Jon Fosse entre os convidados do FOLIO que lança órgão consultivo para a literatura
O Festival Literário de Óbidos, que decorre entre 08 e 18 de outubro sob o lema "Para além da pele", terá entre os convidados o Nobel da Literatura Jon Fosse e marcará o arranque de um novo órgão consultivo.
Na sua 11.ª edição, o FOLIO -- Festival Literário Internacional de Óbidos levará àquela vila do distrito de Leiria, logo no primeiro fim de semana, o Prémio Nobel da Literatura 2023, o escritor e dramaturgo norueguês, Jon Fosse, de quem estão publicados em Portugal diversas obras, entre as quais "Manhã e noite", "Trilogia", "Uma brancura luminosa", "É a Ales" e "Casa de barcos".
Outros nomes destacados pelo curador do Fólio Autores, Pedro Sousa, foram a escritora brasileira Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a entrar na Academia Brasileira de Letras, e dois vencedores do Prémio Booker: o canadiano Yann Martel e a indiana Kiran Desai, que em 2006 se tornou a mais jovem mulher a ser distinguida com aquele galardão.
A escritora espanhola Aixa de la Cruz, de quem foi recentemente publicado "Mudar de ideias", e a francesa Catherine Millet, que lançou por volta da mesma altura "Ciúme", também marcam presença no festival, tendo sido referidas pelo vereador como exemplo de escritoras "corajosas" pelos temas que abordam.
A escritora e psicanalista brasileira Vera Iaconelli, que se colocou a si própria no divã para escrever "Análise. Notas do divã", publicado em março, e o escritor franco-argelino Kamel Daoud, duas vezes vencedor do Prémio Goncourt, com "Meursault, contra-investigação" (romance de estreia) e "Huris", que põe o foco na guerra civil argelina, nos anos 1990.
A também vencedora do Goncourt Leila Slimani, a escritora e jornalista argentina Gabriela Cabezon Cámara, vencedora do National Book Award para obra traduzida, e autores como Michael Cunningham, Mohamed El-Kurd, Michela Marzano, Anne Serre, Rachid Benzine, Martin Desrosiers e Niklas Frank são outros autores que participarão no FOLIO.
Entre os portugueses, destaca-se a presença de Valter Hugo Mãe, que participará numa mesa com Ana Maria Gonçalves, o humorista Ricardo Araújo Pereira, o jornalista e escritor António Cabrita e o linguista Marco Neves.
O FOLIO Mais, com curadoria de Candela Varas, propõe ser um espaço de cruzamento de disciplinas e de experimentação em torno da literatura, contando esta ano com 13 presenças internacionais, entre as quais o mexicano Emiliano Monge, a cubana Elaine Vilar Madriga, o basco Bernardo Atxaga, a espanhola Maria Sánchez, a brasileira Mariana Salomão Carrara e o italiano Stefano Mancuso, entre outros.
Para a curadora, querer ir além da pele é abrir-se ao mundo, nesta era de antropocentrismo, e experimentar formatos híbridos, reaprender e apostar numa mudança de perspetiva.
Candela Varas afirmou que um dos objetivos desta edição é plantar 200 árvores, envolvendo as escolas.
O FOLIO Educa promete levar 75 oficinas a todas as turmas de todas as escolas de Óbidos, com escritores, ilustradores, ceramistas e cenógrafos aos estabelecimentos de ensino, enquanto o FOLIO Ilustra tem mais de 175 criadores de vários países envolvidos e propõe como desafio trazer a ilustração a outros suportes.
O FOLIO Tec vai assentar sobre quatro eixos: humano, trabalho e organização; corpo ciência e tecnologia; Inteligência Artificial (IA) e futuro; IA como mente pensante.
A organização do FOLIO anunciou hoje também a criação do Conselho Estratégico da Literatura e do Conhecimento, um novo órgão consultivo do município para a "literatura como política pública", que terá a sua primeira reunião durante o evento.
"Queremos transformar a literatura numa verdadeira política pública", afirmou Ricardo Duque, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Óbidos, explicando que este órgão será também um laboratório de ideias, um espaço qualificado de aconselhamento ao município e uma estrutura de apoio à decisão política.
Segundo Ricardo Duque, com este conselho estratégico pretende-se "que Óbidos seja reconhecida como vila literária" e "também contribuir para o debate sobre o papel da literatura na política pública".
Os conselheiros fundadores deste órgão são a presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Rio, e os escritores José Luis Peixoto, Mia Couto, Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Tatiana Salem Levy, José Eduardo Agualusa, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares e Pedro Freitas, poeta da cidade.
Segundo o município, ao longo da última década, Óbidos afirmou-se como cidade criativa da UNESCO na área da literatura, mas esta aposta não se esgota na programação de eventos, pelo contrário, constitui uma estratégia de longo prazo, assente na formação de públicos, na valorização da leitura, na articulação com a educação, na criação artística, na dinamização económica, na qualificação urbana e na internacionalização da língua portuguesa.
É nesse contexto que se torna necessário criar esta estrutura permanente de pensamento, aconselhamento, reflexão critica e produção de conhecimento, acrescenta.
O presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Filipe Daniel, destacou que o investimento na área da cultua ocupa 17% do orçamento municipal, uma escolha política que diz ser assente em resultados económicos concretos, já que a cultura atrai talento, fixa pessoas, qualifica as comunidades e gera valor económico real, na medida em que funciona como motor financeiro para o comércio, hotelaria, restauração e serviços.
"Queremos fazer da literatura uma verdadeira política pública em Portugal", afirmou, acrescentando: "Estamos a formar novos públicos, a estimular o pensamento crítico e a dar ferramentas de emancipação democrática às novas gerações desde a infância".
O autarca apontou que é com base nesta experiência que assumiu candidatar Óbidos a capital portuguesa da Cultura em 2028, contando com o apoio dos membros do conselho estratégico.
"O principal legado físico e institucional desta nossa visão será a criação do Centro Internacional da Literatura e do Conhecimento", afirmou, explicando que esta "grande infraestrutura cultural" será concebida como uma biblioteca contemporânea, um centro de criação artística e um espaço de investigação e debate cívico.
"Óbidos provou que consegue gerar riqueza a partir da cultura", sublinhou, revelando que o orçamento do FOLIO ronda os 535 mil euros, "um bom investimento na transformação territorial".