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Cultura é mercadoria que está à venda - Slavoj Zizek

Cultura é mercadoria que está à venda - Slavoj Zizek

Lisboa, 04 Jul (Lusa) - A cultura é uma mercadoria que está à venda, defendeu hoje o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek, advogando a necessidade de "uma revolução cultural" protagonizada pela esquerda para travar o radicalismo do "capitalismo cultural".

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Slavoj Zizek falava sobre "Esquerda, Cultura e Pensamento Crítico, Hoje", no âmbito do programa "1001 Culturas - Esquerda e Cultura: o futuro já não é o que era", organizado pelo Bloco de Esquerda na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa.

"O capitalismo está a desenvolver-se cada vez mais numa direcção a que alguns chamam `capitalismo cultural` e não é só pelo facto de se assistir ao fenómeno de `marketização` da cultura", sustentou o filósofo.

"Devemos também concentrar-nos no outro lado do mesmo fenómeno: não só a aplicação da lógica consumista à cultura mas a culturalização dos próprios bens de consumo, não só no sentido de produtos culturais, como o cinema e a cultura popular mas num sentido mais lato, de coisas que associamos à cultura, como o sentido da vida, a filosofia... tudo isto está a tornar-se uma mercadoria para vender", frisou.

Na sua opinião, o mais perigoso do actual capitalismo cultural é que "mesmo os próprios bens de consumo são cada vez mais vendidos não apenas como bens de consumo ou símbolos de `status` mas como coisas para nos fazerem sentir bem culturalmente".

Apontando como "as duas nossas maiores preocupações sociais a ecologia e a compaixão com os pobres", exemplificou com a cadeia norte-americana Starbucks, que anuncia que os seus copos de café são recicláveis, revelando preocupações ambientais, e promove campanhas segundo as quais cinco por cento do valor pago pelo café será canalizado para educar os pobres da Guatemala, etc..

Para Zizek, a política e a cultura estão para sempre ligadas, "simplesmente para se poder imaginar o futuro".

E enquanto há 30 anos se debatia como seria o futuro, "capitalismo liberal, socialismo, comunismo, nova ordem autoritária... mas se aceitava que a vida na Terra continuaria, hoje debatemos catástrofes radicais, como: irá um asteróide embater na Terra? Haverá aquecimento global? Toda a vida na Terra acabará?" - prosseguiu.

"Ou seja, conseguimos imaginar o fim de qualquer forma de vida na Terra mas não conseguimos imaginar - ninguém fala sequer nisso - uma mudança radical do capitalismo e da função do Estado. Como se, mesmo que todos morressemos, o capitalismo, de alguma forma, continuasse", observou.

O filósofo considera que actualmente, "pelo menos nos países desenvolvidos do Ocidente, o maior tema da esquerda actual parece ser a Cultura, em sentido lato".

"Como se, de alguma forma - insistiu - o capitalismo esteja cá para ficar e então já ninguém se importe com isso mas sim com a tolerância de outras culturas, o direito ao aborto, os direitos dos homossexuais, etc. - tudo questões que são, num sentido alargado, questões de Cultura".

Com a mudança do capitalismo para capitalismo cultural, "precisamos de uma revolução cultural (não no sentido maoísta, claro!) para sair da perigosa situação de radicalismo ideológico em que nos encontramos" e é essa a missão da esquerda actual, sublinhou.

ANC.


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