Estreia de espetáculo de Isabél Zuaa cancelada, denúncia de violência enviada para MP

Estreia de espetáculo de Isabél Zuaa cancelada, denúncia de violência enviada para MP

A estreia do espetáculo "Afro Saloyá", prevista para quinta-feira à noite no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, foi cancelada pela equipa na sequência do que a criadora Isabél Zuaa denunciou como ameaças violentas num ensaio.

Lusa /

Em declarações à Lusa um dia depois do cancelamento do espetáculo, que foi explicado ao público já na sala com uma faixa na qual se lia "Afro Saloyá presente apesar do racismo", a atriz e criadora frisou que não quer ficar refém nem ser prejudicada pelo sucedido, mas sim divulgar e dar a conhecer o seu trabalho.

"Essas violências só servem para atrasar a minha vida, essas violências querem atrasar as nossas vidas. Não quero estar atrasada de mim, dos meus sonhos, daquilo que eu desejo realizar, da arte, da criatividade, da minha potência enquanto ser humana, ser artista, não quero atrasar-me sobre isto. E este espetáculo era exatamente sobre isto, poder celebrar as minhas culturas e que as honro igualmente", explicou a criadora.

Num comunicado divulgado na manhã de hoje, assinado pelo presidente executivo da cooperativa A Oficina, Esser Jorge Silva, que começou por lamentar "os acontecimentos que levaram ao cancelamento" do espetáculo, foi revelado que a instituição "instaurou de imediato um processo de averiguação interno" que não identificou "qualquer atitude, ato ou insinuação de natureza racial".

No entanto, A Oficina - que realçou não tolerar "qualquer forma de racismo, sexismo ou assédio e leva muito a sério todas as alegações dessa natureza" - "decidiu enviar uma participação ao Ministério Público para que toda a situação possa ser cabalmente investigada, pedindo a maior celeridade possível".

"Eles podem nem considerar nem violência nem violência ligada a cariz racial, mas a verdade é que as declarações e a atitude que eles tiveram nunca tiveram com outras pessoas. E podem justificar isso sendo circunstancial ou não, não sei. [...] Ver a minha equipa a chorar foi das piores coisas que aconteceu", disse a atriz.

Sobre o que levou à decisão de cancelar a estreia em Guimarães, Zuaa contou que a posição tomada "veio de uma ameaça, mas não começou na ameaça".

Isabél Zuaa relatou que, durante um ensaio, um erro por parte de uma pessoa da equipa técnica numa `deixa` relacionada com a descida de um microfone, algo que não tinha acontecido nos ensaios anteriores, fez com que fosse necessário chamar a atenção para que o tempo e o modo da ação fossem cumpridos, em particular por estar em causa um equipamento que poderia ser perigoso, dado o seu peso.

Na sequência disso, é retomado o ensaio e, passado algum tempo, entra o diretor técnico em cena: "Ele pergunta `quem é a Isabel?` e atira-se a mim, fica colado à minha cara com o dedo apontado e a dizer `vai imediatamente pedir desculpas à minha técnica senão não há espetáculo, senão não há nada`".

"Ele nem sequer me perguntou nada, ele exigiu de uma forma violenta. Não tenho nem energia para dizer a forma violenta que foi", disse a criadora do espetáculo, que lembrou já ter atuado antes no Vila Flor, sem incidentes.

Isabél Zuaa realçou: "Não quero fazer notícias [com o] que é a ação deles, não quero ficar rotulada a esta violência, não quero, não acho justo. Quero ficar rotulada pelas coisas que eu faço, pelo meu trabalho, acho que é tão legitimo querer isso".

Intérprete e criadora, Isabél Zuaa nasceu em Lisboa e estudou teatro no Chapitô e na Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo também frequentado o curso de Artes Cénicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, segundo a biografia patente no `site` do LEFFest, onde foi jurada da competição de escolas de cinema.

Cofundadora do coletivo Aurora Negra, Zuaa tem trabalhado em cinema, televisão, teatro e dança, e, como recorda a mesma biografia, tem sido premiada em vários momentos da carreira.

No cinema, fez parte do elenco do filme "O Agente Secreto", de Kléber Mendonça Filho, que foi nomeado para quatro Óscares de Hollywood.

O espetáculo "Afro Saloyá", que faria a estreia absoluta em Guimarães, era um dos destaques da edição em curso do Festivais Gil Vicente, que terminam no sábado.

 

 

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