Eunice Muñoz completa 70 anos de carreira artística

Eunice Muñoz completa 70 anos de carreira artística

Eunice Muñoz celebra hoje 70 anos de carreira artística com a estreia da peça “O Cerco a Leninegrado”, da autoria de José Sanchis Sinisterra, marcada para esta noite no Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, autarquia que antes da apresentação homenageará a atriz. Também o Presidente da República se associou a esta homenagem com a entrega ao início da tarde de hoje a Eunice Munõz da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

RTP /
Será no palco que Eunice Muñoz celebra os seus 70 anos de carreira artística Mário Cruz/Lusa

Eunice Muñoz nasceu a 30 de julho de 1928 na vila da Amareleja, em pleno Alentejo, e estreou-se aos 13 anos nos palcos com a peça “Vendaval”, no Teatro Nacional D. Maria II em 1941, precisamente há 70 anos, tendo terminado o curso do Conservatório com a classificação máxima quando já era profissional.

Esta noite os 70 anos de carreira artística de Eunice Muñoz são assinalados no auditório com o seu nome, em Oeiras, pelas 21.30 horas, com a estreia da peça “O Cerco a Leninegrado”, ao lado de Maria José Paschoal, da autoria de José Sanchis Sinisterra, e encenação de Celso Cleto, que será antecedida de uma homenagem da autarquia.

Mas antes, ao início da tarde, Eunice Munõz será alvo de uma outra homenagem, esta que chega de Belém, onde a artista irá receber das mãos do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

Uma vida de teatro, cinema e novelas
"Vendaval", de Virgínia Vitorino, foi a peça com que Eunice Muñoz iniciou a carreira aos 13 anos, na então Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, tendo desde logo o seu talento sido reconhecido pelo que não tardou a entrada para o grupo que então detinha a residência no Teatro Nacional.

Não admirou este reconhecimento para quem tinha nascido numa família de atores e onde a avó, que nunca saiu do Alentejo, mas que era uma excelente atriz, iniciou Eunice no mundo do teatro ao ler-lhe textos ainda como criança de colo.

Com um início de vida como esta, Eunice Muñoz só podia ser atriz e em 70 anos de carreira apenas abandonou o teatro, o grande amor da sua vida, entre os 23 e os 27 anos e para ser secretária de uma empresa onde o seu primeiro marido trabalhava.

Os grandes atores da época, como Raul de Carvalho ou João Villaret reconheceram-lhe o talento, tal como Amélia Rey Colaço ou Palmira Bastos com quem, em 1943, contracenou, também no D. Maria II, em "Riquezas da sua avó".

Um ano mais tarde, aos 16 anos, integrou o elenco de "Labirinto", de Manuel Pressler, e ainda no verão de 1944 interpretou a primeira opereta de nome “João Ratão" ao lado de Estêvão Amarante.

Mas a verdadeira popularidade da atriz chega à sua carreira quando, no Teatro Variedades, faz parte do elenco de "Chuva de Filhos", de Margaret Mayo, ao lado de Vasco Santana e de Mirita Casimiro.

Estreia em cinema

Depois foi o cinema onde se estreou em 1946 quando, pela mão de Leitão de Barros, fez "Camões", papel com o qual venceu o prémio do Serviço Nacional de Informação para a melhor atriz cinematográfica do ano.

Ao Teatro Variedades leva "Um homem do Ribatejo", de Henrique Campos (1946), e "Os vizinhos do rés-do-chão", de Alejandro Perla (1947), mas regressa ao Nacional em 1948 com a peça "Outono em Flor", de Júlio Dantas, seguindo-se "Espada de Fogo", de Carlos Selvagem, numa encenação de Palmira Bastos, que se revelou um êxito.

O regresso ao cinema acontece com "A Morgadinha dos Canaviais", de Caetano Bonuccio e Amadeu Ferrari, adaptação do romance homónimo de Júlio Dinis, isto em 1949, mas em 1950 e 1951 duas grandes comédias celebrizadas por Ernst Lubitsch, no cinema, são recriadas com êxito pela atriz: na primeira, "Ninotchka", de Melchior Lengyel, Eunice Muñoz toma o papel que fora de Greta Garbo, ao lado de Igrejas Caeiro, Maria Matos e Vasco Santana; em "A loja da esquina", de Edward Percy, a atriz integra a Companhia de Teatro Gynásio, dirigida por António Pedro, para reviver em palco os mal-entendidos que juntaram James Stewart e Margaret Sullavan na tela.

Depois da paragem voluntária entre os 23 e os 27 anos regressa
aos palcos em 1955 para interpretar "Joana d'Arc", de Jean Anouilh, no Teatro Avenida, a que se segue "A desaparecida", de Pirandello.

Pouco depois, com Maria Lalande, Isabel de Castro, Maria José, Ruy de Carvalho, Curado Ribeiro e Fernando Gusmão, entra para o Teatro Nacional Popular onde sob a direção do conhecido Ribeirinho faz "Noite de Reis", de Shakespeare, "Um serão nas laranjeiras", de Júlio Dantas, ou "Pássaros de Asas Cortadas", de Luiz Francisco Rebello.

Na década de 1960 Eunice Muñoz entrou na comédia na Companhia de Teatro Alegre, ao Parque Mayer, juntamente com António Silva e Henrique Santana, passa pelo Monumental e Variedades e funda, com Raul Solnado, a Companhia Portuguesa de Comediantes no Teatro Villaret.

Nos anos de 1970 integrou uma nova formação artística, no Teatro S. Luiz, mas a poucas horas da estreia de "A mãe", de Stanislaw Wiktiewicz, a censura da ditadura proibiu a peça e o então diretor Luiz Francisco Rebello demitiu-se.

Passou então a dedicar-se à divulgação de poetas que ama, regressando ao teatro para interpretar, com Glicínia Quartin, "As criadas", de Jean Genet, pela mão de Carlos Avilez, no Teatro Experimental de Cascais, e é com Avilez que fará uma longa digressão por África de onde regressa em 1978.

Peças de Donald Coburn, John Murray, Bertolt Brecht, Hermann Broch, Athol Fuggard, Eurípedes, e encenadores como João Perry, João Lourenço ou Filipe La Féria, em "Passa por Mim no Rossio" (1992), foram algumas das pessoas com quem trabalhou no teatro.

Os filmes "Manhã Submersa", de Lauro António (1980), e "Tempos Difíceis", de João Botelho (1987), fazem parte do seu currículo e em
1991, quando comemora 50 anos de carreira, Vítor Pavão dos Santos, então diretor do Museu do teatro, organizou uma grande exposição sobre a vida profissional de Eunice Muñoz ao mesmo tempo que é condecorada pelo então Presidente da República, Mário Soares.

"A Banqueira do Povo", de Walter Avancini, em 1993, assinala a sua estreia nas telenovelas.

"Miss Daisy", encenada por Celso Cleto em 2006, e "O comboio da madrugada", de Tennessee Williams, dirigida este ano por Carlos Avilez, foram as últimas peças que representou.

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