Há muitas definições de poesia, enquanto expressão cultural. Há quem acredite que é de leitura e compreensão difícil, que é para os intelectuais ou para os mais emocionais. E há, também, quem através da interpretação a faça chegar aos públicos mais céticos, como o ator Pedro Lamares que, com um toque da pronúncia do norte, reinventa a forma de dizer cada verso.
Foi entre as estantes da livraria Poetria, na cidade do Porto, que o também encenador recordou poetas e poemas. Para a conversa com a RTP, trouxe o papel que este estilo linguístico pode ter na sociedade, no debate público, na democratização da leitura e até na compreensão do mundo. Houve espaço para declamar alguns dos seus favoritos, sob o olhar atento de Bowie, o border collie de que é inseparável.
Se tivesse de escolher um poema para o Dia Mundial da Poesia, escolha seria o Esplanadas de José Tolentino de Mendonça.
“Acho que, neste momento, o que seria imperdoável era a desatenção, era a banalização”, justificou, porque “tanto para o bem como para o mal (…), a nossa atenção é absolutamente essencial”.
A primavera chega no dia em que se celebra a poesia, é “sempre um dia tão bonito”.
Leitor ávido desde Caeiro
Era adolescente quando descobriu a poesia no papel de leitor, com "uma edição de 74 do Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro".
"Tinha servido ao meu padrasto para ir à boleia até Lagos", contou, ao mesmo tempo que abria a primeira página - onde está desenhada em letras garrafais a palavra “Lagos” - da versão clonada do primeiro livro que lhe deu gosto pela poesia.
"Isto é real, embora não seja exatamente esta a edição. (…) Esta é uma edição que me foi oferecida posteriormente, porque a que o meu padrasto me deu já está completamente a desfazer-se. Então, ele voltou a reescrever as letras de ‘Lagos', que é o que eu uso agora nos espetáculos. Mas é escrito por ele e é rigorosamente igual ao original".
O livro do heterónimo de Fernando Pessoa foi o que “começou a desarrumar tudo”, tendo sido o Oitavo Poema do Guardador de Rebanhos o primeiro a marcar Lamares.
“Comecei a ler isto para aí com 13 anos e foi assim uma revolução na minha cabeça. E comecei a ter vontade de decorar poemas e de dizer poemas".
"Depois houve um outro poema que teve um grande impacto em mim, na altura dito pelo Villaret, que era o 'Cântico Negro' do José Régio. (…) E foi assim muito marcante nessa altura", acrescentou.
Ainda jovem começou a ouvir discos do João Villaret e de Mário Viegas: “o meu avô tinha em casa, o meu pai tinha - e comecei a ouvir assim pessoas a dizer poesia. E pensei 'uau, isto interessa-me'".
Quando estava na faculdade a estudar Música Sacra, na Universidade Católica, Pedro Lamares começou a participar em eventos de poesia.
"Primeiro em Espinho, numa livraria - a 'Livramar'. Depois na cave do 'Pinguim Café', que ainda hoje frequento. (…) E aí conheci a Filipa Leal e fiz uma série de amigos, que ainda hoje são meus parceiros nessa cena de dizer poesia", relembrou o artista portuense.
Começou a “ler em contextos públicos” por volta dos 18 anos. Mais tarde acabou por ir estudar teatro e especializou-se “mais na questão da oralidade, controlo técnico, espaço de palco, a voz, a palavra”. Pedro Lamares é também autor de um livro poesia.Poema com corpo e voz
"Eu já não sei o que é um poema lido em silêncio. Já desaprendi”, disse o ator que dá a voz a tantos poemas em diferentes espetáculos. “Mesmo quando eu leio um poema em silêncio eu estou a ouvir voz dentro da cabeça. Tanto que eu sou lento a ouvir poesia".
Nem como leitor Pedro Lamares consegue ler um poema para si, nem o lê seguido.
“Leio com tempos de leitura em voz alta. Já está tão entrosado em mim a questão da voz no poema que já não conheço outra forma".
E se estiver a “ler poesia sozinho em casa”, é frequente “às vezes começar a ler em voz alta".
"Acho que a diferença, apesar de tudo, é um tempo reflexivo que a leitura em silêncio permite e que a escuta do poema não permite porque a seguir já está outro verso a acontecer. (…) O poema não espera por nós. E na leitura em silêncio, o poema espera por nós. O poema está o tempo todo que nós quisermos à disposição. Até mesmo como objeto gráfico, visual, que permite uma outra possibilidade de mergulho".
Leitor ávido e com gosto para escrever, assume que "há muitas ratoeiras nos poemas, dependendo da poesia”, que “a poesia é pródiga em ratoeiras”.
De uma coisa não tem dúvidas: “a performatização da poesia, a oralidade, a leitura em voz alta, os espetáculos (…) contribuem muito para democratização da leitura poesia”. Isto porque “há uma parte da leitura que já está feita”, já houve o “trabalho da descodificação do poema"
“A democratização e a resolução da leitura na oralidade é nós codificarmos à nossa maneira, segundo a nossa interpretação e a nossa leitura, as várias bifurcações que um poema vai trazendo”.
Habituado a declamar para diversos públicos, Lamares considera que para não se pode cair “na tentação de explicar o poema”. Esta democratização, explicou, “permite a proximidade do poema às pessoas” e tem de “pressupor também um enorme respeito pelo interlocutor, pelo público".
Enquanto intérprete recusa-se a ser paternalista ou explicativo com quem o ouve. É importante, frisou, “não termos essa condescendência de achar que alguém a ouvir dizer um poema tem menos capacidade de entender o poema".
No entanto, o ator reconhece que a forma como é interpretado um poema “muda sempre”. Um intérprete “contamina em qualquer coisa”, como é desejável.
