Crioulidade defendida em Cabo Verde como exemplo de valorização da diversidade
Dirigentes políticos e associativos defenderam, hoje, na capital cabo-verdiana, a "crioulidade" como exemplo de valorização da diversidade e resposta à polarização global, num apelo ao reforço do diálogo entre povos e da convivência entre culturas.
"Valorizar o património de um povo é a afirmação do nosso humanismo, do que somos, de como nos lemos e escrevemos no mundo e de como o partilhamos. As entidades mais ricas resultam sempre de fusões, de saberes e de trocas", afirmou o Presidente de Portugal, António José Seguro, numa mensagem em vídeo enviada para a abertura do Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica, na cidade da Praia.
Também em mensagem de vídeo, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considerou que a cultura crioula conta a história da humanidade, marcada por viagens, memórias e encontros entre povos, sublinhando a criatividade que emerge desses contactos.
"O crioulo é a prova viva de que a identidade não se reduz com a troca, pelo contrário, enriquece-se com ela. Num mundo muitas vezes dividido pelo medo e pela desconfiança, este encontro internacional sobre a crioulidade brilha como um espaço de encontro, dignidade e pertença", afirmou, acrescentando que a diversidade deve ser vista como uma oportunidade para reforçar a humanidade comum.
O subsecretário-geral das Nações Unidas, Miguel Ángel Moratinos, esteve presente na cerimónia e afirmou que, num mundo em que a diversidade é por vezes percecionada como ameaça, a crioulidade demonstra que essa diversidade "é uma fonte de força e inovação".
Defendeu que as sociedades crioulas resultam de processos históricos de encontros, trocas e adversidades, sublinhando a necessidade de reconhecer contributos de povos historicamente marginalizados e de promover uma leitura mais inclusiva da história do Atlântico.
Além disso, alertou para o impacto da polarização, da desconfiança e da intolerância nas sociedades contemporâneas, sublinhando que o combate ao racismo e à discriminação são imperativos não apenas morais, mas também de direitos humanos universais.
O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, que promove o encontro, alertou para um mundo "caótico", marcado por guerras, extremismos e fragilidade do multilateralismo, defendendo a crioulidade como via para reforçar o diálogo e a convivência entre povos.
Enquanto líder da União Africana para a Preservação do Património Natural e Cultural e patrono da Década do Oceano das Nações Unidas, sublinhou que a humanidade vive um tempo de "angústia e incerteza", apontando conflitos geopolíticos, crises climáticas e sanitárias e o desrespeito pelo direito internacional.
O chefe de Estado defendeu que as sociedades crioulas são exemplo de resiliência e transformação, por terem convertido adversidades históricas em novas formas de criação cultural e pertença coletiva.
Considerou ainda que o encontro deve ser mais do que um momento académico, assumindo-se como um "reencontro de iguais" entre povos, culturas e diásporas ligadas pelo espaço atlântico.
O Encontro Internacional sobre a Crioulidade Atlântica decorre durante três dias na Universidade de Cabo Verde, reunindo especialistas de vários países num espaço de reflexão para construção da modernidade atlântica e de sociedades mais resilientes e diversas.
O programa inclui debates, intervenções de governantes de países lusófonos e de outras nações crioulas, bem como representantes de organizações internacionais, além de visitas culturais à Cidade Velha, berço da nação.
O encontro decorre sob o lema "edificar pontes, construir um futuro melhor", defendendo que o Atlântico não separa, mas une, através da construção de pontes entre povos e culturas.