Ex-ministra da Cultura defende "revisão"
Lisboa, 02 Jun (Lusa) - Isabel Pires de Lima defende que o governo deveria ter pedido uma moratória superior a seis anos para a aplicação do Acordo Ortográfico e aproveitar esse tempo para procurar um "consenso diplomático" para a sua revisão.
Durante o seu mandato, a ex-ministra da Cultura, hoje professora universitária e deputada do PS, preconizou uma moratória de 10 anos para a aplicação do Acordo.
Num artigo hoje publicado no Diário de Notícias, a ex-titular da Cultura apresenta "três ordens de razões" para a revisão do acordo:"razões técnico-linguisticas e culturais", "razões político-diplomáticas e culturais" e "razões económicas e culturais".
No primeiro âmbito (técnico-linguístico), assinala "inúmeras fragilidades" no texto do Acordo, designadamente a que decorre do princípio da "facultatividade", na sua opinião "excessiva" e que "vai contra o próprio conceito normativo da ortografia".
Também a "diversidade de critérios na simplificação de preceitos ortográficos" lhe merece nota negativa, por entender que assim se desrespeita a "dimensão patrimonial da Língua, nomeadamente a sua dimensão histórica etimológica".
Passando a enunciar as razões político-diplomáticas, a ex-ministra argumenta que se imporia "uma revisão do Acordo que atentasse à urgente necessidade de uma descrição linguística das variantes africanas do Português", em particular nos casos de Angola e Moçambique.
Deste modo, frisa, o Acordo não se limitaria a ser "o que, na prática, é, um acordo entre o Brasil e Portugal", transformando-se num "efectivo `acordo` entre pares".
"Isso poderia - observa - ser acompanhado da garantia, hoje não assegurada, de que todos os países da CPLP, envolvidos numa vontade renovada, poriam o Acordo em funcionamento em simultâneo".
Essa simultaneidade, adverte, não está garantida, correndo-se assim o "risco perverso de se transformar um instrumento que se quer estratégico de agregação num possível factor de desagregação, com a eventual criação de outros blocos de variantes linguísticas que coloquem, por hipótese, Portugal e o Brasil de um lado e os PALOP de outro".
Passando às razões económicas, Isabel Pires de Lima começa por referir que "a expansão internacional de uma língua não se faz nem por facilitações ortográficas bebidas em critérios fonéticos em detrimento de critérios etimológicos nem por unificações ortográficas estabelecidas por decreto (...), mas sim pelos conteúdos que for capaz de veicular (através da literatura, da música,enfim, da cultura).
Insistindo neste ponto, escreve ainda que "é por aí que passa uma verdadeira política de internacionalização e não pelo logro da facilitação fonética da ortografia".
"Não será o Acordo - remata - que fará o português ganhar um único leitor, um só falante ou o direito a ser língua veicular num único forum internacional".
No final do artigo, a ex-ministra chama a atenção para as dificuldades que a indústria editorial portuguesa portuguesa enfrentará para conquistar "o mercado do livro no espaço lusófono, e muito especialmente nos PALOP".
RMM.