Distinção de Manuel Alegre "é justa" e nobilita Universidade de Lisboa - Investigadora
A distinção de Manuel Alegre como Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa, é uma "justa homenagem, que nobilita a instituição", disse hoje a investigadora Paula Morão, na apresentação do escritor.
"Manuel Alegre não precisa de distinções -- já recebeu os mais altos galardões como cidadão e como escritor; mas a Universidade portuguesa deve-lhe a homenagem justa, que nobilita a instituição, por contar oficialmente no elenco dos seus um daqueles que, sem dúvida, se enquadram nas `personalidades eminentes`, nacionais ou estrangeiras", disse Paula Morão, catedrática do Departamento de Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
"Estes requisitos estão espelhados no alto grau de cidadania e de intelectual que Manuel Alegre representa: o exemplo ensina, e prestigia-nos a nós como instituição", atestou a professora, madrinha do laureado.
Foi esta faculdade, disse Paula Morão, que propôs o escritor para receber esta distinção, desde logo pela sua obra literária iniciada em 1965, com a edição do livro de poesia "Praça da Canção".
"A prática daquele género [poesia] tem sido constante até ao presente, caracterizando-se por uma qualidade cujas características têm sido reconhecidas por críticos tão eminentes como Eduardo Lourenço e Vítor Aguiar e Silva", afirmou Morão, para referir em seguida que a "profícua obra poética de Manuel Alegre mantém desde o início um conjunto de características que fazem deste autor um marco do que de melhor o género lírico em Portugal apresenta, desde a década de sessenta de novecentos até ao presente".
A catedrática realçou que na poética de Alegre está patente uma "consciência literária visível nas raízes de múltiplas tradições, antigas e modernas, que a sustentam: lá estão, a comprová-lo, Virgílio e Homero, o rastro medievo dos trovadores portugueses e provençais, os traços de Fernão Lopes, de Camões (o épico, o lírico autor de sonetos, epístolas e elegias) ou de Bernardim, com os de Fernão Mendes Pinto ou vestígios de Antero de Quental, António Nobre e Camilo Pessanha, de Mário de Sá-Carneiro ou de [Fernando] Pessoa".
"Lá vemos ainda a linhagem de François Villon, a par de traços de Shakespeare (e em especial de Hamlet, o príncipe da melancolia), de Rimbaud e de Mallarmé, ou de vários outros `rouxinóis do mundo`", acrescentou Paula Mourão referindo que "todos desenham os alicerces de uma poética muito consciente de si e do seu lugar, na linhagem da poesia ocidental, consolidada ao longo de mais de cinco décadas".
A obra poética de Manuel Alegre "representa na literatura portuguesa contemporânea um caso de coesão e de excelência".
Segundo a catedrática, na obra poética de Manuel Alegre "não se vê um mero caso de evolução -- antes se tratando de ir fazendo mais firmes, pela oficina poética, os veios diferentes que desde o início e ao longo do tempo vão urdindo os poemas e os livros numa só túnica inconsútil".
Para a professora da Faculdade de Letras de Lisboa, "caminho similar se desenvolve na obra em prosa" de Manuel Alegre, "porventura menos conhecida".
Na prosa de Alegre, "a ficção autobiográfica largamente se estende à condição do humano, `tematizando` questões nodais para pensar Portugal hoje: a autoconsciência que se forma e cresce, a experiência da Guerra Colonial ou a do exílio encontram-se na encruzilhada de um percurso de vida condicionado por uma ascendência familiar provinciana bem peculiar e exemplar, depois continuando com a vida académica de Coimbra nos anos em que a educação era tanto de via profissional como de vertente interventiva, e mais tarde ainda com a vida na dura condição de exilado da pátria muito amada".
"Nos romances de Manuel Alegre leem-se linhas coerentes com o que a sua poesia já havia desenhado, reforçando a noção de obra já antes referida: o sujeito protagonista apresenta-se com uma face dupla - solar, empenhado, combativo e épico, mas na sombra se lhe contrapondo um alter ego lunar, íntimo, secreto, elegíaco", disse hoje Morão.
"Deste território dúplice e múltiplo resulta o caráter interventivo, às vezes à `contre coeur`, que a obra de Alegre assumiu ao longo dos anos", afirmou.
A catedrática referiu ainda como os livros de poesia de Manuel Alegre, publicados na década de 1960, "foram tomados como bandeira por uma geração em luta contra a ditadura".
"Os cantores de maior qualidade e capacidade interventiva impuseram à comunidade a força efetiva de poemas transformados em flâmulas do combate pela justiça e pela liberdade".
Exilado em Argel, de onde se podia ouvir a sua voz "com timbre vigoroso e quente", na rádio Voz da Liberdade, Manuel Alegre regressou a Portugal depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, "e desde aí assiste-se, em plena coerência, à participação visível na vida política, tendo ocupado lugares proeminentes na vida pública, a par do nunca abandonado percurso literário, sempre com o recuo crítico e intimista que permitiu [ao escritor] ser quem é",
Todo o percurso define-o assim, hoje, como um "Homem dum só parecer,/ De um só rosto e uma só fé,/ De antes quebrar que torcer", como escreveu Sá de Miranda, "e lhe convém", recordou a professora.
Paula Morão referiu ainda a vertente ensaística do autor de "Cão como nós", com a "abundante conta" de textos ensaísticos, "que se repartem entre a reflexão sobre a escrita e sobre a cidadania, glosando o verso de `Os Lusíadas` que gravou para sempre na língua portuguesa essa dualidade: `Numa mão sempre a espada, e noutra a pena`".
A cerimónia abriu as 15:10 com a entrada do cortejo académico, ao som de uma das mais conhecidas marchas de "Pompa e Circunstância", do britânico Edward Elgar, no qual se integravam o distinguido, o Presidente da República e o reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra.
Após o elogio de Paula Morão, madrinha do laureado, o ator Diogo Dória iniciou a leitura de poemas de Manuel Alegre.
Segue-se a alocução de Manuel Alegre.
A cerimónia será encerrada com uma atuação da cantora Cristina Branco, para interpretar dois fados com poemas do laureado, entre eles, "Meu Amor é Marinheiro", musicado por Alain Oulman, uma criação de Amália Rodrigues.