Exposição propõe reflexão sobre natureza dos Açores e silenciamento em ditadura

Exposição propõe reflexão sobre natureza dos Açores e silenciamento em ditadura

A exposição "O Silêncio de Hefesto", que vai ser inaugurada no sábado no Arquipélago, propõe uma reflexão sobre as dimensões da natureza dos Açores e o "silenciamento" em ditadura com obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE).

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Arquipélago -- Centro de Artes Contemporâneas dos Açores

"Há uma dimensão geológica, há uma dimensão que é histórica e há uma dimensão política porque as coisas não são neutras e a forma como elas são vividas pelas sociedades variam de acordo com o tempo em que estamos, as mentalidades e as ideologias", explicou à agência Lusa a curadora da exposição, Vera Carmo.

"O Silêncio de Hefesto" divide-se em quatro núcleos expositivos do Arquipélago -- Centro de Artes Contemporâneas dos Açores, incluindo as células artísticas e a cave, e teve como "seleção nuclear" um conjunto de obras sobre a paisagem natural da região.

"Depois a exposição foi crescendo e a seleção aumentou não para uma relação estrita com as ilhas, mas para um contexto histórico e cultural que já é nacional, mas que partiu da primeira seleção", prosseguiu Vera Carmo.

A exposição coloca em diálogo "obras sobre os Açores e a relação com as diferentes dimensões da paisagem, tanto as mais oníricas como terríficas", com outras que permitem uma leitura de um "fenómeno natural a partir de diversas perspetivas".

"Vamos fazendo um caminho até ao presente de pensar as questões do silenciamento a partir de várias obras com dimensão acústica como as que vemos nas células", acrescentou a curadora.

O vulcão dos Capelinhos, em 1957, serve como "ponto de partida específico" para a reflexão entre a natureza e o contexto político, já que a erupção aconteceu num contexto de "ditadura, censura e repressão".

"A erupção dos Capelinhos tem uma importância grande em relação à produção de imagens. As imagens dos Capelinhos são as primeiras imagens de exterior da RTP. Foi a primeira reportagem. São quase um nascer da imagem mediática, da catástrofe, em Portugal", exemplificou.

A seleção das obras procura abordar as questões do silêncio e da voz, em particular num contexto de desastre natural: "Quem pode falar, quem é ouvido e em que condições a catástrofe se torna audível?".

A exposição, cujo título remete para Hefesto, deus grego dos vulcões e dos artesãos, conta com obras de Ana Vieira, Emily Wardill, Filipa César & Louis Henderson, Helena Almeida, Inês Zenha, Joana Escoval, João Paulo Feliciano, José Manuel Rodrigues, Lea Managil, Luisa Cunha, Manuela Marques, Mariana Vilanova e Marcelo Reis, Nuno Nunes-Ferreira, Paulo Brighenti, Pedro Tudela, Pedro Vaz, Sarah Affonso e Vanda Madureira.

"As obras têm a sua própria narrativa à nascença e depois, nas várias vezes que são expostas, têm diferentes contaminações por diferentes pessoas. Mas aqui há, em algumas destas obras, efetivamente, uma ideia de voz. É o silêncio simbólico para apelar à agência das pessoas".

A exposição, que vai ser inaugurada no sábado, às 17:00 locais, e pode ser vista até 01 de novembro, faz parte do programa de circulação nacional da CACE e está integrada na programação oficial da Ponta Delgada 2026 -- Capital Portuguesa da Cultura.

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