Daniel Galera apresenta "Mãos de Cavalo", romance sobre a identidade
Lisboa, 19 Fev (Lusa) - O escritor brasileiro Daniel Galera veio a Portugal apresentar o seu segundo romance, "Mãos de Cavalo", um livro sobre "o que é a identidade ou até que ponto se consegue construir a própria identidade".
"`Mãos de Cavalo" é um livro que se passa em Porto Alegre, que é a minha cidade, no sul do Brasil, nos anos 90, e nele eu conto a história de Hermano em dois momentos: com 15 e 30 anos de idade. É uma história que procura mostrar, através da tensão entre a vida do adolescente e depois do mesmo personagem adulto, uma busca bastante atormentada por tentar modificar a própria identidade", disse Daniel Galera em entrevista à Lusa.
Segundo o jovem autor, de 29 anos, este romance, publicado em Portugal pela editorial Caminho, "investiga um pouco se existe realmente a possibilidade de uma pessoa transformar a própria personalidade, dependendo da vontade, ou se não, se a gente está determinado a ser quem a gente é e tem de lidar com isso e buscar a felicidade dentro desse espaço limitado".
Hermano, quando é adolescente, "anda muito de bicicleta e, na frustração de não conseguir ser como outros amigos dele, acaba desenvolvendo uma coisa de cair de propósito, que é uma forma de emular um pouco o heroísmo que ele enxerga não só nesses amigos que são mais valentes, mais heróicos, num certo sentido, mas também em heróis de quadrinhos e de cinema americano, de que ele gosta muito e que estão sempre em tiroteios e cenas violentas", referiu.
Depois - prosseguiu - "ele acaba decidindo ser como realmente é, toma decisões muito drásticas para a vida dele e o adulto que a gente conhece é o resultado dessas escolhas: ele se tornou um médico que se formou e ficou famoso muito cedo, é cirurgião plástico, ficou rico, casou, tem uma filha pequena e está partindo para fazer uma expedição para escalar uma montanha desconhecida na Bolívia".
Estes dois momentos da vida da personagem são alternados "para mostrar um pouco a natureza dessa busca dele por se tornar outra pessoa e até que ponto ele consegue ou não e que tipo de recompensas e sofrimentos isso acaba trazendo para ele", indicou.
Para Daniel Galera, este livro é e não é autobiográfico, porque, embora seja uma ficção, ela se baseia no seu universo passado.
"Quando perguntam para um escritor se um livro é autobiográfico, na grande maioria dos casos, pelo menos, se o autor diz que sim, ele está mentindo, se ele diz que não, ele está mentindo também", observou.
"Porque todo o livro sempre vem de alguma questão, quer da subjectividade do autor ou de alguma experiência vivida, mas o autor pode, a partir disso, criar coisas que são estritamente ficcionais, inventadas, porém baseadas na experiência, que é o caso desse livro", defendeu.
O protagonista é inventado, a história também é fictícia, "mas existe um pouco de biografia - admitiu - porque há algumas características de coisas que eu vivi que estão não só no protagonista como em outros personagens da história, e todo o bairro da minha infância, na zona sul de Porto Alegre, onde eu cresci, e as pessoas que eu conheci nessa época, são matéria-prima para criar os personagens e as cenas do livro. Então, ele é e não é biográfico".
Daniel Galera vê a literatura - como um todo, de fora - "como uma forma mais elaborada, esteticamente elaborada, de comunicação entre as pessoas".
"Eu acho que é uma maneira de a gente poder expressar a nossa subjectividade e de conhecer a subjectividade dos outros num nível que uma conversa verbal, no quotidiano, raramente permite", afirmou.
"Toda a história da literatura forma um painel de subjectividades e interpretações de mundo de que só a literatura ou talvez a arte, como um todo, possam dar conta", sustentou.
Para o escritor, que começou a imaginar histórias e acumulava personagens e cenas na cabeça desde os oito ou nove anos e aos 16, 17 começou finalmente a escrever, depois de ter experimentado "tocar música, compor música, pintar, fazer histórias em quadrinhos", a literatura é "a forma mais eficiente e mais profunda" que encontrou para se expressar.
"Não sei se escrever me tornou uma pessoa melhor, porque a pessoa pior não era uma opção. Eu acho que não tive muita escolha, não: ela me tornou quem eu sou, nem melhor, nem pior do que eu poderia ter sido, porque eu não poderia ter sido outra coisa", frisou.