“Qualquer interpretação contamina no teatro, no cinema, a interpretação de um texto", explicou. "Qualquer trabalho de interpretação pressupõe uma contaminação daquilo que estamos a fazer.
“Quando nós vamos dizer um poema, nós contaminamos o poema, trazemos sempre alguma coisa da nossa leitura, do nosso olhar, inevitavelmente. Acho que isso é desejável. Acho que isso é o trabalho do intérprete".
A escolha dos textos para preparar um espetáculo, ou um contexto público de leitura, é na visão de Pedro Lamares a parte “mais importante do trabalho”.
Um dos espetáculos em cena de Pedro Lamares é inspirado num poema do espanhol Gabriel Celaya, A poesia é uma arma carregada de futuro. Mensagem com a qual concorda, quando vê que os noticiários já não vêm carregados de futuro: "a poesia mais do que a realidade, infelizmente".
"Eu prefiro a realidade, ainda assim. (…) Se eu tiver de escolher, eu normalmente prefiro a poesia. Preocupa-me mais o mundo e a vida das pessoas do que a poesia”, admitiu.
Mas a “poesia é um veículo e é um espelho de tudo isso, não é em si um fim".
"É um título que me serviu como uma luva, porque é um espetáculo virado para o futuro, virado para o presente, para o nosso tempo. É um espetáculo que questiona alguns padrões do passado, que questiona questões sociais, políticas, humanitárias”.
Este trabalho em cena “questiona a partir de uma perspetiva poética, uma perspetiva que nos permite olhar de uma forma não linear, não narrativa, não taxativa, não preto e branco, não só factual sobre as coisas, mas a partir de um desdobramento de possibilidades, que é uma coisa à qual a poesia se dá".
Apesar do punho social e político que põem em cada performance, Pedro Lamares acredita que “uma das belezas da poesia é a sua inutilidade”.
“Quase tudo na nossa sociedade contemporânea, capitalista, competitiva, pragmática e produtiva tem de ter uma utilidade. A poesia não tem que ter uma utilidade e ainda bem que não tem de ter uma utilidade. É um alívio que ela não tenha uma utilidade".
E deu o exemplo da poesia política que, muitas vezes, é associada a uma “poesia muito datada, muito associada ou ao movimento neorrealista ou aos poetas de abril”.
“O facto de haver um compromisso, um vínculo e um papel com a realidade e uma forma de ativismo através da palavra não significa que essa palavra tenha de ser datada e tenha de corresponder a um período específico da história portuguesa”.
Reconhece que, infelizmente, na época que estamos a viver, “parece que algumas das coisas que tinham sido adquiridas ou dadas como certas a partir desse período estão outra vez a ser questionadas e está a ver um movimento de um certo saudosismo para esse mesmo tipo de fascismo, com o mesmo tipo de argumentos, o mesmo tipo de bandeira, com o mesmo tipo de slogan e invocando o mesmo Salazar”.
Nesse caso, e “lamentavelmente, existe uma reatualização dessa época poética que seria muito desejável que fosse perfeitamente anacrónica".
No espetáculo que apresenta com a atriz Lúcia Moniz, "Para atravessar contigo o deserto do mundo", estão em cena apenas poemas de Sophia de Mello Breyner e de Jorge de Sena.
"Faço o espetáculo desde 2019. (…) Sempre que vamos fazer o espetáculo revemos coisas da atualidade que estão a acontecer nas últimas semanas e percebemos a atualidade do espetáculo", lamentou, descrevendo como “assustadora” a atualidade deste trabalho.
“Percebemos isso com um lamento, nós preferíamos que o espetáculo fosse perfeitamente anacrónico, datado e que já não fosse necessário esse toque, esse alerta".
Nesse sentido, o ator vê a poesia também como “uma ferramenta de intervenção e uma forma de ativismo, através da cultura, através da arte".
"Eu não acho que tenha de ser isso. Há espaço para tudo isso, para todas as possibilidades, para uma poesia só lírica, para uma poesia lúdica, de cariz muito mais pessoal".
E há espaço para nos ajudar “a compreender o mundo e a sociedade de uma forma menos concreta, mais vaga, mais lírica, mais metafórica”.
Mas se pensar no estado do mundo, nos conflitos, nas crises geopolíticas, sociais e económicas, a poesia “não faz esse trabalho sobre o horror de tantos movimentos violentos que estão a acontecer".
"Quando nós pensamos em todos esses acontecimentos que estão a acontecer no mundo e se a poesia nos pode salvar - não, não nos pode salvar para nada", declarou, relembrando um poema de Manuel António Pina “que diz: 'a poesia vai acabar'.
Convicto de toda a importância que a expressão poética pode ter na sociedade, reconhece que, "de facto a poesia não há-de estar a fazer nada pelos palestinianos”, na Guerra no Médio Oriente.
É “uma coisa muito direta e óbvia do Jorge de Sena que é: 'E a guerra continua, continua sempre. Ah nunca, nunca a guerra acaba".
A existência "constante das guerras às quais nós nos habituámos, é uma dessensibilização". E apesar de nos termos sensibilizado "com a guerra na Ucrânia, por ser um país muito próximo, (...) já não estamos a reparar no Sudão do Sul, na República do Congo, não estamos a reparar na Síria".
"Eu volto sempre ao Caeiro (…) é mais uma vez sobre um apelo à atenção e à valorização das coisas".
Ao terminar de o recitar, considerou ser, mais uma vez, este o “canal direto que a poesia nos proporciona para uma atenção mais interior para as coisas, para uma abertura de sentidos, para uma ligação mais real, mais concreta e menos dependente do objeto, da plataforma, do intermediário. Entre nós e as coisas, entre nós e o mundo, entre nós e os acontecimentos. Entre nós e a natureza. Entre nós e o outro".