Espiões portugueses na II Guerra "eram medíocres e vendiam-se por pouco"

Espiões portugueses na II Guerra "eram medíocres e vendiam-se por pouco"

Carlos Morais José, Agência Lusa

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Lisboa, 06 Out (Lusa) - Espiões portugueses durante a II Guerra Mundial, os da triste figura. "Não era por ideias, sexo ou emoções, que se dedicavam à espionagem: era por dinheiro, por serem pobres", diz Rui Araújo, autor de "O diário secreto que Salazar não leu".

Portugal vivia sentado na neutralidade urdida por Salazar, presidente do Conselho que acumulava a pasta dos Negócios Estrangeiros. Aliados e Nazis tentavam recrutar espiões portugueses, sobretudo em África, de modo a obter informações entendidas como vitais para o decurso da guerra.

"A posição portuguesa servia os dois lados, mas pendia mais para a Alemanha. A verdade é que quando Hitler morreu a bandeira foi colocada a meia-haste", explica o jornalista Rui Araújo.

Ainda segundo o autor, a ambivalência portuguesa chegava ao interior da secreta de então, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), de onde emergiria, anos mais tarde, a PIDE.

O número 1, Agostinho Lourenço espiava para os alemães; o número 2, José Catela, ia passando informações aos ingleses. Talvez este seja um belo sintoma da posição portuguesa.

Entretanto, em Londres, o director da contra-espionagem do MI5 era Guy Liddell, um sujeito metódico que resolveu manter um diário, regularmente ditado à sua secretária. No fim da guerra constituía 12 grossos volumes, só muito recentemente desclassificados.

Estudado por Nigel West, conhecido autor de livros sobre espionagem e amigo de Rui Araújo, viria a servir de base a este livro. Naturalmente interessado noutros factos, West não deixou de notar a presença de referências a Portugal e a portugueses naquelas intensas páginas, o que referenciou a Araújo, desafiando-o a encetar trabalho.

"Foram 19 meses de pesquisa, em arquivos nacionais e estrangeiros, de modo a complementar a informação contida no diário", conta o jornalista. O resultado foi o triplo das páginas que agora vão surgir editadas, com a chancela da Oficina do Livro.

Organizado cronologicamente, "porque me parece fazer assim mais sentido", explica o autor, o livro traz à tona uma série de episódios onde a aventura se mistura com a cupidez e o acaso com o desespero.

"Diplomatas, marinheiros e caixeiros-viajantes eram os alvos principais dos recrutadores. Contudo, revelaram-se muito desajeitados. Os ingleses davam por eles e forneciam listas de nomes a Salazar, que geralmente não fazia nada", conta Rui Araújo.

Mas, se não paravam com as suas acções, nalguns casos os ingleses intervinham. Foi o caso do radiotelegrafista do navio Gil Eanes, que fornecia informações aos alemães sobre os barcos aliados que avistava, tornando-os presas fáceis para os submarinos de Hitler.

A marinha inglesa apresou o Gil Eanes e, simplesmente, raptou o radiotelegrafista, levando-o para Londres. Mas tais factos nunca chegaram ao conhecimento do grande público.

"Todos confessaram", diz Rui Araújo, que sublinha a história de um caixeiro-viajante apanhado em África, encarcerado nos arredores de Londres. "Confessa tudo. Depois escreve uma carta à mãe e tenta cometer suicídio, espetando a caneta no escroto".

Transportado para um hospital militar, fica perto da loucura. "Ouvia os passos do pelotão de execução nos corredores, convencido que o vinham buscar para o matar". Acabou por ser libertado em 1945.

Como, aliás, todos eles. "Os ingleses só condenaram à morte e executaram um único espião. Um inglês que, por acaso, operava em Portugal".

Houve, no entanto, um português que chegou a ser condenado à pena capital. Era um diplomata, dactilógrafo do MNE. "Salazar pagou-lhe um bom advogado e intercedeu junto do Foreign Office para que não fosse executado. Esteve preso até 1949, mas safou-se", explica Rui Araújo.

São muitas as histórias e as personagens que perpassam pelas 350 páginas deste livro. Narrativas e pessoas que gravitavam à volta de Lisboa, "a capital neutral mais importante em termos de espionagem", ou percorriam os territórios africanos.

"É o caso do Banco Espírito Santo. Na altura, servia de caixa de correio a espiões dos dois lados", revela ainda Araújo. No livro surgem os nomes de Kim Philby, dos serviços britânicos, que mais tarde se passaria para os russos, e Nubar Gulbenkian, filho de Calouste, conhecido pelo seu distanciamento em relação ao pai e pelo facto de trabalhar para os ingleses.

Para os espiões lusos, o tom geral não é muito abonatório: "estavam muito mal preparados, eram medíocres, facilmente se expunham e vendiam-se por muito pouco", conclui Araújo.

O lançamento de "O diário secreto que Salazar não conhecia" decorre no dia 27 de Outubro, na FNAC/Colombo, sendo apresentado por Francisco Pinto Balsemão e Ramiro Ladeira Monteiro, o primeiro director do SIS.

CMJ.

Lusa/Fim


PUB