Do Nepal para Portugal com o sonho da moda na bagagem

Do Nepal para Portugal com o sonho da moda na bagagem

Aos 17 anos, Sony Gurung está em Portugal para perseguir uma meta - tornar-se designer de moda. Neste Dia do Estudante, o online da RTP conta a história de uma aluna fora do comum.

Sandra Henriques, RTP /
Sony preferiu falar com o <i>online</i> da RTP em inglês, visto que ainda tem dificuldades com o português Sandra Henriques, RTP Online

Os estudos são o principal motivo que trouxe esta jovem do Nepal para Portugal. A mãe, a irmã mais velha e o irmão mais novo ficaram na localidade de Resha, no distrito de Baglung.

Resha está “encravada” no centro do país, a oeste da capital. Sony não sabe dizer quantos quilómetros a separavam de Catmandu, mas recorda que demorava um dia inteiro de autocarro para percorrer a distância. Daí que só visitasse a cidade esporadicamente.

As condições de vida no Nepal não são comparáveis a Portugal. Esta adolescente garante que não tinha falta de comida e levava uma vida “normal”. “O problema é que não há instalações condignas e que os estudantes não têm uma vida como aqui”, explica.

Por isso, Sony decidiu deixar o seu mundo para conhecer outro completamente diferente, juntando-se ao pai, que está há sete anos em Portugal. Cozinheiro numa conhecida hamburgueria artesanal de Lisboa, pagou-lhe o bilhete de avião. “Para nós é muito caro”, recorda a jovem.

A viagem foi muito cansativa. Teve de ir de autocarro para Catmandu, onde apanhou um avião para Abu Dhabi. Ainda fez escala em Espanha antes de entrar em Portugal. “Acho que demorei mais de 12 horas de avião.”

Hoje vive em Lisboa, juntamente com o pai, a madrasta – também nepalesa – e a irmã de três anos, que já nasceu portuguesa.
Dos estudos gerais para o curso profissional

“É melhor do que viver no Nepal. Os estudos e as instalações são melhores aqui”, diz a sorrir. “O sistema educativo é melhor do que no Nepal”, acrescenta, enquanto lembra que já passou por várias escolas em Lisboa.

“Estudei na Passos Manuel [que faz parte do Agrupamento Vertical de Escolas Baixa-Chiado] e depois fui ao Nepal visitar a família. Depois de regressar do meu país, estudei na Filipa de Lencastre [pertencente ao Agrupamento de Escolas D. Filipa de Lencastre] e depois vim há um ano para o Centro de Educação e Desenvolvimento de D. Maria Pia”.

É neste último estabelecimento de ensino que está a fazer formação com uma vertente prática que dá equivalência ao 12º ano, o que não poderia fazer se tivesse continuado no seu país. “O problema é que no Nepal não há cursos profissionais de moda, como este. Se houvesse um curso destes eu estudava lá, mas não há nenhum curso. Não há um bom sistema educativo.”

“Os estudantes não podem trabalhar na sua área. Por exemplo, aqui estou a estudar Design de Moda, posso trabalhar nessa área, mas no Nepal não se pode. Não há grandes fábricas. Na realidade, quando eu era pequena queria ser enfermeira, só que quando vim para aqui mudei de ideias e decidi que queria ser designer. Estou aqui, mas agora sei que é muito difícil”.

A grande dificuldade está sobretudo na língua. “O português é muito difícil. Tenho aulas de língua materna nesta escola. Nas outras escolas tinha aulas também de português, mas se este curso fosse em inglês seria melhor do que em português. Tudo é em português aqui”, lamenta.



Sony elege também a disciplina de História como um grande obstáculo. “Não consigo progredir por causa da língua. Não entendo essa disciplina, porque é tudo em português. Não percebo as frases e há palavras muito difíceis.”
“Gosto de desenhar as roupas”
Caso tenha boas notas e passe de ano, Sony pretende continuar neste estabelecimento pertencente à Casa Pia de Lisboa. “Se tiver um resultado negativo, tenho que pensar nisso, mas não me posso inscrever no próximo ano”, sublinha.

A jovem nepalesa mostra-se focada no objetivo de ter bons resultados no curso de Design de Moda, até porque não se vê a fazer outra coisa na vida. “Gosto de desenhar as roupas. Quero trabalhar com as pessoas que estavam na Moda Lisboa. Quero trabalhar lá. É o meu sonho trabalhar com os designers no backstage”, conta com um brilho especial no olhar, lembrando que esteve no evento em outubro.

É habitual os alunos deste curso profissional do Centro de Educação e Desenvolvimento de D. Maria Pia participarem nos preparativos dos desfiles da Moda Lisboa, normalmente como aderecistas. “Tive a experiência de trabalhar com designers e com as roupas e de conhecer os seus estilos de trabalho”.

Questionada se planeia ficar em Portugal a trabalhar, ou se pondera ir para outro país, a estudante responde que não tomou uma decisão. “Ainda não sei, mas acho que vou trabalhar aqui”.



Pelo menos, o Nepal parece não ser uma opção, porque há áreas específicas de trabalho – como esta – que não estão desenvolvidas. “Há muitos estudantes, e muita gente tem estudos, mas não podem trabalhar lá. Têm que ir para o estrangeiro para trabalhar.”
Comparações são difíceis
Sony garante que tem muitos amigos nepaleses em Portugal, embora continue a ter saudades dos amigos que deixou no seu país. Na escola é a única aluna proveniente do país asiático, mas já tem amigos na turma.

“São muito amáveis e simpáticos. Não é difícil estabelecer contacto. Costumam falar comigo em inglês. Tenho uma boa amiga, a Madalena. Ela costuma ajudar-me muito, tal como os outros amigos.”

No topo da lista de saudades está o nepalês. “Sinto falta especialmente da minha língua, que não posso falar aqui, e também da minha mãe, e dos meus amigos.”

Aqui em Portugal tudo é tão diverso que é complicado fazer comparações. “As coisas são completamente diferentes. Por exemplo, a comida é completamente diferente da do Nepal.” A jovem confessa que não gosta de alguns pratos portugueses por terem pouco sal e por não serem picantes.

“Há muitos ingredientes da comida tradicional do Nepal que não conseguimos encontrar aqui e que temos que mandar vir de lá.” Outra possibilidade é comer num dos vários restaurantes nepaleses existentes em Lisboa. “O sabor da comida é igual à do Nepal”, remata a sorrir.
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