Filme que testemunha os dias na Praça Tahrir, no Egito, passa hoje no Doclisboa

Filme que testemunha os dias na Praça Tahrir, no Egito, passa hoje no Doclisboa

Lisboa, 24 out (Lusa) -- Stefano Savona chegou ao Cairo quando a revolução já estava em curso. De câmara na mão, seguiu alguns protagonistas da Praça Tahrir. O documentário que testemunha os dias até à queda do regime egípcio é mostrado hoje, no festival Doclisboa.

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"Para mim, o Egito não é um país qualquer, é um dos sítios onde passei mais tempo nos últimos 20 anos, como arqueólogo e fotógrafo, e agora como realizador", explicou, em entrevista à agência Lusa, em Lisboa, onde está a convite do festival.

Foi no Cairo que Savona fez "escolhas" que mudaram a sua vida, mas nunca tinha encontrado uma forma de filmar a "muito fotogénica" capital egípcia. "A revolução no Cairo foi um sonho para mim", reconheceu.

Ir ao Cairo filmar "foi, em si mesmo, um ato militante", mas o realizador italiano não sabia o que ia encontrar: "Não tinha uma ideia prévia sobre esta revolução. Primeiro, fui testemunha. Por outro lado, decidi filmá-la do ponto de vista de alguns dos seus protagonistas".

"Tahrir -- Liberation Square", que integra a competição internacional do Doclisboa e será exibido hoje às 22:00, no Cinema São Jorge, não é um documentário "objetivo, [porque] não olha para a revolução de fora, mas de dentro", admitiu.

Stefano Savona chegou à capital egípcia quando a revolução já estava em curso. "Centenas de milhares de pessoas estavam juntas num sítio, conhecendo-se e descobrindo, em tempo real, à minha frente, o poder que têm", descreveu.

O realizador foi direto à Praça Tahrir, centro nevrálgico da revolução contra o regime de Hosni Mubarak. "Era o único sítio na cidade onde se passava alguma coisa. Fiquei lá e nunca a abandonei até ao fim da revolução".

Savona terminou as filmagens de "Tahrir -- Liberation Square" um dia depois da queda do regime egípcio.

O documentário já foi mostrado às pessoas retratadas nas imagens, mas ainda aguarda uma projeção pública no Egito. A estreia comercial está prevista para janeiro, nos cinemas franceses.

O realizador italiano, que vive atualmente em Paris, continua a acompanhar os acontecimentos no Egito, onde já voltou mais três vezes. O que se passa atualmente no país "é muito complexo, muito confuso, muito fluido".

"Eles ainda não sabem para onde vão. O exército tem tanto poder agora... muito depende do que estiver disposto a deixar à democracia", sublinhou.

"As pessoas que fizeram parte da revolução não estão preparadas para voltar a casa e continuar como se nada tivesse acontecido", destacou.

O realizador diz que "tudo depende de como as próximas eleições, no final de novembro, vão correr", mas antecipa que "um grande número de pessoas irá votar".

"Pela primeira vez a democracia estará lá. As pessoas querem envolver-se na política, querem ser ouvidas pelo poder. Se a democracia não for implementada, tenho a certeza de que voltarão à Praça Tahrir e às ruas. Tudo pode ficar muito perigoso se nada acontecer, porque as pessoas estão zangadas", estima.

Savona distingue os movimentos populares que têm surgido na Europa e os protestos nos países árabes. Nestes últimos, recorda, não há democracia. "Nas democracias ocidentais, votámos nos governos que temos", recorda.

Claro que os protestos dos chamados "indignados" são "uma coisa boa", porque mostram que "as pessoas querem envolver-se". "A praça é, antes de mais, um espaço político. Tivemos uma terrível perda de espaços públicos na Europa nos últimos 20 ou 30 anos", assinala.

Mas o realizador alerta para "o perigo" do argumento de "combater a política". "Isso não chega, temos de encontrar uma forma de nos envolvermos na política, de jogar as regras da democracia, em vez de dizer que tudo é mau", contrapôs.

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