"Ku Handza" dá voz aos que "esgravatam" para sobreviver em Moçambique

"Ku Handza" dá voz aos que "esgravatam" para sobreviver em Moçambique

O documentário "Ku Handza", de André Guiomar, estreia-se dia 25 nos cinemas, data da independência de Moçambique, e procura o "país invisível", onde, 51 anos depois, continua a ser preciso esgravatar para sobreviver.    

Lusa /

"Ku Handza é uma expressão ouvida na rua, diariamente, entre as pessoas que se perguntam como estás, ou como está a correr o dia. E normalmente respondem, estou a `handzar`, ou `ku handza`, porque tem a ver com o esgravatar à procura de comida que a galinha faz e que o moçambicano muito bem adaptou para o seu dia-a-dia", explicou o realizador à Lusa.

Encontrada a expressão-metáfora que dá nome ao documentário, e que sustenta as vidas de Benjamim, Eulália e Filimone, entramos no propósito de André Guiomar, cuja câmara acompanha a luta pela sobrevivência de três chefes de família, para "arranjar a sua migalhinha", e chegar ao fim de mais um dia.

"São coisas muito íntimas, muito do foro privado e familiar, mas todas influenciadas por algo maior, por algo externo", afirmou o realizador, que destaca a participação "empenhada", mesmo se a câmara despe todas as vulnerabilidades.

"Um câmbio monetário", que pode determinar se Benjamim consegue ou não organizar uma festa de aniversário para o filho, "a guerra sem grande explicação no norte do país", que tira Filimone de casa, a cada seis meses, o que o impede de acompanhar o crescimento das três filhas, ou " a lixeira a céu aberto" a que regressa Eulália poucos dias depois de ter o seu sexto filho prematuro, e para onde se vê forçada a levar a menina recém-nascida.

"A vida deles tem de estar ali espelhada. Nada daquilo é inventado. Pode ter mais ou menos manipulação, a descer ou a subir a montanha, a fazer uma curva diferente, porque para o `shot` é bom. Mas não há uma história de amor inventada. Não há uma história de um pai e filho que não exista. Tudo aquilo é real. São as histórias deles", observa o realizador que tem com Moçambique uma forte ligação de 15 anos.

"Sinto que o cinema moçambicano também precisa urgentemente de olhar para a atualidade. Não só para o seu passado histórico, mas olhar para as pessoas agora, o que elas passam agora. Este lado crónico que um moçambicano tem de não conseguir, de não ter a subsistência para o seu próprio dia, não ter uma capacidade grande de sonho a longo prazo, é tirar a um ser humano essa possibilidade de perspetiva no futuro", observa.

Fala por isso de "um país quase invisível", fruto de escolhas "políticas, económicas e sociais", grandes temas que sobrevoam o documentário e que influenciam a vida de pessoas "que, à lupa, parecem pequenas". Essa é a lógica que o autor "tenta inverter", trazendo para o espaço mediático, através do cinema documental, a voz dos mais frágeis e esquecidos.

"Tento sempre, com os filmes que faço, humanizar ao máximo as personagens que me permitem filmar. E isso normalmente tem o objetivo de simbolicamente representar, ou pôr uma lupa, em alguns temas, em algum momento, em algum território. Porque acho que só assim é que se consegue tomar decisões maiores, políticas que sejam", sublinha.

E, mesmo sabendo que para a vida daquelas pessoas "não faz grande diferença ter feito o filme", sobra o aconchego de as sentir "representadas" e "orgulhosas" daquilo que são dentro do filme.

"Como objeto artístico a minha grande preocupação são sempre as pessoas que estão dentro do filme. Humanizar aquelas histórias é torná-los uma espécie de super-heróis dentro da sua vida, porque nós decidimos pôr uma lupa em alguém que não tem voz",afirma.

No caso de André Guiomar (1988, Porto), realizador e sócio fundador da produtora Olhar de Ulisses, o mapa sobre Moçambique permanece aberto, antecipando para breve mais uma curta de ficção e uma longa documental, num percurso que lhe tem valido vários prémios e reconhecimento.

Em 2023, estreou "Espinho" em correalização com Mya Kaplan, na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes. Em 2022, tornou-se um `Talento Berlinale` e correalizou "Saturno" com Luís Costa, filme com estreia no Festival Internacional de Cine de Guadalajara.

A sua primeira longa-metragem documental "A Nossa Terra, o Nosso Altar" (2020), sobre o Bairro do Aleixo, no Porto, teve estreia mundial no Sheffield Doc/Fest, venceu o `Youth Jury Award` no Festival ZINEBI e Realizador Emergente no Porto/Post/Doc. Realizou também a curta-documental "Pele de Luz" vencedora do Prémio do Júri do Doclisboa e "Píton", vencedora de vários prémios internacionais.

O seu olhar e a sua lente trazem uma luz de esperança, que talvez "possa tocar um bocadinho no coração dos políticos", diz, mesmo afirmando que um filme "não muda a vida de ninguém".

"Sempre que podemos fazer uma obra que tente humanizar as pessoas tenho esperança que isso possa tocar um bocadinho mais no coração dos políticos e tentem tomar as decisões com isso também dentro de si", conclui.

A escolha de dia 25 para a estreia de "Ku Handza" nas salas de cinema surge com a vontade de juntar uma data simbólica a uma reação. A ver se se quebra o feitiço do antigo provérbio africano: "quando os elefantes lutam, quem sofre é o capim".

Porque apesar do destino e da brutalidade, o filme mostra como é possível "celebrar o nascimento de uma vida, com uma dança no meio duma lixeira". E isso, acredita André Guiomar, "nenhum argumentista poderia ter escrito".

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