Jornal de Letras "é um ato de resistência cultural" - José Carlos de Vasconcelos
O jornalista José Carlos de Vasconcelos, vencedor do Prémio Vasco Graça Moura--Cidadania Cultural, afirmou hoje que o JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, quinzenário que dirige há 35 anos, "é um ato de resistência cultural, cívica e jornalística".
Contactado pela agência Lusa na sequência do anúncio do vencedor, José Carlos de Vasconcelos comentou que a escolha do júri, por unanimidade, "é uma surpresa, e muito boa".
"É um reconhecimento e um incentivo que por vezes é bem preciso, porque a luta e o esforço tem que ser grande, dada a escassez de recursos. Toda a imprensa está em crise, e imagina-se o que é manter um jornal cultural como o Jornal de Letras", avaliou o galardoado, sobre a longevidade do quinzenário.
O JL "faz 36 anos em março deste ano, e nunca deixou de sair", sublinhou o jornalista e escritor de 76 anos, natural de Freamunde, concelho de Paços de Ferreira.
Esta é a segunda edição do Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, no valor de 40.000 euros, e o nome da personalidade distinguida é revelado no dia em que o poeta e ensaísta Graça Moura completaria 75 anos.
"Fico muito contente com o prémio por todas as razões. Desde logo por ter o nome do meu amigo e grande poeta, Vasco Graça Moura, por ser uma segunda edição, e ter sido atribuído na primeira a Eduardo Lourenço. E também por aquilo que o próprio prémio significa e o que premeia, que é a intervenção cultural e cívica, que, de facto, tem marcado toda a minha vida, inclusive como jornalista".
José Carlos de Vasconcelos defendeu que "o jornalismo deve ser um ato de cultura e de cidadania também".
O fundador e diretor do JL foi apontado pelo júri do galardão - presidido por Guilherme d´Oliveira Martins, como "um raro exemplo de persistência na imprensa portuguesa de âmbito cultural".
"É uma apreciação muito generosa, e provavelmente justa, mas que só tenho que agradecer, e fico muito contente com um júri tão qualificado e com figuras tão destacadas possa ter sobre mim esse juízo", comentou, sobre o elogio do júri.
Sobre o segredo de manter há quase 36 anos um quinzenário cultural, José Carlos de Vasconcelos comentou: "É sobretudo muito trabalho e tentar fazer na área da cultura jornalismo de qualidade, independente, não ao serviço de nada, nem sequer de certa orientação estética, ideológica, ou outra".
Apontou ainda "a bondade" das causas que defende: "a defesa da língua e da cultura portuguesas, e da ideia da lusofonia, de um maior diálogo entre os países que usam esta mesma língua, a nossa maior riqueza, às vezes tão maltratada e menorizada".
O júri foi ainda constituído por Maria Alzira Seixo, José Manuel Mendes, Manuel Frias Martins, Maria Carlos Gil Loureiro, Liberto Cruz e, ainda, por José Carlos Seabra Pereira, em representação da editora Babel e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, pela Estoril Sol.
Em ata, o júri salientou que, "uma vez que se trata de um prémio de cidadania cultural, o papel desempenhado com grande generosidade e determinação, inteligência e elevado sentido profissional, pelo premiado na fundação, direção e manutenção do JL -- Jornal de Letras, Artes e Ideias".