Entre teatro e cinema, Maldoror desafia o público de Avinhão a olhar para o mal sem moralismos

Entre teatro e cinema, Maldoror desafia o público de Avinhão a olhar para o mal sem moralismos

Quando Julien Gosselin apresenta uma obra no Festival de Avinhão, sul de França, ninguém espera uma peça convencional. Maldoror, a sua nova criação, volta a desafiar os limites do teatro contemporâneo.

Rosário Salgueiro e Paulo Domingos Lourenço - RTP / Adicionar como fonte informativa

Durante cinco horas Maldoror, preenche o palco de um dos lugares mais míticos do Festival, aa Cour d’Honneur, o pátio de honra, do Palácio dos Papas. O encenador e dramaturgo francês revisita neste espetáculo Roberto Bolaño, criando um diálogo entre o escritor chileno e Lautréamont, poeta francês do século XIX. Neste cruzamento realizado por Gosselin mostra-se como os dois autores exploram a violência humana, as suas origens e os recônditos mais obscuros da mente. Em palco, os atores vão-se cruzando, vão-se metamorfoseando em várias línguas. Numa performance que mistura teatro, cinema, há vídeo em tempo real, e arte performativa. Atores e espetadores são encaminhados para a América Latina dos anos 70. 
Nesta exploração intensa da literatura é proposto uma reflexão sem respostas fáceis sobre o mal.

Cinco horas para pensar o mal: os atores de Maldoror explicam à RTP o novo desafio de Julien Gosselin, em Avinhão

A RTP conversou com dois atores de Maldoror, Denis Eyrie e Victoria Quesnel. Ambos defendem um teatro que recusa dar lições ao público e prefere antes abrir espaço à inquietação. “O nosso papel é levantar perguntas”, afirmam. Denis e Victoria são colaboradores habituais do encenador francês. Os atores admitem que o desafio não está apenas na dimensão do espetáculo, mas na intensidade física, técnica e emocional que uma produção desta natureza exige. 

“Estamos habituados”, diz Denis Eyrie, entre sorrisos. “Os espetáculos anteriores duravam cinco horas, já fizemos um de dez e até um de doze horas. Para nós, quatro horas e meia ou cinco horas são quase formatos curtos”, admite entre gargalhadas.

Em horário de verão, o espetáculo pensado pelo também diretor do Teatro Odeon de Paris, começa ainda de dia. Termina já noite profunda. Quando público e atores saem do Palácio dos Papas a cidade já dorme profundamente, são, na melhor das hipóteses, quatro da manhã. “Depois ainda demora algum tempo até conseguirmos desligar. Quando vamos dormir já são cinco ou seis horas”, acrescenta o ator, mostrando como a recuperação para a sessão seguinte tem de ser cuidada. A preparação para esta

maratona teatral diária faz-se quase como a dos atletas de alta competição: exercício físico, alimentação cuidada, ausência de álcool e uma gestão rigorosa dos períodos de descanso. Victoria Quesnel reconhece que o desafio é também emocional. Espectadora assídua do Festival de Avignon desde muito antes de integrar o elenco de Gosselin, subir agora ao palco da Cour d’Honneur tem um significado especial confessa a atriz: “Mais do que pensar na dificuldade, procuro viver esta experiência sem arrependimentos. É um lugar muito importante para mim.”

O mal como território da criação


Maldoror leva o público a confrontar-se com uma questão desconfortável: porque é que a arte regressa tantas vezes ao mal? Para Denis Eyrie, não se trata de uma provocação moral, mas de uma interrogação essencial da criação artística: “O artista acaba inevitavelmente por confrontar-se com o mal. Não porque o procure defender, mas porque certas zonas da experiência humana não podem ser ignoradas.”

Durante a preparação do espetáculo, o ator voltou a encontrar a reflexão de Georges Bataille, que defendia que “a literatura é o mal”. Não assume essa ideia como verdade absoluta, mas considera inevitável que a arte explore os territórios mais obscuros da condição humana. 

“A criação não pode nascer apenas dentro daquilo que é confortável ou aceitável. A questão não é justificar o mal, mas olhar para ele”, reafirma Denis Eyrie. Essa perspetiva aproxima-se da própria obra de Roberto Bolaño, que Denis Eyrie reencarna na peça, e que é um dos grandes pilares dramatúrgicos de Maldoror. Segundo o ator francês o escritor chileno entendia que a literatura só existe verdadeiramente quando desafia as normas estabelecidas e recusa respostas simples.

Um espetáculo que não quer dar lições

Embora algumas passagens evoquem diretamente o nazismo e outras formas de violência política, os atores recusam qualquer leitura panfletária da encenação. “As ligações com o presente surgiram naturalmente durante os ensaios”, explica Denis Eyrie. “Mas Julien Gosselin não faz teatro para dizer ao público o que deve pensar.” O encenador tem dito acreditar que a função do teatro é precisamente abrir espaço para a dúvida. Nesse mesmo sentido Denis Eyrie acrescenta que “hoje toda a gente nos diz constantemente o que devemos pensar: os políticos, as redes sociais, os comentadores. Esse não é o papel dos artistas. Nós levantamos perguntas. Depois cada espectador constrói a sua própria resposta.”

O desafio de falar várias línguas

Ao longo das cinco horas de espetáculo cruzam-se diferentes idiomas, entre eles o português, francês, espanhol, italiano e alemão. Para a atriz Victoria Quesnel, essa multiplicidade linguística não é apenas uma escolha estética: “Quando mudamos de língua, mudamos também a nossa relação connosco. A voz altera-se, o pensamento organiza-se de outra forma. Não somos exatamente a mesma pessoa.” Essa experiência admite, reforça a dimensão universal do espetáculo, sugerindo que o mal não pertence a um país nem a uma época específica, mas atravessa culturas, fronteiras e gerações.

Teatro ampliado pela imagem


Como acontece em muitos trabalhos de Julien Gosselin, o vídeo projetado ocupa um lugar central na encenação. Volta a acontecer na imensa Cour d’Honneur (pátio de honra) do Palácio dos Papas, o edifício do século XIV que albergou monarcas e clero. As câmaras, em direto, acompanham permanentemente os atores, captando expressões, detalhes e movimentos que seriam invisíveis para parte do público instalado no imenso auditório ao ar livre. Longe de considerar que o vídeo substitui o teatro, Victoria Quesnel acredita precisamente no contrário, considera que o amplia. 

“A câmara torna visível o que atravessa intimamente o ator. Amplifica o teatro.” Denis Eyrie, por seu lado, lembra que o dispositivo técnico é extremamente complexo, já que os próprios intérpretes também manipulam câmaras durante o espetáculo: “Neste momento ainda estamos a aprender toda essa coreografia técnica. A tranquilidade virá mais tarde.”

Entre literatura, filosofia, cinema ao vivo e performance, Maldoror confirma Julien Gosselin como uma das vozes mais ambiciosas do teatro europeu contemporâneo. Sem oferecer respostas fáceis, o espetáculo convida o público a permanecer durante cinco horas diante das zonas mais inquietantes da experiência humana — talvez porque, como sugerem os próprios intérpretes, seja precisamente aí que o teatro continua a encontrar a sua razão de existir
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