Hot Clube recorda "rosto incontornável da história" da instituição
O Hot Clube de Portugal salientou hoje o "enorme legado" deixado pelo compositor, artista plástico e arquiteto José Luís Tinoco, "rosto incontornável da história" daquela instituição, que morreu na quarta-feira, aos 93 anos.
Numa nota partilhada hoje nas redes sociais, os responsáveis pelo Hot Clube de Portugal começam por dizer que a instituição recebeu "com profunda tristeza a notícia do desaparecimento de José Luís Tinoco".
"Sócio honorário, José Luís Tinoco foi um rosto incontornável da história do Hot Clube, juntamente com Luíz Villas-Boas, Bernardo Moreira e Tó Zé Veloso. Foi presença assídua nas `jam sessions` e concertos que fizeram a história desta casa e deram forma a uma geração decisiva para o jazz em Portugal", recorda-se na nota.
Pianista, criador de canções como "No teu poema", "Um homem na cidade" e "Madrugada", José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou "Perseguição dos dias", o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins, Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém "a qualidade dos grandes `standards`", como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.
O Hot Clube de Portugal lembra que em José Luís Tinoco "conviviam mundos que se complementavam de forma verdadeiramente singular".
"A sua partida deixa um enorme legado, muitas memórias e, claro, muitas saudades", lê-se no comunicado, através do qual o Hot Clube apresenta "sentidas condolências à família e a todos aqueles que foram próximos" de José Luís Tinoco.
A marca de José Luís Tinoco, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitetura, à ilustração, ao cartoon, à fotoanimação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.
Concebeu mobiliário, espaços interiores, desenhou capas para livros de autores como Alfred Jarry e José Rodrigues Miguéis, assinou emissões filatélicas dos CTT.
Na década de 1980, lançou as bases para o Levantamento da Arte Portuguesa Contemporânea, que dirigiu para a então Secretaria de Estado da Cultura.
José Luís Tinoco é também o arquiteto do plano de urbanização do bairro do Rego, em Lisboa, que a burocracia e antigas gestões municipais não deixaram concretizar; o arquiteto da escola do Porto, com o curso concluído na capital, quase de imediato nomeado para o Prémio Valmor pelos traços contemporâneos de uma moradia no Restelo, num concurso que acabou cancelado muito antes de Abril.
José Luís Tinoco nasceu em Leiria, em 27 de dezembro de 1932, num meio cultural privilegiado, como reconhecia, raro para a época. O pai era reitor do liceu, diretor do Círculo de Cultura Musical e do Museu da Cidade; a mãe, Maria Carlota Tinoco, pianista, pedagoga, concertista.
Em 2014, recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espectáculo de homenagem "Os lados do mar - José Luís Tinoco", dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.
Em 2021, a RTP estreou o documentário "Vida e obra de José Luís Tinoco", de Laurent Filipe, disponível na plataforma RTP Play, que atravessa as diferentes expressões da sua obra.
Em 2022, o município de Leiria homenageou-o nos seus 90 anos, num concerto com os músicos Bernardo Tinoco, Pedro Branco, João Hasselberg e João Sousa.
O velório de José Luís Tinoco decorrerá na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), na Sala Galeria Carlos Paredes, a partir das 17:00 de sexta-feira, 17 de abril, até às 23:00.
No sábado, de acordo com a SPA, o velório reabre às 11:00, com saída pelas 15:30 para o Crematório dos Olivais, onde a cremação deverá ocorrer a partir das 17:00.