"Fado vive o maior rejuvenescimento da sua história"
Braga, 24 nov (Lusa) - O fado está a viver talvez o maior rejuvenescimento da sua história, registando-se claramente uma "new wave" deste género musical, defende o último mestrando em Literatura e Cultura Comparadas da Universidade do Minho (UM).
"Há claramente uma new wave do fado, este género está a ficar com poucas barreiras e a ser muito explorado", diz Ricardo Fonseca.
Cita a fadista Cristina Branco, que se afirmou nos Países Baixos e canta hoje poemas, traduzidos, do holandês Slauerhoff ou do inglês Shakespeare.
Por outro lado, Ana Moura compôs com Prince e com os Rolling Stones, Mafalda Arnauth canta Astor Piazzolla ou Carlos Jobim, Mísia inclui Nine Inch Nails e Joy Division no reportório.
Mas o investigador da UM considera que Amália Rodrigues "foi a mais radical".
"Ela dizia que fazia fado à medida que ia cantando. Iniciou o fado-canção, que hoje se pensa que é o tradicional, com melismas e arco operático. Convidou letristas para músicas suas, cantou Camões (foi um escândalo), posicionou-se à frente dos guitarristas (o que era impensável), interpretou folclore italiano, francês e espanhol", justifica Ricardo Fonseca.
Considera que, como qualquer objeto cultural, o fado "tende a voltar às raízes, mas sublinha que esse ciclo "não é para já".
Para já, é tempo de rejuvenescimento do fado, "talvez o maior da sua história", através da fusão de estilos, de autores diversos e de uma internacionalização "sem precedentes".
A ascensão da categoria "world music", na qual o fado foi incluído, e uma fase de fusões e subgéneros musicais coincidiu com o novo fado, graças a grupos como A Naifa, Deolinda, Donna Maria, O`QueStrada ou, num registo pop, Amália Hoje, campeão nacional de vendas em 2009.
Lá fora, também surgem derivações, nomeadamente pelos Durutti Column (Reino Unido), Clannad (Irlanda) e Judith & Holofernes (EUA).
"É um novo fôlego. N`A Naifa há fado com banda e até com letras mordazes de Adília Lopes", lembra Ricardo Fonseca.
O investigador espera que a candidatura do fado a Património Mundial seja aceite pela UNESCO, "afirmando ainda mais esta música e o país".
"Se ganharmos, dar-nos-á legitimidade acrescida, orgulho e autoestima, será uma lufada para fazer outras coisas. O fado tem inegável qualidade, representa a forma de estar dos portugueses", defende.
Ricardo Fonseca tem 25 anos e é natural de Joane, Famalicão.
Licenciou-se em Português e Literaturas Europeias na UM, incluindo um semestre de escala na Universidade Metropolitana de Manchester (Reino Unido).
Iniciou o doutoramento na Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia (EUA), mas voltou para fazer o mestrado em Literatura e Cultura Comparadas na UM, sendo o último aluno deste curso, que foi extinto.
Dentro de dias, defende a tese "O novo fado numa perspetiva transcultural".