, May Joseph, Sofia Varino, Jérôme Bel, Ana Borralho e João Galante, entre outros criadores.

Para Diana Niepce, estas dinâmicas estão presentes em múltiplas dimensões do quotidiano, mesmo quando passam despercebidas, desde a organização urbana às relações de poder invisíveis que moldam o comportamento coletivo.

"Estas relações de controlo de massas estão sempre presentes, mesmo quando não nos apercebemos delas", afirmou, apontando ainda o impacto contemporâneo de "sistemas problemáticos com algoritmos, inteligência artificial e `fake news`, que propagam práticas discriminatórias com uma lógica capitalista perversa".

Criada ao longo de dois anos, a peça foi sendo reformulada em função das mudanças do contexto global, que a coreógrafa considera hoje mais regressivo: "Não estava a prever que estivéssemos a dar tantos passos atrás", disse, alertando que o meio artístico "se ressente desse contexto, uma vez que os artistas trabalham diretamente sobre questões identitárias e existenciais".

A dimensão política da criação no percurso criativo de Diana Niepce cruza-se com a experiência pessoal de resistência, num percurso marcado pela reformulação da relação com o corpo após um acidente, em 2014, que resultou numa lesão medular e implicou a necessidade de usar cadeira de rodas.

Desde então, o seu trabalho tem explorado corpos não normativos e também tem desafiado os padrões tradicionais da dança, como em "Anda, Diana" - distinguida com um prémio da Sociedade Portuguesa de Autores em 2021 - reforçando uma prática que alia criação artística e ativismo.

"O ativismo habita muitas vezes num lugar de exaustão severo, porque o sistema é complexo e muito eficaz a silenciar", afirmou, acrescentando que "os grandes líderes mundiais não têm interesse em promover melhores condições de vida" para os cidadãos.

Apesar da dureza dos temas abordados, a coreógrafa identifica na peça uma dimensão utópica.

"Quero acreditar que é um manifesto de resistência para encontrar lugares obsoletos e eticamente deploráveis no mundo e repensá-los", afirmou, acrescentando que, no meio de um contexto adverso, a criação artística pode ainda abrir espaço para outras possibilidades.

Com a sua maior produção até à data, envolvendo um elevado investimento humano e material e uma equipa diversa, incluindo comunidades neurodivergentes e pessoas com deficiência sensorial, "Hornfuckers" amplia o campo de ação da coreógrafa, cruzando prática artística e intervenção social.

"As minhas peças refletem o mundo no corpo e os corpos no mundo", concluiu, sobre a essência do seu trabalho.

Com direção artística de Diana Niepce, "Hornfuckers" conta com os intérpretes Ana de Oliveira e Silva, Baxi Ostrowski, Daniel Seabra, Inês Cóias, Izabel Nejur, Margarida Montenÿ e Marta Cardoso, cenografia de Eric da Costa, música de Gonçalo Alegria e desenho de luz de Leticia Skrycky.

Tópicos
PUB