Duo Contracello, dez anos depois o segundo CD
Nasceram no Porto, conheceram-se no Conservatório da cidade, tocaram juntos, público e crítica receberam- nos bem e, em 1993, decidiram dar forma à afinidade de ideias e conceitos entretanto revelada entre ambos. Criaram o Duo Contracello.
Adriano Aguiar responde pelo "Contra", que identifica o contrabaixo, Miguel Rocha pelo "Cello", de violoncelo.
Em 1996, três anos depois da sua constituição, o grupo lançou, com apoio do Ministério da Cultura, o seu primeiro CD, Contracello I.
E dez anos passaram antes de ser viável o aparecimento do segundo, este sem apoios, edição dos dois instrumentistas.
O lançamento deste novo trabalho do Duo está marcado domingo, às 19:00, no Real Palácio, à Rua Tomás Ribeiro, Lisboa.
O percurso musical nas duas gravações é o mesmo - do barroco à actualidade -, só mudando os compositores convocados.
No primeiro, coube a Joseph Bodin de Boismortier sinalizar o barroco e a Alexandre Delgado a contemporaneidade, com uma obra ali pela primeira vez registada fonograficamente. Entre um e outro, Pleyel e Gioacchino Rossini.
O segundo CD abre com François Couperin e fecha com Carlos Azevedo. Entre os dois, Keyper, Mozart e Boukinik.
Este segundo CD, sintetizou Adriano Aguiar em declarações à Lusa, "foi um grande desafio para nós", numa época de cada vez maior especialização e exigência.
Presentes na preocupação do Duo, aspectos como a "autenticidade" da execução - só "possível", na avaliação porventura radical de alguns, com o recurso a instrumentos originais - e a busca do registo fiel, o mais próximo possível do que seria o da época (de Boismortier, de Pleyel, de Mozart, etc.).
Adriano Aguiar exemplifica: Couperin, na peça incluída no segundo CD (uma transcrição, feita pelo Duo, de duas violas da gamba graves para violoncelo e contrabaixo) aparece "adaptado ao Lá mais baixo, mais próximo do que se usaria na sua época".
"Tocamos - assinalou - com arcos barrocos também para dar um ar diferente. Estes dois aspectos têm, idiomaticamente, implicação no próprio discurso".
Adriano Aguiar e Miguel Rocha fazem questão, nos trabalhos que gravam em disco, mas não só - também quando actuam em concertos, dentro e fora de Portugal -, de incluir obras de autores portugueses.
De Delgado, "Burlescas", no primeiro CD, de Carlos Azevedo, "Granito", no segundo.
Para os concertos e discos que a seguir acontecerem, encomendaram já novas obras. A Sérgio de Azevedo, a Pedro Rocha e a António Vitorino d`Almeida, entre outros.
"Por que incluímos sempre compositores portugueses? - pondera Adriano Aguiar - Para já, porque somos portugueses e porque esta é uma maneira de levar a cultura portuguesa a outros lados. Não só ao estrangeiro, mas também aqui, em Portugal" E têm sido agradáveis, inesperadas, mesmo, em alguns casos, tocantes, as reacções do público, em lugares menos mediatizados da geografia portuguesa.
Adriano Aguiar evoca, a título de exemplo, a forma como foram recebidos em Moimenta da Beira. Na sala de concerto, o público que assistia aplaudiu-os de pé.
Lá fora, o Duo actuou já em diversos países, na Europa e não só. Em Londres, a revista Double Bassists escreveu, em tom de aplauso, sobre o seu primeiro CD. Como antes, em Portugal, o tinham feito, nas páginas do extinto jornal A Capital, críticos como Alejandro Erlich Oliva, do Opus Ensemble.
É precisamente de Erlich Oliva o texto de apresentação do grupo e dos autores por este escolhidos para o segundo CD.
Para o contrabaixista do Opus Ensemble, o primeiro CD do Duo foi "uma vigorosa braçada contra a corrente em vários aspectos:
apresentou uma formação instrumental jamais cultivada em Portugal de maneira estável, fez conhecer - em amadurecidas interpretações - um repertório internacional injustamente ignorado e ofereceu um valioso contributo para a divulgação da música de matriz cultural portuguesa".
O segundo CD - é ainda Erlich Oliva a dizê-lo - mostra que o Duo "não perdeu nenhuma das suas qualidades de origem" e "conquistou entretanto três atributos essenciais: experiência, continuidade e amplitude repertório".
"A experiência acumulada [pelo Duo]- escreve - permite-lhe manter em invejáveis condições operacionais um projecto de elevada exigência técnica. A continuidade de objectivos, sustentada ao longo de mais de uma década, fortalece a `imagem de marca` do Duo Contracello na vida musical portuguesa (Ó)".
Como no texto de Erlich Orliva se assinala, são raras formações musicais como o Contracello. Na Europa, conhecidas, podem citar-se o Duo da Filarmónica de Berlim, o Duo di basso, o Duo Tedesco.
Esta raridade não tem a ver, como poderia pensar-se, com o facto de o repertório disponível ser reduzido.
Por um lado, há um já considerável número de compositores com obras para os dois instrumentos, lembra Adriano Aguiar, citando nomes como Berio, Donati, Schnitke, Scelsi.
Por outro lado, é sempre possível passar para contrabaixo e violoncelo peças originalmente compostas para outros instrumentos - solistas, quartetos ou orquestras. Foi o que fizeram, nos dois CD até agora gravados, Adriano Aguiar e Miguel Rocha.
O contrabaixista aponta como razão fundamental da raridade de formações como a sua "o grau de dificuldade superlativa" da execução.
O desafio é grande. E, no caso, português, acresce serem poucos - e, quando os há, diminutos - os apoios.
Num quadro cultural em que - resume Adriano Aguiar - "a música é sempre parente pobre - e a música de câmara mais ainda", o importante é não desistir, insistir sempre.
Ao Duo, projectos não faltam. Não sendo um grupo de "geometria variável", está aberto a colaborar, como tal, com outros instrumentistas. Anabela Chaves, por exemplo, é um nome pensado para uma colaboração a haver.
Fora do Duo, cada um dos seus membros toca com outros instrumentistas, com quartetos, orquestras, sempre que a oportunidade surge. Profissionalmente, Adriano Aguiar é coordenador adjunto do naipe de contrabaixos na Orquestra sinfónica portuguesa e Miguel Rocha professor de violoncelo no Instituto Politécnico de Castelo Branco.